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Luciana Bugni

Em tempos de Insta: como é chique ser discreto como Tarcísio e Paulo José

Tarcísio Meira em Roda de Fogo: chique, sim, famoso idem, sem aparecer demais -  TV GLOBO / CEDOC
Tarcísio Meira em Roda de Fogo: chique, sim, famoso idem, sem aparecer demais Imagem: TV GLOBO / CEDOC
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

14/08/2021 04h00

A gente usa rede social demais. E fala demais sobre si. Mas nessa semana triste da morte de duas pessoas tão queridas como Tarcísio Meira e Paulo José foi acendido o alerta: precisa?

Tarcísio Meira é um dos maiores atores da televisão brasileira. Sinto arrepio de lembrar de seu vilão em "A Muralha" (tem uma cena de tortura terrivelmente bem-feita) e lembro claramente de seu jeito de mastigar, por exemplo — uma particularidade que só conhecemos de pessoas muito íntimas.

Paulo José não fica atrás. Seu Orestes de "Por Amor" mostra o dependente de uma maneira crua e verdadeira. Conversa com todo mundo que tem uma situação parecida na família. O seu palhaço, no filme de Selton Mello, é doce, terno e enche o coração de esperança. O artista alimenta a gente. E é pela sua arte, não pelo que ele faz na vida privada no dia a dia.

Embora, claro, a força da luta de Paulo contra o Parkinson e a beleza do amor de Tarcísio por Glória Menezes nos inspire também. As fotos que eles tirariam do café da manhã, por exemplo, seriam desnecessárias.

Da mesma forma, vários outros de suas gerações como Eva Wilma, Paulo Goulart e Nicette Bruno viveram vidas longe dos holofotes quando não estavam trabalhando. O mesmo vale para os que ainda estão conosco, como Fernanda Montenegro, Tony Ramos, Marco Nanini e Marieta Severo. Discretos.

Depois de uma vida cheia de trabalhos e prêmios, Lima Duarte hoje tem Instagram, onde divide conosco histórias do passado, causos de futebol, trechos de livros e poemas. Ele tem 177 mil seguidores. Na verdade, tem muito mais. Em um tempo em que personagens emblemáticos como Sassá Mutema entravam na casa das pessoas e enchiam as telas de carisma e talento, não dá nem para contar quantos fãs ele teve ou tem. Ary Fontoura também se rende às redes agora, por diversão. O próprio Tarcísio andou postando uma coisa ou outra nos últimos meses.

Ser chique era ser low profile

Essa geração de atores viveu um período bom: não era preciso aparecer nas mídias para além de seu próprio trabalho. Sabíamos sim, de seus casamentos com outros famosos pelas revistas de celebridades, e eventos das novelas que estrelavam. Mas não havia essa necessidade de estar na mídia que temos hoje — tanto na TV quanto na vida real.

Não proponho um retorno aos tempos de antes: sabemos que isso seria inviável. Hoje temos que lidar com o hype do "se não postou nem existiu". Até o currículo das pessoas comuns como nós virou uma rede social em que quanto mais você diz que fez, mais aparece.

Mas bonito de verdade é o trabalho desses atores das antigas, que falam pouco. E justamente por falar pouco, cheios de sabedoria. Não dá para ser sábio se não ficar quieto nunca, né?

Aqui é onde eu me contradigo

Lima Duarte fez um vídeo no Instagram após a morte de Paulo e Tarcísio, contando histórias dos dois no Instagram. Dentre outras belezas que só um artista tão experiente é capaz de dizer, ele diz que não dirá nada espetacular sobre a morte. "Espetacular foi a vida deles", ele afirma.

Uma vida que não dependeu do tufão do algoritmo para se mostrar incrível. E também não se perdeu entre outros nem tão talentosos assim procurando - e conseguindo muitas vezes - seu lugar ao sol.

Não sei se é possível ser contra o comportamento de manada das redes. Mas que ser low profile era chique demais, ah isso era.

Você pode discordar de mim no Instagram (falei que ia me contradizer aqui?).