Luciana Bugni

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Opinião

Do meme ao estádio lotado, Bethânia mostra aos jovens o que é ser intensa

Um amigo me manda um meme: Bethânia de coque, em uma mesa de bar, tomando uma cerveja gelada em um copo americano. Na foto, a frase: "Não configura alcoolismo se estiver tocando Maria Bethânia". A cena, recente, em que a cantora está com o cabelo branco, me leva à outra imagem, de décadas antes, que considero um dos melhores deleites fornecidos por esse site chamado YouTube nos últimos anos de pesquisas que varam a noite garimpando pérolas da MPB.

Ali, está Bethânia jovem, na década de 60 ou comecinho de 70, sentada em uma mesa de bar na praia, de tomara que caia alaranjado, cabelo alisado num penteado 60's, bracelete de búzios e palha no braço esquerdo e dezenas de pulseiras de metal no direito. Ao seu lado, um atlético Paulinho da Viola, sem camisa, tocando violão.

"Conhece esse samba?", pergunta o cantor. Ela, com a cervejinha e o cigarro na mão apoiada nas costas da cadeira diz "toca", curiosa. "Eu esperei com resignação o triste dia da separação", emenda sorrindo ao reconhecer os primeiros acordes. A cena é daquelas que magnetizam. O movimento de câmera quase suja nossos pés de areia. A gente escuta o barulho de um amigo enchendo nosso copo, batendo papo, batucando à mesa. Tudo é familiar: os timbres, a sintonia, o repertório romântico, o profundo interesse no artista que está ao seu lado.

Seguramente eu estive nessa mesa com eles em alguma outra encarnação, eu me pego pensando sobre a cena que aconteceu pelo menos uma década antes de eu nascer. Uma música emenda na outra, Bethânia de olhos fixos na mão esquerda de Paulinho que escorrega com intimidade pelo braço do violão. Ambos riem e flanam pela poesia. Eu, hein, "meu pecado é querer amar demais".

77 anos e no coração da garotada

2024 é o ano Bethânia. Todos os outros também são há várias gerações, mas neste a cantora, que faz 77 anos esse mês, está em todas. Tomando uma gelada no meme, lotando estádios com Caetano Veloso na turnê que farão juntos e que percorre o Brasil no segundo semestre, agitando a juventude como a atração principal de grandes festivais... e também nos fones de ouvido daquele milennial que faz cara de mau na academia mas está com o peito rasgado por dentro enquanto ela canta que não vai mudar e que esse caso não solução. Quem resiste?

O humorista Paulo Vieira, que nasceu em 1992, falou bonito no Caldeirão do Mion. "Pra mim, Caetano e Bethânia são meus pais. Venho de uma família humilde e parte da minha educação, de referências, de cultura, de ideologia, de política, daquilo que meus pais não puderam me dar, foi dado por esses dois", disse, emocionado.

A cena mais compartilhada de Aquarius, filme de Kléber Mendonça de 2016, é aquela em que a personagem de Sônia Braga fala para o sobrinho botar Bethânia para tocar para garota de quem gosta e, assim, mostrar que é intenso. No toca-fitas do carro, grita a letra de Roberto Carlos: "palavras são palavras".

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Um amigo bem mais jovem que eu me pergunta qual das canções eu tocaria para mostrar que sou intensa — eu digo que aquele compilado do show Drama, em que ela sai da confissão "A outra" para literalmente sentar no pescoço do pianista enquanto diz que Maria Escandalosa, é muito prosa, é mentirosa, mas é gostosa. "Deixa essa gente falar de mim".

Lembro da minha mãe, nascida em 1952, me contando que se refez de um término de namoro com "Olhos nos olhos", há quase 50 anos. Eu imagino as gerações enfileiradas dizendo que, como era de costume, obedeceram. E depois remoçando e cantando sem mais nem porquê. Gente intensa sempre existiu, sempre vai existir e o melhor de ser brasileira é que tem Bethânia para levantar todo mundo. "Estou viva, estou quentinha, sou de Iansã", ela diz para Mion quando perguntada sobre ainda se sentir tocada pela arte.

