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Luciana Bugni

Renata Vasconcellos chorando, Bonner emocionado: jornalista também é gente?

Renata Vasconcellos emocionada no JN: por trás das profissões também existem pessoas - Reprodução/TV Globo
Renata Vasconcellos emocionada no JN: por trás das profissões também existem pessoas Imagem: Reprodução/TV Globo
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

11/06/2021 17h19

Quando Renata Vasconcellos terminou o Jornal Nacional nessa quinta (10) chorando, eu me emocionei junto. "A gente dá as notícias que vivencia", ela disse. Numa pandemia, a gente vive essas notícias duas vezes.

Primeiro de maneira individual, todo dia em que acordo e lembro que estamos vivendo num período em que uma peste assola o mundo. O golpe vem um pouco mais forte quando eu lembro que o meu pedaço no mundo é o Brasil, país que negou a peste até agora e vive as consequências disso em uma onda que nunca termina — a gente vai chamando de segunda, de terceira mas a verdade é que nunca parou de morrer muita gente.

Segundo, de maneira profissional: contando como a pandemia dói no outro. A notícia causa compaixão. Perdi amigos, mas nenhuma familiar próximo, eu penso, enquanto vejo nas notícias as famílias serem dizimadas. Noticiamos a vacina, mas noticiamos também o atraso da vacinação. Falamos de números de infectados, de mortes, de vacinados diariamente. E sofremos com as notícias porque somos parte dela.

Renata se emociona para explicar o óbvio, porque o Brasil se perdeu do óbvio: o jornalista não é o vilão.

O jornalista é alguém como eu, ou como você que me lê, uma pessoa que sofre as mesmas mazelas que qualquer outro brasileiro. A única diferença é que temos como objetivo profissional dizer a verdade. E a verdade nos últimos tempos é dura de engolir.

O jornalista é seu vizinho

A emoção de Renata me lembrou uma cena que tinha acabado de presenciar na tarde de quinta mesmo. Dois homens conversando na fila do caixa do mercado sobre o perigo da pandemia. Um diz para o outro que está dando medo, que a terceira onda está vindo aí. Podia ser eu ou você. O outro responde que nem acha que é isso, acha que a segunda nunca acabou. Mas como é que vai parar o comércio de novo?, um deles pergunta. O outro diz que não dá mais e rebate: será verdade que o hospital está lotado? O primeiro confirma que estão, sim. Um diz que no dia anterior tinham sido quase 2 mil mortos. Ambos lamentam a desgraceira toda da conversa.

E aí, partem para a negação: elevam o tom de voz ambos para dizer que o Jornal Nacional mente o número de mortes. Se empolgam ao concordar que a Globo exagera. Terminam dizendo que jornalista viaja, que são todos um palavrão meio vulgar.

Eu termino de digitar minha senha no caixa e saio. Eu, jornalista, sou uma pessoa como eles: com medo da pandemia, preocupada com a lotação dos hospitais e com a possibilidade de fechar o comércio de novo. Eu, fazendo compras em um mercado de uma grande rede, como eles. Nossos filhos devem estudar nas mesmas escolas, nós temos grandes chances de ter ido nos mesmos bares do bairro quando eu ia em bares, nós devemos aprovar ingredientes diferentões em certas cervejas artesanais, mas tomar pilsen aguada numa boa, gostar de churrasco, discutir futebol de igual para igual. A gente certamente já viu as mesmas séries.

A diferença é que sou jornalista. Eles não sabem que um ser humano igual a eles na fila do caixa de 10 volumes pode ser jornalista. Que o palavrão vulgar pode ofender quem trabalha para dizer a verdade. Que o jornalista vive, come, se preocupa e bebe uma cerveja de vez em quando porque também sem a cachaça ninguém segura esse rojão. E entre essas atividades, trabalha. Trabalha dando notícias ruins. Trabalha passando para frente o que diz a ciência. E, nos últimos tempos, não têm sido coisas gostosas de se ler.

O fato de darmos notícias ruins — é o que tem para o Brasil de 2021 — não diz nada sobre nossa índole ou caráter. Se está difícil de ler o que escrevemos, e está mesmo, também está difícil escrever.

Mas o negócio é esse: o jornalista não é seu inimigo. É só uma pessoa comum comprando uma garrafa de merlot, três iogurtes, um chocolate meio amargo e pão de forma integral. E, em horário comercial, preocupado em dizer exatamente o que acontece para que você não seja enganado todos os dias.

Você pode discordar de mim no Instagram. Mas sem palavrão vulgar, que é falta de educação.