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70 anos de novela e o prazer do entretenimento coletivo para o brasileiro

Jamanta (Cacá Carvalho) em Torre de Babel: "Jamanta faz bum!" Imagem: Reprodução Rede Globo
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Luciana Bugni

Colunista do UOL

21/12/2021 04h00

Quem tenta conversar com um português, em Portugal, pena para entender algumas gírias e expressões lusitanas. Já os portugueses entendem com desenvoltura tudo o que falamos em — como eles dizem — "brasileiro". "Venho assistindo as novelas brasileiras há muito tempo", justificam. Que catiguria...

Novela é patrimônio nacional. Única opção de entretenimento noturno para a classe média por anos, virou um hábito desses difíceis de mudar. Os tempos atuais são de fartura de oferta de produtos audiovisuais. Eu sou chique, bem. Foi-se a época em que o videocassete era a único opção de dar uma variada no que se via — e o aluguel de filmes ficava restrito ao fim de semana, quando se podia aproveitar mais. Agora é luxo: dá para ver estreias todos os dias no streaming, maratonar séries em dias de semana ordinários, fazer listas compridas de títulos que nunca teremos tempos de ver...

Mas e a novela?

Não tem brasileiro sem novela. Por mais que alguns façam questão de dizer de maneira blasé que não veem uma há anos, todo mundo tem uma memória de novela — mesmo que a última tenha sido Avenida Brasil, em 2012 (quem não viu essa?). É tudo culpa da Rita.

Foi ali que o brasileiro aprendeu a gostar de artes dramáticas, perseguir artistas, copiar os brincos da Giovanna Antonelli, capas de celulares da Giovanna Antonelli, roupas da Giovanna Antonelli e... bem, vocês entenderam. Inshalá!

Nessas obras longas e abertas, que duram oito meses, vimos, há décadas, personagens lésbicas serem rejeitadas e mortas pelo autor. Mas tudo mudou. Há 10 anos, vimos o carisma de um vilão gay ganhar o coração de todo mundo — sua redenção culmina em um selinho angelical em outro homem. Um selinho em outro homem em 2013 abalou as estruturas da tradicional família. Hoje, homens se beijam de língua nas novelas. É um must!

Novela é o prazer do coletivo

Quando "Amor de mãe" voltou à grade de programação da Globo, após a lacuna da pandemia em 2020, foi um alívio. O prazer de assistir algo coletivamente (mesmo que seja via Twitter). A segurança de saber o horário em que todo mundo estará vendo a mesma coisa. A atenção do mundo pulverizada em mil conteúdos não permite esse ato unido.

Hoje em dia, Andréa Beltrão nos mostra em "Um Lugar ao Sol", que mulheres se masturbam, sim, mesmo na idade madura. Novela é capaz de mudar o hábito de uma geração inteira. Que sorte termos boas novelas em um país que não é lá muito propenso a grandes incursões literárias. É arte popular, sim.

Novela é bom porque todo mundo vê ou todo mundo vê porque é bom? Seguimos repetindo os bordões. Não é brinquedo, não. Agora, tô certa, ou tô errada? Você pode discordar de mim no Instagram.

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Luciana Bugni