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Luciana Bugni

Anitta pode ajudar a entender que para ser latino não basta falar espanhol?

Anitta no VMA num dia, MET Gala no outro: o que é ser latina? - Getty Images
Anitta no VMA num dia, MET Gala no outro: o que é ser latina? Imagem: Getty Images
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

14/09/2021 04h00

O assunto do brasileiro nessa segunda (13) foi o mesmo de toda semana: pra variar, Anitta. Ela desfilou um look ousado no VMA no domingo (12), fez uma apresentação bonita da música "Girl from Rio" para o patrocinador do evento, foi ao MET gala no dia seguinte com um vestido carregado de fendas escolhido por nada menos que Anna Wintour. Chique, com uma sandália luxuosa, acompanhando o estilista de sapatos Alexandre Birmann.

É curioso ver uma brasileira entre as grandes estrelas mundiais. Parece que qualquer coisa não encaixa para os brasileiros reclamões que estão caçando mil maneiras de criticar a cantora. Da roupa ao momento da apresentação (o intervalo do VMA, em uma ação paga), tudo sempre está errado ou é pouco. Para ela, está tudo lindo: tem autoestima suficiente para nenhum complexo de vira-lata derrubá-la, como bem explicou o colunista Pedro Antunes. Que bom.

Ser latino-americano sem troféus no bolso

Enquanto o próprio brasileiro se sente confortável detonando sua conterrânea na internet, os outros latinos, dos países vizinhos, reclamavam do vencedor da categoria Latino no VMA. Billie Eilish, nascida em Los Angeles, EUA, e Rosalía, nascida na Espanha, ganharam com a música "Lo Vas a Olvidar", cantada no idioma de Rosalía. Pois é — além das intérpretes não terem nascido abaixo da linha do Equador, a canção ainda é meio chata.

É complexo o entendimento do que é ser latino. Para falar disso, precisamos voltar um pouco na história do mundo: todo esse continente aqui em que a gente mora foi colonizado por europeus. A maioria por espanhóis, a gente por portugueses.

No Brasil, a mistura de culturas e raças nos faz diferentes dos nossos vizinhos. A barreira do idioma também afasta. Mas nada pode mudar o que de fato somos: latino-americanos.

Eu, Anitta, provavelmente você, e também Shakira, J Balvim, Maluma... os três últimos concorrentes diretos de Eilish e Rosalía na categoria em que elas triunfaram nesse 2021.

Gente do hemisfério norte pode ganhar um prêmio de música latina? Pode, porque se trata de música em idioma latino. Então poderia ter música em português ali. Além do nosso idioma, o francês, o italiano e até o romeno são também derivados do Latim. Mas culturalmente nos EUA, o espanhol tem muito mais força pela proximidade geográfica e pela imigração incessante. Americano não sabe onde fica o Brasil e acha que a capital é Buenos Aires. Anitta está tentando explicar para eles, no idioma deles, que o Rio não é bem assim como nos postais. Mas aqui as pessoas estão reclamando que ela explicou no intervalo. É...

A vitória de "No Te Vas a Olvidar" incomodou os latinos que reclamaram não se sentirem representados. Mas deveria acender um alerta também nos brasileiros: Anitta cantando "Girl From Rio" em inglês é mais latina que qualquer pessoa do hemisfério norte cantando em espanhol, em português, em tupi que seja.

E outra: por que Anitta precisa cantar em inglês para ser percebida pelo mundo? Shakira só foi a música número 1 das paradas mundiais em 2006, com "Hips Don't Lie" (em inglês), depois de anos de carreira.

Os "hispano hablantes" da América Latina reclamaram da escolha da norte-americana e europeia. Os faladores de português da América Latina reclamaram da única brasileira que estava lá.

Léguas atrás, nós nem nos importamos com nossa latinidade, nem honramos nossa ancestralidade indígena, nem celebramos as semelhanças com os países ao nosso redor.

Nem nos orgulhamos de Anitta, lindíssima e fazendo uma apresentação bonita, uma representante de nossa cultura lá entre os gringos.

Espero que um dia a gente entenda nossa identidade como uma parte importante do continente em que vivemos. E que entendamos também a importância da presença de Anitta, latino-americana, cantando em inglês, espanhol e português um Rio que nem todo mundo conhece. Um orgulho danado, sim. It's my love affair.

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