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Guilherme Ravache

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Libertadores na Globo e Paramount+ indica revolução no futebol

Paramount aposta na Copa Libertadores da América para acelerar seu crescimento no streaming - DANIEL MUNOZ / AFP
Paramount aposta na Copa Libertadores da América para acelerar seu crescimento no streaming Imagem: DANIEL MUNOZ / AFP
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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

15/05/2022 04h00

Resumo da notícia

  • Globo retoma os direitos de transmissão da Libertadores e reafirma seu domínio na TV aberta
  • Além de ajudar na audiêcia, a Libertadores na Globo é uma vitória da estratégia da empresa, que insistiu na redução de custos dos contratos esportivos
  • A entrada da Paramount+ no páreo, e investindo agressivamente, pode criar uma alternativa para o consumo do futebol no streaming

A Copa Libertadores da América a partir de 2023 voltará a ser transmitida pela Globo. No mercado, poucos se surpreenderam. Na emissora líder de audiência, o futebol aparece não somente no horário das partidas, mas também em diversas atrações da emissora, o que aumenta o reconhecimento dos jogos e dos clubes pelos torcedores.

Quanto maior esse reconhecimento, maiores as chances dos clubes e da própria Libertadores aumentarem suas receitas com patrocínios e vendas de produtos e serviços.

O acordo é bom para os clubes, mas melhor ainda para a Globo. A emissora ganha com a audiência do futebol e volta com moral no mercado. Após a emissora romper o contrato com a Conmebol durante a pandemia, poucos imaginavam que a dona da Libertadores iria voltar a negociar com a Globo.

Vale lembrar que a disputa entre Globo e Conmebol inclusive foi parar na justiça. O caso foi resolvido após a emissora pagar uma multa de R$ 223 milhões. Além de perder a Libertadores, durante a pandemia a emissora também abriu mão dos campeonatos estaduais de futebol.

A expectativa de diversos analistas era que acontecesse um apocalipse de audiência na emissora carioca. Apesar de alguns raros e pontuais momentos em que a concorrência liderou a audiência com partidas de futebol, a Globo seguiu confortavelmente na liderança do Ibope mesmo nos dias de jogos.

Agora, a tendência é que, com a volta do futebol, a vantagem da Globo no Ibope seja ampliada e ela se torne ainda mais dominante na TV aberta. E essa talvez nem seja a maior vitória da vênus platinada.

Globo venceu a batalha

Outro aspecto importante da volta da Libertadores à Globo talvez seja o fato de a emissora ter conseguido "zerar" as bases de seus antigos contratos e ter seu poder de negociação na TV aberta ainda maior.

Em novembro do ano passado, quando entrevistei Manuel Belmar, diretor-geral de Finanças da Globo, ele disse que os desentendimentos com parceiros nos últimos anos foram um ponto fora da curva, e que existia uma "dinâmica positiva" com relação aos contratos esportivos e que a Globo tentaria recuperar todas as competições que deixaram sua grade.

Mas segundo Belmar, isso apenas seria possível desde que "as condições econômicas façam sentido". Ou seja, o plano seria fechar acordos somente quando houvesse a perspectiva de lucrar com o negócio.

Se a Globo fechou com a Libertadores é porque conseguiu o valor que planejava e provou que sua força como plataforma para divulgar a Libertadores vale tanto, ou mais, que o dinheiro que paga pelos direitos.

Como ouvi de Erick Brêtas, diretor de produtos e serviços digitais da Globo no início do ano, "a Globo não perdeu os campeonatos estaduais porque não tem dinheiro. É uma escolha. Para a Globo priorizar alguns direitos, precisa abrir mão de outros".

A Globo tem mais de R$ 15 bilhões em caixa e neste primeiro trimestre lucrou R$ 1,3 bilhão. Se por um lado a primazia da Globo na transmissão do futebol na TV segue inabalada, o streaming é um risco crescente.

Por que o streaming pode ameaçar a Globo

A Globo tem motivos para comemorar a volta da Libertadores para sua grade de programação, mas a vitória da Disney, e particularmente da Paramount, devem ser um motivo de preocupação. A Disney já é grande e estabelecida no Brasil no segmento esportivo com a ESPN, não chega a ser novidade. Mas Paramount+, serviço de streaming da Paramount, ainda é pequeno no país, mas cheio de ambição e disposição para investir.

