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Leonardo Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quero (voltar a) escutar vinil. Que aparelho de som preciso comprar?

Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

14/05/2021 04h00

Você já alugou seu apartamento com piso de taco de madeira. Já providenciou sua samambaia e sua rede de renda pernambucana. E agora, para finalizar o kit santa cecilier, nada mais resta do que adquirir um bom toca-disco.

Brincadeira à parte, esta é a pergunta que mais recebo de amigos que querem se entregar às delícias da mídia física e ao chamado "deep listening": que aparelho devo comprar?

Nesses casos, minha resposta não varia muito entre "depende" e "depende"

Depende da grana que você está disposto a pagar. Do quanto você se dedicará ao novo hobby. De como é sua relação com a música e os discos que você tem. Não temos resposta pronta.

Porque se sua ideia é só ouvir uns LPs empoeirados de vez em nunca porque isso é legal, sem se importar muito com a saúde deles e a qualidade do áudio, uma estilosa maletinha Crosley ou Raveo pode resolver bem o seu problema.

OK, eu prezo pelos meus LPs e quero usufruí-los com a qualidade analógica que merecem
diria você

Sábia escolha. Sendo assim, eu resumiria toda a coluna de hoje em apenas um verbete garrafal colorido:

Compre aparelhos de som separados e esqueça as vitrolas, que são os toca-discos que já vêm com alto-falantes embutidos.

Não, ao contrário do que muita gente pensa, toca-disco e vitrola não são sinônimos.

Vitrola e toca-disco - Reprodução - Reprodução
Á esquerda uma vitrola; à direita um toca-disco
Imagem: Reprodução

Mas o que significa exatamente comprar separado?

É adquirir, pelo menos, três aparelhos diferentes e conectá-los em um sistema modular. Parece complicado, mas não é. São eles: toca-disco, as caixas com seus alto-falantes e o receiver.

Não quero entrar em questões técnicas/audiófilas demais. Mas é importante você saber que seu "hi-fi" será formado por quatro partes: toca-disco, pré-amplificador, amplificador (ou receiver) e as caixas acústicas.

Há várias combinações possíveis dentro desse sistema: o pré-amp pode estar integrado ao toca-disco ou ao receiver, como no nosso trio citado mais acima. Mas você não precisa saber muito mais do que isso.

Conjunto com toca-disco, receiver e caixas acústicas - Pexels - Pexels
Conjunto com toca-disco, receiver e caixas acústicas
Imagem: Pexels

OK, mas qual toca-disco eu tenho que comprar? É melhor novo ou usado?

Existem marcas consagradas como a Technics, a Sansui, a brasileira Gradiente, a promissora Audio-Technica, entre tantas outras de tantas épocas diferentes que valem a pena.

Quanto ao debate novo x vintage: na opinião deste datilógrafo, isso importa pouco. Principalmente se o usado estiver em boa condição e você conhecer um bom técnico para emergências. Sim, esses professores pardais ainda estão por aí a um direct nas redes.

Uma dica necessária nessa seara: prefira toca-discos feitos com material sólido, que não sejam levinhos (estabilidade é importante na reprodução) e tenham um contrapeso no suporte do braço.

Mas que raios é um contrapeso?

É a pecinha que equilibra o braço do toca-disco e impede que ele pressione demais (esse é um dos problemas das maletinhas) ou de menos o seu amado LP (isso pode fazer a agulha pular).

Cada cápsula —a parte em que a agulha é conectada— tem um peso de tração projetado pelo fabricante para o disco rodar da forma mais harmônica possível.

E, para fazer a regulagem, você tem que girar o contrapeso até encontrar essa medida, conforme abaixo.

Outra dica: contar com um sistema de anti-skating, que impede o braço de patinar e arranhar o vinil, também faz diferença. Certifique-se de que o seu tenha um.

Upgrades

Uma das coisas mais legais desse tipo de toca-disco é que ele foi criado para receber upgrades. Dá para trocar e melhorar sua agulha, sua cápsula e até tapetinho que gira entre o prato e o disco. E isso faz diferença na qualidade do som.

Sobre caixas e receivers, para não dizer que não falei deles

A palavra principal aqui, mais do que potência ou watts, é compatibilidade. Caixas e receivers precisam possuir a mesma impedância ao serem plugados. Ela é medida em ohms e, caso haja divergência, seu som pode terminar estragado.

Fique esperto com essas informações, que estão nos manuais de instrução e na internet, em sites como Audiorama e Audio Service Manuals.

Resumo aos iniciantes:

  1. Compre toca-disco, receiver e caixas separadamente.
  2. Compre um toca-disco com contrapeso e anti-skating.
  3. Ver se receivers e caixas são compatíveis.
E fim.

Mas e o preço dessa brincadeira toda?

Montar um setup legal para ouvir vinil (ou CD, se você adicionar um CD player no conjunto) não é exatamente barato.

Há muita gente vendendo na internet, e, se você souber comprar bem, não é difícil montar um vintage honesto por cerca de R$ 1.500 ou talvez um pouco mais.

É caro? É. E fica ainda mais levando em conta o país em que a gente vive e a crise pandêmica que não tem data para terminar.

Mas, caso sua casa não pegue fogo de repente ou exploda, esse é um conjuntinho que irá te acompanhar por muitos anos. Quem sabe por uma vida inteira.

E provavelmente você já gastou algo do tipo em um celular que em menos de quatro anos padeceu com sua obsolescência programada e precisou ser trocado, estou errado? Isso não vai acontecer com seu som.

Mas respeitemos. Cada um tem sua prioridade na vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL