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Luciana Bugni

1 ano da morte de Rodrigo Rodrigues: e a gente vai levando só de birra

Rodrigo tocando violão: aqui na Terra tem muito samba, choro e o seu rock"n"roll - Reprodução/Instagram/@rr_tv
Rodrigo tocando violão: aqui na Terra tem muito samba, choro e o seu rock'n'roll Imagem: Reprodução/Instagram/@rr_tv
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

28/07/2021 04h00

Rodrigo, meu caro amigo,

Faz um ano que você foi embora. Parece menos, parece muito mais. Foram 12 meses bem esquisitos por aqui. Mas estamos vivos, temos que agradecer.

Você nos apresentou muita gente, mesmo depois de ter ido embora. O pessoal está todo envolvido nas Olímpiadas, que só aconteceram agora. Tem um quê de vai dar tudo certo, esporte, você sabe como é. Também tem um quê de "o que a gente está festejando aqui?" Outro dia, na prova de ciclismo de estrada, uma menininha japonesa segurava um cartaz que dizia "Olympic Games kill the poor people". Basta olhar com mais atenção para que nada divertido pareça ser tão legal assim.

Mas o rolê segue. A gente vai tomando, porque sem a cachaça ninguém segura esse rojão. Tem mate e e guaraná diet para os abstêmios como você, claro. Continuamos, nossa tribo dos teimosos, se encontrando só virtualmente. Ainda tem live no Instagram, mas não tem tanta graça como antes.

Nada tem mais tanta graça, a gente perdeu muita gente. Continuamos, um ano depois, nos cuidando e cuidando de quem a gente ama e de quem a gente nem conhece.

Aqui na terra ainda estão jogando futebol, como sempre. Seu Flamengo andou ganhando mais coisas, Rodolfo escreveu outro livro. No último, você mandou foto no Instagram: "comprei no aeroporto". Agora, poxa... Está tudo tão atrapalhado.

Outro dia, o jornal estampou na contracapa fotos de pessoas que perderam a batalha para o Covid, como Paulo Gustavo e a dona Nicette. Só vi sua 3x4 preto e branca no meio de tantas quando estava guardando o jornal. Chorei de novo. Sua morte mexeu tanto com muita gente.

O ensaio da retomada

A coisa parece que vai melhorando. Depois de um começo de ano assombroso, em que as mortes só subiam, a vacinação finalmente tomou seu rumo e os números caem timidamente. O pessoal fala de leve em retomada. Tem gente que leva uma vida normal faz tempo, você sabe. Eu sigo apavorada. Vai melhorar, eles dizem, eu digo para mim mesma. Tem que melhorar. A gente vai tentando não duvidar. Vai levando de teimoso. De pirraça.

Quando você foi internado, eu disse que só ia ser legal nossa volta ao normal se estivesse todo mundo. "Mas não pode faltar ninguém". Deu errado. Mais de 500 mil brasileiros se foram como você. Estamos todos pela metade. Hoje chove. Noutros dias, bate sol.

Parece injusto que você e tanta gente não esteja por aqui para dizer que saíram dessa conosco. E a parte de nós que foi com vocês?

A lhe contar as novidades

A maioria de nós já tomou a primeira dose. A criançada, ainda não. Temos muito filho, você sabe. Adriana disse que se vacinou pensando em você. Eu bordei uma camiseta escrito "injeta esperança" para ver se a vacina pegava no tranco. Eu sei, é meio hippie. Não ria.

Suas amigas da TV me escrevem pelo Twitter e a gente ri junto. Elas são legais demais. Ronald disse que quase foi na casa do Thunderbird no dia em que você morreu, mas não foi. Isolamento foi um ato de amor esse ano. Gustavo está tocando cada dia mais bonito. Sua morte deu um susto daqueles na molecada, que segurou a onda até que bem. Menos do que a gente gostaria. Melhor que tantos outros.

Rodolfo está mais à vontade com as câmeras do que naquele ao vivo com você no prédio da Abril, há quatro anos. Ele gostaria de fazer uma dedicatória no livro do Flamengo para você. Eu sigo por aqui tentando controlar o mundo, falhando miseravelmente. No hurry.

Penso em você quando toca Nowhere Man sempre. Mas agora também penso em Black Bird, por causa das asas quebradas.

Na última mensagem que trocamos, no seu aniversário em abril de 2020, eu disse: "Que no próximo, você possa estar num lugar lotado, com muita música boa e abraço". Você respondeu com um emoji de duas mãozinhas para cima, pedindo aos céus.

Eu espero que os céus tenham atendido e você esteja exatamente como queria. Aqui, a gente vai engolindo cada sapo no caminho, mas vai indo. Pegando essas asas quebradas e aprendendo a voar.

Um beijo.

** Você pode me encontrar também no Instagram.