A Paramount é uma gigante da mídia americana que mudou seu nome de ViacomCBS no início deste ano para reforçar ao mercado seu comprometimento com o streaming. O grupo é dono da CBS, a maior rede de TV dos Estados Unidos, e uma série de canais a cabo como MTV e Nickelodeon, além do estúdio Paramount. O grupo ainda é dono do Showtime (que tem uma das maiores plataformas de pay per view dos EUA) e da Pluto TV (suportada por publicidade e uma espécie de "TV aberta" do streaming).

A família do principal acionista da Paramount tem problemas históricos e inclusive foi uma das principais inspirações para a série "Succession", da HBO. Shari Redstone lutou por duas décadas contra o próprio pai, Sumner, e o presidente da CBS, Les Moonves, um dos nomes mais respeitados de Hollywood, para ter o controle da Paramount. Hoje, ela é presidente da empresa.

Shari seria a Shiv de Succession e Sumner, o pai da família de magnatas da mídia, Logan. Sumner, a exemplo de Logan na série, teve sua idade e capacidade mental questionada pelos filhos. Apesar da confusão, os estúdios da Paramount e o streaming Paramount+ têm tido boa performance.

A boa fase da Paramount

Os filmes "Sonic 2" e "Cidade Perdida" deram à Paramount uma participação de 21% nas bilheterias americanas neste ano. Nos cinco anos anteriores à pandemia, a empresa teve 6% de média de participação no mercado. Outro trunfo da empresa é "Top Gun: Maverick", que chega em breve aos cinemas.

A expectativa é que o filme com Tom Cruise ajude a empresa a faturar mais de R$ 1,1 bilhão em bilheteria neste segundo trimestre. O valor é superior a toda a receita de bilheteria da companhia em 2022. Após 45 dias da estreia nas salas de cinema, Top Gun chegará ao Paramount+ e deve acelerar o número de novas assinaturas.

O Paramount+ adicionou 6,8 milhões de assinantes ao seu serviço de streaming nos Estados Unidos no primeiro trimestre. A HBO Max conquistou pouco mais de 3 milhões, o Peacock, 4 milhões no país. O Disney+ adicionou quase 8 milhões, mas no mundo todo. A líder Netflix perdeu 640 mil nos Estados Unidos e Canadá e 200 mil no mundo (o crescimento da Ásia reduziu a queda global).

Diferentemente de seus concorrentes como Netflix, Disney e Warner Bros. Discovery, que estão cortando custos, a Paramount+ está acelerando os investimentos. O segmento que contém o negócio de streaming mostrou um prejuízo operacional de R$ 2,3 bilhões no primeiro trimestre, apesar de a receita ter aumentado 82% ano a ano, para mais de R$ 28 bilhões.

O fluxo de caixa livre da empresa foi de R$ 1,2 bilhão no trimestre, comparado com quase R$ 8,2 bilhões no mesmo período do ano passado. A meta da empresa é chegar a 100 milhões de assinantes no Paramount+ até 2024, com o pico de prejuízo do negócio em 2023, depois caindo até dar lucro nos próximos anos.

Dinheiro não será um problema no curto prazo. Assim, o Paramount+ tem a chance de crescer rápido e provar ao mercado que o futebol é uma arma imbatível no streaming. Mas isso tornará a disputa pelos direitos ainda mais acirrada (e cara).

Além disso, se a Libertadores na Paramount+ decolar e cair no gosto popular, a Conmebol não somente ganhará um novo e "rico" cliente, como pode se esforçar para criar uma alternativa viável à Globo dentro do streaming. Poderia haver mais atrações em torno de futebol, como documentários e shows sobre a Libertadores, clubes e jogadores. Isso resolveria um dos pontos fracos dos concorrentes da Globo na TV aberta, que ficam limitados à exibição das partidas, sem conteúdo de sustentação na grade.

Por que futebol no streaming será uma revolução

À medida que um número crescente de espectadores muda para o streaming, é natural que as grandes atrações acompanhem. Mas como o futebol fora da Globo já mostrou, consumo também é hábito.

