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Luciana Bugni

Yoko Ono incomoda no documentário dos Beatles, mas a culpa é de John Lennon

Yoko ao lado de Lennon em Get Back: sempre em cena - Reprodução DisneyPlus
Yoko ao lado de Lennon em Get Back: sempre em cena Imagem: Reprodução DisneyPlus
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

27/11/2021 04h00

O aguardado documentário The Beatles Get Back, disponível no Disneyplus, traz um resumo de oito horas de 22 dias da banda vivendo um Big Brother de vanguarda, num estúdio britânico, em 1969.

A ideia era produzir um vídeo e um programa de TV do retorno da banda aos palcos, depois de dois anos sem tocar ao vivo. Por isso, o ambiente todo é recheado de câmeras e microfones que mostram os integrantes da banda e mais quem estivesse lá de todos os ângulos possíveis. Mas o conteúdo não mostra a reunião que os idealizadores pretendiam já que, em diferentes fases de amadurecimento criativo individual, os Beatles estão em crise.

E, impressionante: mesmo brigando, estão ali, para delírio dos fãs, compondo ou arrematando clássicos que você ouve até hoje. É assistir a história sabendo que, meses depois, a história termina — a banda se separou em 1970. Esse término aliás, tem nome e sobrenome para grande parte dos beatlemaníacos: Yoko Ono.

Uma Yoko incomoda muita gente

Mulher de John Lennon, Yoko aparece nas três partes do documentário. Mais que isso: ela é onipresente e são raríssimas as cenas em que os quatro estão enquadrados sozinhos. Há sempre a sombra de sua vasta cabeleira fazendo algo a menos de um metro da banda. Na maior parte das imagens, ela não participa: observa, escreve, lê jornal, come algo, admira o marido. E incomoda.

Vemos a primeira hora de documentário surpresos: ela não vai sair dali? São dias e dias parada, fazendo nada, enquanto seu marido e colegas trabalham. Não é enfadonho?

Quando Paul McCartney tem uma de suas discussões com os outros integrantes a respeito das composições — ele estava assumindo a posição de chefe que John deixava de lado —, ela abre o jornal de maneira tão arrogante que fica difícil que o baixista pudesse enxergar o companheiro.

Quando George Harrison, irritado e se sentindo escanteado, decide sair da banda, ela pega o microfone para dar uns berros enquanto John e Paul tocam. Enquanto eles decidem o que fazer com a saída do guitarrista, ela passa a gritar alto o nome de John no microfone. O cara ali, tomando uma decisão — George Harrison saiu da banda, gente! — e ela com alguma urgência. O guitarrista responde calmamente: "como você quiser, querida".

Mas por que Yoko estava lá?

É fácil dizer que Yoko é chata. Ali, naquelas gravações, ela não cabe no cenário onde se inseriu. Está sobrando, enquanto torcemos para que a banda se ajeite. Maureen Starcey, mulher de Ringo, olha de canto com um ar desconfiado. Linda McCartney observa ainda mais de longe. Por que Yoko está dentro da jam da banda? Porque Lennon exigia.

Provavelmente em outro momento artístico, John Lennon parece mais displicente que Paul, que a vê a coisa toda com mais profissionalismo. "Vão achar um lugar para transar", ele diz para os dois em mais um momento em que seu parceiro abandona a conversa para abraçar a esposa. Depois ironiza que eles vão ganhar o título de casal do ano pelo Mersey Beats — publicação de um amigo de John. Parece sugerir algo como: "só essa turma acha esse casal legal".

paul - Reprodução DisneyPlus - Reprodução DisneyPlus
Paul e John Lennon em Get Back: havia uma Yoko entre eles
Imagem: Reprodução DisneyPlus

É difícil para o artista criar coletivamente

Apesar de ser uma presença desagradável ali, ela não parece agir sobre o que começava a ruir ali naquele estúdio. Fica claro que os objetivos de todos estão difusos. Exceto por Ringo Star, que aceita o que se impõe calado, há conflito criativo forte.

Dá para entender: é complicado para o artista se expressar coletivamente por tanto tempo. Ainda mais eles, juntos desde a adolescência: se aproximavam da maturidade dos 30 anos, mas naturalmente agora tinham maneiras diferentes de fazer música do que nos anos anteriores. Yoko participa disso? Ela certamente não ajuda que a harmonia retorne. Mas nesse caso teríamos que rotular a viagem para a Índia e a vibe namastê de Harrison como vilões também. E isso não faz sentido.

Yoko ser autocentrada e ter dificuldade de dar espaço aos outros não seria problema se John não a tivesse levado para o meio de seu local de trabalho.

Em outros ambientes, ela poderia agir como quisesse. Misturar o relacionamento amoroso com ofício não costuma dar muito certo mesmo. Apontá-la como culpada pela ruptura entre John e Paul, entretanto, parece bobagem. Mesmo com uma Yoko no meio, os dois parecem ter uma parceria única, completam acordes e frases um do outro e se divertem no meio do caos, apesar da discreta desatenção de Lennon com aquele projeto específico.

A banda já estava acabando. Várias letras que trazem versos de despedida são desse período. "Nós estamos no caminho para casa, vamos para casa" (Two of us); "Eles estão apavorados de deixar isso" (I me mine); "Todo mundo teve um ano difícil" (I've got a feeling); "Muitas vezes eu me senti sozinho, muitas vezes eu chorei, de qualquer forma, você sempre soube, de quantas maneiras eu tentei" (The long and winding road).

Triste, rupturas são doloridas até para quem olha de fora.

Temos, no rock'n'roll, a ilusão de que podemos prolongar sentimentos da juventude. Não se pode. A maturidade aparta o que podia parecer indissolúvel.

Ali dentro, Yoko parece saber disso e não se importar como tudo desmoronando. O fã de Beatles se importa. Get back, o filme, é de uma melancolia latente, daquelas que você assiste rindo e chorando por saber que são os últimos momentos de algo bom que deixará de existir. Mas é arte e o artista tem um poder danado de transformar tudo em eterno. É como aquele sussurro das palavras de esperança: let it be.

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