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Luciana Bugni

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Friends envelheceu mal, mas você está doido para ver o reencontro da série

Friends Reunion: tomar um café com velhos amigos é bom, né? - Reprodução: Instagram
Friends Reunion: tomar um café com velhos amigos é bom, né? Imagem: Reprodução: Instagram
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

14/05/2021 04h00

Imagine uma série em que uma das personagens é uma ex-gorda. E o período antes de emagrecer é lembrado sempre em tom de piada pelos amigos, pelos namorados, pelo marido.

Imagine então um personagem cujo pai é uma mulher trans e o assunto rende piada entre os amigos. Além disso, o rapaz, hétero, é sempre confrontado e ridicularizado por ser rotulado de gay. Por isso, vive tentando reforçar sua masculinidade, carregando ainda mais nos estereótipos.

Podemos colocar uma loira estereotipada como burra e um pouco louca, um pai que fica furioso quando o filho brinca com uma boneca rosa, amigos que falam do corpo feminino o tempo inteiro.

Pronto, seria ingrediente suficiente para a série nascer cancelada. Mas, curiosamente, nas rodinhas mais progressistas a conclusão é quase unânime: é impossível deixar de gostar de Friends (1994-2004), como é impossível deixar de gostar do tio divertido que compartilha fake news no zap. O negócio é usar tudo com moderação.

Rachel está de volta?

Tudo que Jennifer Aniston toca na internet vira viral. Quando ela entrou no Instagram, há alguns anos, precisou de apenas algumas horas para conquistar um milhão de seguidores. O primeiro post? O elenco de Friends reunido, claro. Por que a gente gosta tanto de Jen? E de Friends?

Foi Jennifer que viralizou a informação de que o reencontro dos seis amigos de Nova Iorque, 17 anos após o fim da série, será lançado no fim de maio nos Estados Unidos. O teaser mostra os seis andando abraçados. Filmados por trás, eles caminham em um lugar parecido com os estúdios de Los Angeles, onde provavelmente se encontraram para gravar a reunião. Parece estar anoitecendo e toca o clássico de abertura da série, "I'll be there for you", instrumental bem lento por alguns segundos. Pronto. Já tem fã lacrimejando.

Você pode chorar aqui:

Espertos para fazer buzz com o que toca o coração do público, a HBO Max divulgou o nome de celebridades que fazem parte do especial. Tem até Tom Selleck, ator que fazia o primeiro namorado de Monica (muito mais velho que ela, ele era amigo de seu pai, outro ponto polêmico nos dias de hoje). À época, Friends ainda recebeu atores de peso como Julia Roberts, Brad Pitt, Ben Stiller, Sean Penn.

Mas era só preconceito da porta lilás para dentro?

Friends mexeu com as estruturas dos anos 90 ao mostrar mulheres independentes, bem sucedidas profissionalmente, que escolhiam seus parceiros e os trocavam com a frequência que bem entendiam. Os homens na série era meio losers — o que era considerado improvável na sociedade e, por isso, virava piada. Os tempos eram outros. Se tivesse durado outros dez anos, talvez não sustentasse os estereótipos até o fim.

Ross foi deixado pela mulher para ficar com outra mulher. O casal lésbico se casa em uma cerimônia ousada para os padrões da época. Mas, para ficar engraçado, cheia de clichês que não caberiam mais em 2021.

A série tinha uma única personagem negra (vivida pela atriz Aisha Tyler) que apareceu por alguns capítulos. Difícil imaginar uma produção contemporânea que não tenha um elenco diverso — ainda bem! O elenco principal todo branco fica mais gritante quando lembramos que em 1993, um ano antes do lançamento, a série Living Single contava uma história muito parecida com um elenco negro. Essa matéria explica melhor o assunto e nos faz entender que a cor da pele podia determinar o que seria ou não sucesso há 30 anos. Caminhamos um pouco na batalha contra o racismo estrutural no entretenimento. Falta muito ainda. Friends não nos ajudou nessa caminhada.

Aliás, um tema bom para o reencontro seria discutir esses pontos de uma maneira madura. Infelizmente não é isso que o fã com saudade dos seus amigos espera.

Mas é como o tio divertido que compartilha fake news. A gente gosta dele, claro que gosta. Ele lembra uma época boa antes da vida adulta começar para valer, em que tudo era mais despreocupado. Hoje, crescemos. E sabemos que há aquilo que ainda gostamos, mas com comportamentos que não dá para copiar.

O pessoal ainda se divide: quem ama Friends celebra, que detesta não diz mais nada. Que a gente olhe para o passado com carinho, mas saiba que não dá mais para ser do jeito que era antes.

Você pode discordar de mim no Instagram (lá tem foto da porta que pintei de lilás com uma moldurinha amarela no meu apartamento).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL