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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A 'não despedida' de Tiago Leifert e por que só Michael Jordan o entenderia

Tiago Leifert, da Globo para um projeto de newsletter - Reprodução / Internet
Tiago Leifert, da Globo para um projeto de newsletter Imagem: Reprodução / Internet
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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

07/11/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Tiago Leifert deixou a Globo sem uma grande despedida e frustrou a expectativa de espectadores e críticos de TV
  • Diferentemente de Faustão, Leifert saiu sem aparentes conflitos com a Globo, o que aumentou a expectativa por uma "festa de adeus"
  • Mas o exemplo de Michael Jordan, que também se aposentou precocemente, pode dar pistas do futuro de Leifert
  • Possivelmente esse não tenha sido um adeus, mas apenas um até logo, enquanto o apresentador se reinventa e busca novos desafios
  • Jordan se aposentou para jogar baseball, Leifert deixou a Globo e lançou uma newsletter de tecnologia, esportes, games e cultura pop
  • Jordan foi bem-sucedido em seu novo desafio, independentemente dos resultados nos jogos, reencontrou a felicidade no trabalho

"Vou-me embora, valeu". Foram as últimas palavras de Tiago Leifert na Globo. A frase foi dita na quinta-feira, na última participação do apresentador na emissora após finalizar as Audições às Cegas do The Voice Brasil. Ver Leifert partir sem uma despedida "oficial" é frustrante para o público, mas faz sentido.

Diferentemente de Faustão, que rompeu com a Globo, e outras estrelas que foram cortadas, Leifert disse ter deixado a emissora por questões familiares e parece manter uma relação cordial com a empresa em que trabalhou por mais de 15 anos. Ele inclusive disse que estaria disposto a participar do último The Voice, mas apenas na plateia. Não queria virar o foco das atenções nem "roubar" espaço de André Marques, que assumiu a apresentação no The Voice Brasil.

O topo ficou chato

Após a divulgação oficial de sua saída, Leifert explicou no Instagram: "Minha família precisa de mim aqui em São Paulo nas próximas semanas e por isso, com coração partido, tem mudança de planos. Em breve conversamos mais, beijos", escreveu Leifert nos Stories em outubro.

Leifert poderia ter pedido licença da Globo, mas optou por romper o contrato. Ou seja, queria liberdade para fazer o que bem entendesse. Mais que isso, dias depois sair, lançou sua própria newsletter. Pelos textos que publicou nela, é possível ver que dedica tempo considerável ao projeto. O conteúdo de Leifert é bem pesquisado, o que implica muitas horas de leitura, e os textos são densos.

Dificilmente escrever uma newsletter deixará Leifert mais rico ou famoso. Leifert poderia ganhar muito mais na Globo ou outra emissora. Então, o que explica a mudança?

Michael Jordan entenderia Leifert

Quando penso em profissionais no topo que largam tudo para se reinventar, lembro de Michael Jordan. Em 1993, após vencer seu terceiro campeonato, Jordan anunciou sua primeira aposentadoria do basquete (ele se aposentou três vezes). Nas últimas três finais da NBA, Jordan derrotou o Lakers de Magic Johnson, o Trail Blazers de Clyde Drexler e o Suns de Charles Barkley. Ninguém discute que Jordan já era o melhor jogador do planeta.

"Estou muito firme com minha decisão de não jogar basquete na NBA", disse Jordan em uma coletiva de imprensa para anunciar sua aposentadoria precoce. "A razão é - ouvi muitas especulações diferentes sobre meus motivos para não jogar - mas sempre enfatizei para as pessoas que me conheceram e a mídia que me acompanhou que quando eu perco a motivação e a vontade de provar algo como jogador de basquete, é hora de me afastar do jogo".

"Eu amo o jogo de basquete. Sempre amarei. Só sinto que, neste momento específico, cheguei ao auge da minha carreira. Eu consegui muito nesse curto espaço de tempo, se você quiser chamá-lo de curto. Mas eu sinto que não tenho mais nada para provar", acrescentou.

Além de perder o ímpeto, Jordan disse que precisava passar mais tempo com sua família. Quem chega ao topo precisa de muita vontade para seguir. Quanto mais você sobe, maior o escrutínio da mídia e de todos. A pressão deve ser imensa, e Michael Jordan nem precisava lidar com as redes sociais. Isso tem um custo pessoal alto e a família é diretamente afetada.