As plataformas de streaming terão de provar que conseguem criar um novo hábito entre os consumidores de futebol no Brasil. No streaming seria possível transmitir diversos jogos simultaneamente, ao contrário da TV, que é limitada a uma partida. Transmitir todas as partidas ajuda, e o digital ainda oferece múltiplas possibilidades, desde câmeras com ângulos diferentes, até o acesso a mais dados e a compra de produtos durante as transmissões.

Caso a Paramount+ caia no gosto do público, as próximas negociações para a Globo devem se tornar cada vez mais difíceis. Além de disputar com os tradicionais concorrentes, terá de bater de frente com gigantes estrangeiros de mídia como Disney, Paramount e Warner Bros. Discovery, e gigantes de tecnologia como Amazon, além de potencialmente Google, TikTok, Apple, entre outros.

As empresas multinacionais têm ainda a possibilidade de comprar grandes pacotes para diversos países. A Disney e a Paramount compraram o direito da Libertadores para toda a América Latina. Isso explica por que a Conmebol vendeu a competição por US$ 1,5 bilhão de 2023 a 2026, um recorde de faturamento frente os US$ 1,1 bilhão de 2019 a 2022.

A Globo tem o Globoplay, então seria mais correto dizer que a migração do futebol para o streaming talvez seja um problema maior para a TV do que para a Globo.

Neste ano, na apresentação de venda da Libertadores que a Conmebol distribuiu entre seus potenciais compradores, inclusive havia a possibilidade da competição ser comprada apenas no streaming, como revelou o jornalista Erich Betting.

A Conmebol vendeu a competição por US$ 1,5 bilhão, um recorde de faturamento, então também saiu vitoriosa. Certamente o streaming teve papel chave neste número. Paramount, Amazon e Disney também disputaram os direitos. O site OneFootball comprou os highlights da competição.

O caso do críquete na Índia

Surpreendentemente, talvez o melhor país para observar o potencial do streaming para campeonatos ao vivo seja a Índia. O críquete desperta nos indianos a mesma paixão que o futebol nos brasileiros.

Por lá as partidas de críquete são transmitidos no streaming de maneira mais consistente há mais tempo que no Brasil. Por sinal, é uma das razões do rápido crescimento de assinantes do Disney+ no mundo. A plataforma é a atual detentora dos direitos de transmissão da IPL (Indian Premier League). Mas o contrato vence neste ano.

Uma acirrada concorrência pelos direitos da IPL está em curso. O número (e tamanho) das empresas na disputa dá uma ideia: Amazon, Disney, Google, Sony e as indianas Reliance e Zee Entertainment, além do site de fantasy game Dream11 estão no páreo que deve ser definido em junho.

A audiência da principal liga de críquete só fica atrás da Premier League e da NFL (National Football League). No ano passado, a IPL atraiu 600 milhões de espectadores. A Índia é enorme e um dos mercados de entretenimento mais competitivos do mundo.

Apesar dos altos investimentos na Índia, a Netflix patina no país. Neste ano, a líder do streaming deve produzir mais de 70 produções locais na Índia (nada com esportes ao vivo), mas empacou em pouco mais de 5 milhões de assinantes, um quarto do número que tem no Brasil.

A expectativa do governo indiano, dono da IPL, é vender a competição para a TV e streaming, de 2023 a 2027, por mais de R$ 35 bilhões (porque a IPL vale R$ 35 bilhões e a Libertadores apenas US$ 1,5 bilhão é tema para outra coluna, mas o fato das competições de futebol na América Latina serem menos "internacionais" e terem menos audiência que o críquete, que atinge toda a Ásia, e boa parte da Europa e Canadá, são fatores).

Nos Estados Unidos também há uma crescente disputa por direitos de transmissão de competições ao vivo no streaming. A Amazon no ano passado fechou a transmissão de partidas da NFL nas noites de quinta-feira. Pagará cerca de R$ 5 bilhões por ano. A Apple TV+ agora tem jogos da MLB, a liga de beisebol americana, nas sextas-feiras.

Por hora a Globo segue confortável na TV aberta. Mas é difícil imaginar que a Conmebol não esteja observando esses outros mercados e pensando como crescer no streaming, onde há mais dinheiro e a Globo não tem o mesmo poder de negociação, já que há mais concorrentes. Para os fãs de futebol, os dias de jogos na TV aberta podem se tornar cada vez mais raros.

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