E se renova: "Fevereiros", o show que fez nos últimos anos, foi levado para grandes festivais no Brasil, com público bem jovem. No Coala, em 2022, em São Paulo, de casaco vermelho, às vésperas da eleição presidencial, fazia todo mundo berrar os versos de "Vai na fé ("erga essa cabeça, mete o pé" etc.), do Revelação de Xande de Pilares. No domingo (26), subiu no palco com o próprio cantor, no festival Doce Maravilha, no Rio, cantando "Diamante Verdadeiro". Francamente, meu amor, como não brincar entre o que deve e o que não deve ser?

Aglutinadora de repertório para qualquer confusão sentimental

Há um vídeo em que Chico Buarque confessa que mandou "Olhos nos olhos" para ela nos anos 70 e ficou sem resposta. "Ih, não gostou, terei que procurar outra cantora", diz sob o protesto de uma gargalhante cantora que diz "mas eu amei!". Bethânia fez a curadoria da música brasileira pra nós e, sob sua voz, qualquer "quase enlouqueci" é uma loucura diferente. Quem faz música nesse país agradece.

No repertório vasto, de compositores de estilos variados, é possível encontrar matéria-prima para todo tipo de sentir. Tem música para terminar namoro e tem para voltar a amar ("eu quero um amor perfeito pra me guiar meu peito que por ti já padeceu demais"); para amor que não pode ser, mas a teimosia da paixão segue em frente ("me proibiram que eu te amasse, proibiram que eu te visse, ninguém pode parar meu coração", no dueto com Zeca, é para ver no repeat). E tem música para quem dá aquela tremida na base porque já caiu do cavalo e sabe quanto dói o tombo ("e confesso tive medo quase disse não"), mas mesmo assim sobe de novo ("quem não sabe amar há de sofrer porque não poderá compreender").

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Tem amor-livre antes de ser moda na geração Z ("O seu amor, ame-o e deixe-o, livre para amar") e verso para adoçar dores profundas e dizer para si mesmo que está ciente e quer continuar ("Quanta tristeza eu tive mas mesmo assim se vive morrendo aos poucos por amor"). O negócio é desatinar, debochar da dor, do pecado, do tempo perdido, do jogo acabado. E tem o dolorido conformismo utópico quando a gente combina que é quase nada ("é tudo somente sexo e amizade" enquanto os dois derem conta).

A melodia recente para essa intensa confusão entre o medo de amar e o desejo profundo de ser um emocionado é "Prudência", de Tim Bernardes. A interpretação traz a dualidade da galera que se apaixona como quem joga Tetris em busca de dopamina. "Me pego evitando os amores que desejo em segredo, da intensidade da dor tenho medo, quem já se feriu presta mais atenção. Mas longe de qualquer perigo eu me afundo num tédio, que vida vazia sem nenhum mistério, na dura apatia de um controlador". Dá para ir de uma ponta à outra na mesma estrofe e voltar inteirinho quebrado e mesmo assim meio feliz porque pelo menos viveu — vai entender.

É isso, Bethânia dando o aval para que todo mundo, não importa a idade, se dê conta que às vezes se ronda a cidade a procurar sem encontrar mas as paixões que descontrolaram são as que fazem ser como somos. Tem drama, tem Brahma, uma bagunça danada no coração meio puído mas, ao fim de cada ato, a certeza de que é possível limpar no pano de prato: o que eu chamo de chorar três dias, colocar o óculos de sol e se apaixonar de novo.

O meu pecado é querer amar demais, estou sabendo. Ainda bem que a trilha sonora é boa.

Você pode discordar de mim no Instagram. Ou parar tudo que está fazendo e sentar no bar com Paulinho da Viola e Maria Bethânia cantando e sorrindo o amor. Eu estou naquela mesa faz tempo.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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