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Luciana Bugni

Leifert mostra que sucesso e realização pessoal nem sempre andam juntos

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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

10/09/2021 12h10

"Tiago Leifert estava infeliz como apresentador do Big Brother Brasil", eram os comentários logo depois dos primeiros rumores de sua saída, antes mesmo do anúncio de seu desligamento da Rede Globo. O apresentador negou, mas na manhã de sexta (10), admitiu em entrevista a Ana Maria Braga que não estava realizado.

Curioso, ele não estava satisfeito com o trabalho que lhe rendeu mais repercussão na carreira jornalística e artística.

É possível compreender. Tiago diz que não comemorava audiência do programa porque não fazia mais que sua obrigação ali. Um formato consagrado de sucesso melhorava e chamava mais atenção do público a cada ano. Quanto disso se deve a Tiago? Bastante. Ali na vitrine de fora da casa, na posição de ser criticado qualquer que fosse o resultado, ele até lidou muito bem com tudo. Se aprimorou, aprendeu. Seu discurso na ocasião em que João sofreu racismo foi elogiado e correto. Colocou as pessoas brancas em uma perspectiva de reflexão. É o mínimo, mas ainda assim mais que o esperado.

Mas seu olho brilhava? Não muito.

Você precisa vender o que faz seu olho brilhar

Gostando ou não de Leifert, é inegável que ele transformou o jornalismo esportivo como se conhecia. Há mais de dez anos, achou um ponto intermediário entre o que se fazia na MTV no começo do século com a seriedade do padrão Globo no horário do almoço. Ficou engraçado e funcionou. O comentarista esportivo tradicional pode se contorcer na cadeira, mas a informação estilo comédia ou meme veio para ficar.

Naquela época, os comentários de sapatênis de Leifert e Caio Ribeiro tiveram aderência. O Globo Esporte tenta copiar o padrão até hoje — chegou perto com Rodrigo Rodrigues e seu violão — mas nem sempre consegue.

Tenho cá pra mim que nessa época o olho de Leifert brilhava.

O jornalista Carmine Gallo explica isso em seu livro Storytelling, usando o exemplo de Steve Jobs — um dos maiores storytellers da era moderna. O que alegra seu coração?, pergunta Gallo ao leitor. "Pessoas que têm uma paixão podem mudar o mundo para melhor", explica Jobs.

Leifert venderia melhor o BBB se seu coração estivesse alegre? Improvável. Profissional ao extremo, ele trabalhava num produto que nasceu sucesso. O que dependia dele ali foi feito de maneira quase irretocável.

Mas ele queria mais, ué.

Querer mais nos faz ir pra frente

Charlie Watts não gostava de se apresentar ao vivo com a banda que tem um dos maiores históricos de palco no mundo, os Stones. Grandes ídolos da música detestam seus maiores hits. Atores de teatro vivem confessando que não gostam de fazer as novelas que os alçaram à fama. É sabido que jogadores de futebol até gostam de bater uma bolinha, mas desprezam todo o circo em volta do esporte que os enriquece.

Sucesso e satisfação pessoal nem sempre andam juntos, embora a maior parte das pessoas almeje tanto o primeiro que nem cogite ser possível pagar o segundo como preço por isso.

Pedro Bial saiu do comando do Big Brother há alguns anos, parece confortável sentado na sala de sua casa entrevistando personalidades mais importantes do Brasil e do mundo. Arrisco dizer que seu coração está alegre.

Tiago Leifert foi muito corajoso em sair da estrada certa que ele mesmo construiu pra si. É competente o suficiente para provar que sucesso e realização pessoal funcionam numa mesma equação.

A gente segue na torcida para ver o olho dele brilhando e o coração feliz. É o que todo mundo merece.

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