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Luciana Bugni

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Anitta e Juliette contra Bolsonaro: ser poderosa é não temer cancelamento

Juliette Freire: alguns deslizes, mas quase sempre de máscara - Reprodução Instagram
Juliette Freire: alguns deslizes, mas quase sempre de máscara Imagem: Reprodução Instagram
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

21/06/2021 20h15

O dia foi movimentado no mundo de quem tem milhões de seguidores — e por consequência, na vida dos milhões que o seguem. Começou com Anitta, afirmando que que a culpa das 500 mil mortes é do presidente Jair Bolsonaro. O post parece ter sido uma resposta para um post de Ivete Sangalo que tentava descolar a tragédia de partidarismos.

Logo depois foi a vez Juliette se colocar no Twitter e afirmar que deseja a saída do presidente. No Twitter, onde tem 3 milhões de seguidores, e não no Instagram, onde tem 10 vezes esse número. Gil do Vigor a seguiu — ele já havia se manifestado várias vezes contra o negacionismo. Até Carlinhos Maia se posicionou contra o presidente durante a tarde. O influencer teve atitudes questionáveis durante a pandemia, promovendo festas e aglomerações e foi duramente criticado. Já pediu desculpas, mas continua frequentando eventos.

O que aconteceu? Todo mundo combinou de criticar o presidente junto?

Faz anos que a gente vive meio apavorado de dizer o que pensa no Brasil. De medo de estragar o almoço na casa da tia, de ficar numa saia justa com o chefe, ou até de descobrir que o sogro não tem os mesmos valores políticos que você.

No grupo da família, memes estão permitidos, por mais ofensivos que sejam. Mas quando o assunto fica sério e a discussão inflama, vem um parente mais prudente dizer: ô gente, não vamos falar de política no grupo para preservar a harmonia da família.

Quem tem medo de perder alguma coisa (emprego, harmonia ou o respeito pelo outro), aprendeu a guardar a opinião para si. Mas e quando o que você tem a perder é sua vida? Ou a de quem você ama?

É comum que artistas não queiram se posicionar a respeito de um lado ou de outro em uma sociedade polarizada como essa em que vivemos. Perder público ou seguidores significa perder dinheiro. Pode ser o caso de Ivete, provavelmente foi o caso de Claudia Leitte no episódio do Altas Horas: ela chegou a pedir desculpas depois, por ter afirmado que procura ver o lado bom das coisas.

Acontece que chegamos num momento do Brasil em que não há mais como defender um lado, se este é o lado que não previne mortes. Todo mundo perdeu um conhecido para a covid.

Minimizar a pandemia é rir na cara da nossa tristeza ao enterrar pessoas queridas.

Eu preciso de vacina, não tem vacina porque o presidente se recusou a comprar vacina. Não tem como defender esse lado. E a situação é tão extrema que não criticar a gestão ao lamentar meio milhão de corpos enterrados passa a impressão de conivência. Se você não está indignado com o jeito de tratar o nosso luto, talvez não tenha parado para pensar nisso direito. Não há medo de cancelamento que possa ser mais importante do que defender a compaixão e a empatia.

Lucas Penteado afirmou que perdeu milhares de seguidores após responsabilizar Bolsonaro pela gravidade da pandemia no Brasil. Eu também perco, mas sigo defendendo o que acredito. Se é esse o preço, está barato. Sinto apenas que o unfollow nos prive da condição de dialogar. Mas é difícil que um exista argumento a favor do presidente.

Elas não têm medo de ser canceladas

Juliette e Anitta, 30 e 50 e tantos milhões de seguidores, não têm medo de se posicionar contra o presidente. Podem ter atitudes individuais questionáveis: Anitta já frequentou baladas em viagens, Juliette foi fotografada conversando com Carlinhos Maia em evento depois da live com Wesley Safadão — ambos sem máscara. Mas sabem analisar a gravidade da situação no Brasil. Durante a gravação do clipe Loco, em Aspen, Anitta aparecia em todos os stories usando máscara. O mesmo para Juliette, no trailer de seu documentário no Globoplay: a máscara é uma constante. E é o mínimo.

Já Bolsonaro tirou o dia para andar sem máscara no interior paulista, xingar repórter e imprensa e defender o uso daquele remédio que entrou em promoção nas grandes farmácias porque não funciona. A entrevista foi interrompida por ele mesmo, após retirar a máscara, mandar a própria equipe calar a boca e, entre perdigotos, dizer palavrões a jornalistas. Parecia nervoso. Será que é medo de ser cancelado?

Olhar as situações de cima, sem idolatria, é essencial para ter uma visão do todo. E perceber quando é a hora de mudar de ideia. Se você tem milhões de seguidores, mais que isso: é também tempo de convencer os outros a mudar de ideia. Isso tem salvado vidas.

Você pode discordar de mim no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL