Luciana Bugni

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Opinião

A celulite de Sofia Vergara aos 50 anos e o nosso medo do julgamento alheio

Sofia Vergara tem um papel icônico que durou 10 anos na TV: a Glória de "Modern Family". A personagem era o estereótipo da mulher colombiana estonteante. Na série, sucesso nos EUA e no Brasil, fazia a latina que é símbolo sexual para o pessoal lá do hemisfério de cima. Quando entrava nos ambientes, parava tudo — homens de todas as idades ficavam boquiabertos.

Quando começou o sitcom, em 2009, Sofia tinha 37 anos. Não era exatamente jovem para os padrões hollywoodianos, mas segurava todo esse rótulo de gostosa em vestidos curtos e decotes abismais que faziam parte do personagem. "Modern" teve a última temporada em 2020, e nesses anos vimos os personagens infantis crescerem, mudarem o tom de voz, virarem adultos. Sofia, não. Glória tinha sempre o mesmo rosto (e cintura esculpida em macacões colados).

Recentemente, a atriz deu vida a Griselda na minissérie homônima da Netflix. A caracterização da personagem era o oposto de Glória: dentes retorcidos e amarelados, prótese de nariz, sobrancelhas disfarçadas. A ideia é que Griselda ficasse longe do modelo de beleza latina da mãe de Mani em "Modern".

Sofia brilhou, a produção fez sucesso. Mas ela comentou recentemente que ficou insegura ao gravar a cena de sexo em um dos capítulos. "E se vissem minha celulite?", disse, confessando que talvez não se preocupasse tanto aos 30 anos, mas o impacto aos 50 seria maior.

A pressão estética atinge todas as mulheres, mas enquanto envelhecemos parece que nos estranhamos ainda mais no espelho. Sofia, eternizada em centenas de episódios em que sua beleza padrão é exaltada, aceitou numa boa fazer um personagem que contrariasse esse modelo de pedaço de carne peitudo. Mas na hora de tirar a roupa a coisa complicou até para ela que, aos 50, coloca quase toda mulher mais nova no bolso.

Em tempos de nudes e venda de imagem antes de conhecer a pessoa nos aplicativos de paquera, é possível filtrar celulites, estrias, flacidez e outros contornos indesejáveis para o padrão dos anos 90 que, parece, voltamos a almejar. Mas na hora do ao vivo, preocupam-se as mulheres que intencionam sexo ocasional, o corpo de verdade aparece. Sofia em cena somos todas nós no quarto tentando se cobrir em momentos em que o desejado é justamente o contrário.

Como tirar a roupa e praticar o sexo livremente se, na cabeça das mulheres, o corpo decente é o da Shakira (só para citar outra colombiana) aos 46 anos? Será que os caras estão esperando esse tônus muscular todo que a gente acha que devia ter? E se sim, eles vão conseguir onde? Em cena, Sofia acha ok o pessoal ver um nariz com prótese para parecer maior, porque é falso e o rosto perfeito está ali atrás, mas ver a coxa de verdade seria mais complicado. E um rosto sem botox, nesses moldes, vai ser viável quando?

Se fosse o oposto e, aos 50 anos, a mulher segura de si pudesse tirar a roupa tranquilamente, ciente de que cada marca é sinal de sua história, seria mais justo — e, convenhamos, quanto mais história, maior a chance de um bom desempenho sexual.

É interessante o movimento de famosas sem retoque nos ensaios fotográficos, Paolla Oliveira aos 40 exigindo que seu corpo seja respeitado em edições de imagens, Anitta assumindo a celulite desde os 20 anos. Talvez estejamos caminhando. Mas vai ser melhor ainda quando mulheres de meia-idade puderem tirar a roupa com a luz acesa e viver o prazer livre dessas amarras, mesmo que seja na ficção. Tem que começar por algum lugar.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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