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Luciana Bugni

"Você está exagerando": Rodolffo não aprende sobre dor do outro desde o BBB

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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

22/11/2021 12h39

Eu cresci com uma máxima machista — e só me dei conta da gravidade dela há alguns anos. Era algo como "mulher que atiça e não dá é pior que mulher que dá". Sim, horroroso. Sabe aquelas coisas que a gente está tão acostumado a ouvir que nem percebe que é grave? Demorou muito para que eu me ligasse de quantos erros há nessa frase.

E esse muito tempo pode ser crucial para uma mulher jovem que acaba acreditando que tem responsabilidade sobre o desejo alheio. Ou seja: você está ficando com um cara, a situação está quente, mas algo acontece que faz com que você mude de ideia. Tem muita mulher que acha que não pode desistir. Sim, e transa por obrigação, afinal, "atiçou" o cara. Isso quando não verbaliza que não quer mais e é obrigada a terminar o ato "afinal, já estamos aqui."

Isso é a cultura do estupro: achar natural abusar de uma mulher que não quer mais (por mais que há cinco minutos ela parecesse bem animada). Isso está internalizado nos homens há décadas e não deve ser simples desconstruir esses paradigmas.

É difícil encontrar uma mulher que não tenha passado por uma situação dessa. Triste.

Mas e dar uma namorada?

A situação volta à minha cabeça ao ler os seguintes versos: "Cê não vai me iludir de graça. Me atiçou, vai ter que dar uma namorada. Se não querendo rolo, então não caça", da música "Dar uma namorada", de Israel e Rodolffo, que causou controvérsias nesse domingo (21).

A psicanalista feminista Manuela Xavier levantou a bola em um vídeo sobre a violência implícita no refrão. Um dos compositores da letra correu para dizer que era mimimi. As mulheres que se posicionaram contra os versos foram gravemente atacadas nas redes sociais. O machismo triunfou. Rodolffo comemorou o sucesso da música e associou as críticas a "haters", ridicularizando-os.

Em dois dias, "Dar uma namorada" tem mais de 4 milhões de visualizações no YouTube — uma delas é a minha.

O argumento de Rodolffo ao dizer que Manuela "estava exagerando" é complexo. Ele insiste que a namorada da letra não se refere a sexo e, sim, ao namoro mesmo. Uma pessoa solteira se declara e então provoca na outra o desejo de namorar. Segundo Rodolffo, a letra poderia ser cantada por homens e mulheres — não diz respeito ao gênero e, por isso, não pode ser classificada como violenta.

Rodolffo afirma que está com Manuela, mas desdenha do seu sentimento afirmando que é exagerado. Depois desqualifica — a desculpa "não sou machista" parece servir para amenizar atitudes machistas como essa. E finalmente tripudia, ao postar um vídeo do público cantando a música, como se o sucesso fosse a redenção final. Não faz muito sentido, sabemos: machismo é sucesso de público há muitos séculos.

E a música ter imensa aceitação com um verso que incita a violência é mais grave ainda: enquanto a dupla entoa a letra como se fosse uma vitória contra as feministas, mais gente por aí acha que quem "atiçou, vai ter que dar uma namorada". Seja lá o que namorar signifique aqui. O problema nem está nessa palavra. Está no imperativo "vai ter que". É agressivo, sim.

Dificuldade de ouvir o outro desde o BBB

Quando, no Big Brother, Rodolffo fez uma piada ofensiva sobre o cabelo de João, todo mundo caiu em cima dele. Ele tentou argumentar que não quis parecer racista, que o pai tinha cabelo assim, mas demorou muito para recuar e pedir desculpa. Depois, quando Camilla foi atrás dele e ficou por um tempão explicando o racismo por sua ótica, ele teve muita dificuldade de entender o que ela estava falando.

A ofensa não fazia sentido para ele por dois motivos: ele não teve intenção de ofender e ele não se sentiria ofendido com algo do tipo. Se colocar no lugar do outro é uma arte mesmo.

Quando Manuela verbaliza como o verso a ofende, muitas mulheres sentem um clique. Não deveriam ter se sentido obrigadas a "dar uma namorada" em algumas situações da vida. Olhando daqui, parece óbvio. Mas na época, para quem cresceu acreditando que "dar uma atiçada" era um pecado, nada parecia tão claro assim.

Acho Rodolffo um cara divertido, alegre. Fico tentando corrigir a letra, pensando em como ele poderia aproveitar essa polêmica e o sucesso enorme que faz com sua dupla. "Se declarou, vai ter que andar de mão dada"? Eita, continua agressivo. O imperativo incomoda, sim. "Não vai ter para onde correr" também não é das ameaças mais românticas.

A gente está vivendo um período de transição, aprendendo muitas coisas e é difícil mesmo entender que o que sempre acreditamos ser normal não é mais aceitável.

Mas o primeiro passo é ouvir o outro. Isso Rodolffo precisa aprender para poder dizer que "está com a gente" de verdade.

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