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Luciana Bugni

Na tediosa vida do jovem, nude de Ney Matogrosso é ponto alto da semana

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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

30/08/2021 16h33

Foi um domingo chuvoso no sudeste. O jovem entediado movia o polegar para cima e para baixo sobre a tela suja de um celular quando tomou um susto. Um nude no feed, num post de Ney Matogrosso. As partes íntimas e eretas de um homem — suspeita-se que o próprio cantor -- triunfaram por ali na timeline por alguns minutos ainda, antes de serem deletadas pela própria plataforma ou pelo usuário.

Algum tempo depois, fotos ternas no mesmo perfil: um gato preto, um cacto, imagens antigas do cantor. Nenhuma explicação sobre o ocorrido que agitou o fim de semana da moçada.

Vazamentos de nudes de pessoas famosas causam sempre frisson nas redes. A confusão é de certa forma comum: o botão de enviar a foto para alguém via stories fica perto do botão que publica no feed. Se não prestar atenção, já viu — e aí todo mundo vê também.

A questão é que, nesse caso, o nude derruba tabus. Se alguém duvidava que um homem de 80 anos possa ter uma ereção, fica aí a prova.

Ney parece nem ter ligado para o assunto: errou, apagou, postou outras coisas e bola pra frente (está difícil escrever esse texto sem escorregar em trocadilhos). Mas se ele esqueceu do deslize, a garotada que viu a foto está com a memória bem viva. "Nem precisei tirar print e a imagem não sai da minha cabeça", disse um seguidor no Instagram. "Eu nunca vou esquecer", rebateu outro.

Virilidade aos 80

O jovem que estava se recuperando do choque com a imagem da coxa musculosa de Lula, na foto tirada com a namorada na última semana, está novamente impressionado. Como pode um homem de 80 anos não ser um senhorzinho como imaginamos? Estamos acostumados com os estereótipos que criamos para a terceira idade — tricô, crochê e uma certa passividade em relação à vida. Nesse contexto, não cabe uma vida sexualmente ativa, com desejo e resposta do corpo a esses desejos.

Ney vive a sexualidade ativamente desde sempre. O nu ou a quase nudez faz parte de seu trabalho há muitas décadas. O rebolado e as coreografias são artisticamente sensualizadas.

Não precisa ser expert para perceber que se tem algo bem resolvido ali é a relação do cantor com o corpo. Ele pode. E se ele pode, porque outras pessoas de 80 anos não poderiam também?

Já aprendemos com Gracie and Frankie

A série Gracie and Frankie, da Netflix, já havia trazido o tema à baila. As personagens de Jane Fonda, 83, e Lily Tomlin, 82, vivem duas amigas que perderam os maridos na terceira idade — os dois homens obedeceram seus próprios desejos e decidiram ficar juntos como um casal. A série mostra as dificuldades das duas de lidar com a situação mas também o bônus de ser solteira aos 80 anos: vai ter paquera, vai ter paixão e vai ter sexo, sim, ué.

A conversa sobre o assunto me lembra a canção Lema, composição de Lokua Kanza e Carlos Rennó, na voz do próprio Ney: "Não vou lamentar a mudança que o tempo traz, não. Já fui novo, sim, de novo, não: ser novo pra mim é algo velho. Quero viver o que é novo, sim. O que eu quero assim é ser velho", diz a primeira estrofe. A letra segue: "Envelhecer certamente com a mente sã, me renovando dia a dia, a cada manhã. Tendo prazer me mantendo com o corpo são (...) e ser todo ser, e reviver a cada clamor de amor e sexo".

Quando a poesia é bem-feita não há muito o que acrescentar.

O que a coxa forte de Lula, a virilidade de Ney Matogrosso e a ternura das personagens Gracie and Frankie têm em comum? Um aviso de que se pudermos derrubar os estereótipos que passamos a vida construindo podemos ter uma velhice mais plena e feliz.

Ney pintou na sala da tarde vazia do pessoal, como na letra de Ausência, de Itamar Assunção, também cantada por ele: não há nada de errado nisso. Agora, se a terceira idade está dando um olé na moçada das redes sociais, talvez seja a hora de comer melhor, voltar para os esportes... quem sabe?

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