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Luciana Bugni

Marília Mendonça ensinava que sofrer é normal: hoje, a dor é por ela

Marília Mendonça: hoje ela é o motivo da sofrência - Reprodução/Instagram
Marília Mendonça: hoje ela é o motivo da sofrência Imagem: Reprodução/Instagram
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

05/11/2021 18h37

A tarde cai com uma pancada nessa sexta-feira (5) em que se anuncia a morte da cantora Marília Mendonça.

Ela nos ensinou algo que parece óbvio, mas do que a gente foge sempre: sofrer é normal. Para aqueles dias que o amor desencaixa, Marília. Para aqueles chifres que a gente não gosta nem de comentar de tanto que doem? Marília. Ela mostrou que o silêncio não valia tanto a pena assim e o bom era falar sobre as dores bem alto, com a voz mais forte que temos dentro de nós. E entendemos que a sofrência não era motivo de vergonha.

E então, por mágica da melodia e poesia, as músicas de Marília tinham o poder revolucionário de mudar sentimentos. Quem já chorou com "Infiel" e hoje ouve a música com a alegria de perceber que a dor de ser traída uma hora passa? Imagina só, três minutinhos poderosos esses. As letras da sofrência nos fizeram rever a dor com uma bela dose de amor próprio — entre várias doses de outras coisas (ninguém é de ferro, pô).

Marília mostrou para muitas mulheres que era possível ser feliz sozinha — às vezes bem melhor, como quando ela engrossou o coro de Luísa Sonza na música "Melhor sozinha". Isso é de uma potência incalculável. Milhões de mulheres sofrem em relacionamentos abusivos todos os dias e descobrem, pela voz de uma cantora, que é possível, sim, se livrar do que faz mal.

"Para de insistir, chega de se iludir. O que cê tá passando, eu já passei e eu sobrevivi", ela diz. E se ela está dizendo, a gente acredita que consegue também. Explica, de verso em verso, que aquilo tudo que aprendemos sobre disputar com outra mulher o amor de um cara não faz o menor sentido. Ela canta como nós, por nós, para nós. Como é que a gente faz agora?

"Maravília Mendonça, afinação", cantou Caetano em "Sem Samba Não Dá". E sem a afinação de Marília, dá? A voz dela nos meus fones pergunta:

"Ei, amiga, senta aqui, que cara é essa aí?
Será que alguém morreu? O que aconteceu?
O que quer me dizer? Por que cê chorando?
Eu não tô entendendo, cê me assustando"

No celular, todos incrédulos: aos 26 anos, parando multidões, Marília Mendonça tinha muito ainda por fazer. Parece injusto que a cantora nos seja subtraída quando, depois de dois anos enterrando gente, finalmente rumemos para uma fase mais normal — será? Nada parece muito justo desde a queda daquele avião em Minas Gerais.

O sol caindo em São Paulo, uma tarde linda de primavera. Um silêncio sobre nós — não se ouve nenhum violão. Eu repito a pergunta para mim mesma, como sei que está fazendo o leitor enquanto se recompõe do choque.

Como a gente vai fazer para transformar toda essa dor em melodia?

Sem Marília, parece que perdemos um tanto da força que descobrimos há pouco tempo que tínhamos — a gente la sabia que as patroas éramos nós? A gente vai dar um jeito, eu penso, de transformar tudo isso em alguma alegria. Hoje, enquanto as notícias sobre a morte de Marília Mendonça pipocam na tela, parece impossível.

A gente pode falar mais disso no Instagram.