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Luciana Bugni

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que o fato de Kim ter estragado o vestido de Monroe nos deixa tristes?

Vestido de Marilyn Monroe foi usado por Kim Kardashian no Met Gala 2022: "deu uma rasgadinha aqui, ó" - Dimitrios Kambouris/Getty Images e reprodução/Instagram @1morrisette
Vestido de Marilyn Monroe foi usado por Kim Kardashian no Met Gala 2022: "deu uma rasgadinha aqui, ó" Imagem: Dimitrios Kambouris/Getty Images e reprodução/Instagram @1morrisette
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

15/06/2022 09h50

Kim Kardashian é assunto desde muito nova. Tudo em que ela encosta vira polêmica. Dessa vez, ela resolveu tocar em uma peça icônica para a história da moda, que de certa forma se confunde com a história política e cultural dos Estados Unidos. E Kim encostou, digamos, pelo lado de dentro, usando um vestido que foi de Marilyn Monroe no MET Gala de maio deste 2022.

Segundo fotos postadas no Instagram, deteriorou a peça: a lenda diz que o corpo mignon de Marilyn já havia começado a rasgá-la há 60 anos e Kim, que emagreceu 7 quilos para caber nele, terminou de esgarçá-lo.

Mas por que a internet ficou tão triste com o fato de uma peça de 60 anos atrás ter ficado rota?

O vestido nude longo de Marilyn Monroe foi usado em maio de 1962 em uma aparição polêmica em Nova Iorque. O evento era o aniversário de John Kennedy, então presidente dos Estados Unidos. A atriz foi escalada para cantar um libidinoso "Happy Birthday to you" ao líder do país, que também era seu amante, na frente de um Madison Square Garden lotado. Dizem que o vestido transparente, que foi costurado em seu próprio corpo, começou a romper. E que ela não estava usando nada por baixo, gerando comentários indecentes do presidente. Vai saber...

marilyn - Reprodução Marylin e JFK (Editora Objetiva) - Reprodução Marylin e JFK (Editora Objetiva)
Marilyn Monroe ao lado do presidente em 1962
Imagem: Reprodução Marylin e JFK (Editora Objetiva)

Se não estiver bom de polêmica, tem mais. A cobertura jornalística desse dia foi censurada, rolos de filmes arrancados das máquinas, e há poucas fotos da situação. O que se sabe é que foi a última vez que Marilyn e Kennedy se viram. Ele, casado com Jacqueline Kennedy, que mais tarde se tornou Onassis, rompeu o caso que tinha com a atriz depois desse evento. Ela morreu meses depois, ele foi assassinado no ano seguinte. A história completa foi narrada pelo romancista e crítico de cinema francês François Forestier, no polêmico Marilyn e JFK (Objetiva). É tudo verdade? Não sabemos. O próprio autor afirma que não tem muito boa índole.

A história rasgando a história

O tal vestido de Monroe é uma das peças mais caras do mundo e já custou 5 milhões de dólares em leilão. Após a atualizada de Kardashian, estima-se que valha o dobro — quase R$ 50 milhões se convertido para a moeda brasileira. Caíram umas pedras, o zíper ficou esquisito, mas agregou valor, sim. E traz uma dúvida: por que somos tão apegadas às peças de roupa se sabemos que depois de décadas elas não funcionam mais como antes?

Por exemplo: o pijama que Getúlio Vargas estava usando no dia em que deu um tiro no peito para sair da vida e entrar para a história. Não tem nem a transparência, nem a pedraria da peça de Monroe, mas está exposto no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Exatamente no antigo quarto em que o presidente cometeu suicídio. Está tudo lá: mobília, revólver... um retrato em 3D da história que estudamos nos livros.

O pijama é tirado do espaço por dois terços do ano para ser acondicionado de maneira que não se deteriore. E mesmo com tanto cuidado... você já viu como fica uma mancha de sangue depois de 70 anos? Não tem conservação que preserve uma peça exatamente como era para sempre. Os rasguinhos nas costas do vestido transparente, "Mister President", bem sabem.

Uma coisa é a gente entrar na Casa de Anne Frank, em Amsterdã, fazer todo o roteiro pelo local em que a família judia se escondeu por anos, entrar por uma porta e dar de cara com "O Diário", original, em uma redoma de vidro. Outra é um vestido que vem sendo leiloado há cinco décadas e foi emprestado pelos atuais donos para uma celebridade tão famosa quanto Monroe. Donos esses que acabaram com uma peça meio estragada na mão, mas que vale o dobro hoje.

A internet está triste com o quê? Com a história dos EUA sendo renovada? Com pequenas avarias na roupa de uma mulher que morreu há 60 anos e seguramente não vai ligar?

É a mesma coisa que ficar triste com sua mãe porque ela deu o próprio vestido de noiva para uma prima. Ou pior: porque ela guardou uma peça amarelada para você usar e, como Kim Kardashian, você nem cabe nele.

Roupas acabam, objetos se vão. Se eles são parte importante da história de um país ou do mundo, como o pijama de Vargas, ou o diário de Frank, devem ficar acomodadinhos sempre dentro de museus. Se eles foram usados pela amante do presidente acabam calculados pela margem de lucro que representam. É uma pena, mas assim que funciona.

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