É preciso se reinventar

Após se afastar das quadras, Jordan anunciou que iria jogar baseball. Aos amigos, explicava que o baseball foi sua primeira grande paixão, ainda criança. O maior astro do basquete trocou os milhões da NBA por um salário de R$ 5 mil por mês.

Para muitos, Jordan poderia ter sido também um dos grandes do baseball. Companheiros de time afirmam que ele treinava tanto que suas mãos chegavam a sangrar. Uma greve dos jogadores de baseball estaria entre os motivos que atrapalharam sua performance, garantem seus defensores.

Seja como for, ele não conseguiu repetir no baseball o sucesso do basquete. Mas quem conviveu com ele na época diz que se tornou uma pessoa mais realizada, e que a mudança o ajudou a superar a trágica morte do pai, assassinado pouco antes de Jordan ganhar seu terceiro título pelo Chicago Bulls.

Busca por novos desafios

Afastado do basquete, Jordan voltou às quadras para assistir a seus ex-companheiros atuarem. Mas sempre da arquibancada. Da mesma maneira, Leifert disse que faria seu adeus no The Voice na plateia.

Leifert não elaborou quais motivos pessoais o levaram a sair da Globo. E nem acho que deva explicações. Mas provavelmente foi um conjunto de fatores incluindo até a nova realidade da Globo. Certamente, a vontade de mudar o motivou, e como qualquer um que já teve um emprego estável ou vive uma situação confortável sabe, mudar não é fácil.

A newsletter de Leifert semana passada alcançou 20 mil assinantes. Ao ler uma mensagem que ele enviou aos leitores (sou um deles), ele me pareceu genuinamente surpreso e feliz. "Ok, vocês me assustaram! Mas muito, muito obrigado. Não esperava tanta gente e também não esperava tantos emails. Li (quase) tudo, e vim hoje só agradecer o carinho e dizer que as sugestões de pauta e comentários estavam muito legais".

Uma audiência para chamar de sua

O profissional que dias atrás tinha uma audiência de milhões de espectadores, hoje comemora 20 mil assinantes. Mas são assinantes de Leifert e não espectadores da Globo. São 20 mil pessoas interessadas em ler a opinião dele sobre cultura pop, tecnologia, games e o que considera relevante. Agora, Leifert não precisa seguir nenhum roteiro além daqueles que criar para si mesmo.

Ele também deu pistas do que o incomoda. "Na imprensa, eu arriscaria dizer que ninguém sabe interpretar números de audiência. Isso vale para Internet e TV", escreveu. Leifert diz ainda que "A coisa mais fácil do mundo hoje e super recompensadora é ser agressivo na escrita. O uso indiscriminado de adjetivos negativos. A ironia com maldade. A humilhação do outro gratuitamente. Ataques pessoais. Eu vou me esforçar AO MÁXIMO para não cair nessas armadilhas. Me ajudem porque não é tão simples. Nosso cérebro foi moldado nos últimos anos para funcionar como o algoritmo das redes sociais, que privilegia a polêmica e a destruição. Enragement is engagement. 'Raiva engaja'."

Obviamente, tem jornalista que não gostou da novidade. Discordo deles, acho sensacional ter alguém do porte de Leifert falando do futuro do cinema, NFTs e play-to-earn (jogar para ganhar dinheiro diretamente do game), e principalmente, popularizando o modelo de conteúdo em newsletter.

Mais newsletter e menos redes sociais

Newsletter com conteúdo editorial no Brasil é algo incipiente em comparação aos Estados Unidos. Leifert pode ajudar bastante na divulgação desse modelo de produção no qual um profissional produz conteúdo em forma de newsletter sem necessariamente estar ligado a um grande grupo de mídia. Esse modelo permite ainda falar de temas segmentados e facilita não virar escravo dos cliques.

Leifert usa o Substack para distribuir sua newsletter. Essa plataforma tem sido tema de diversas discussões ao possibilitar que grandes nomes de veículos da mídia tradicional migrem para um modelo de produção independente. Sem dúvida a newsletter pode ser apenas o primeiro passo de uma grande plataforma de comunicação de Leifert. Diversas newsletters estão se tornando grupos de mídia reunindo vários profissionais e alcançando audiência cada vez maior. Mesmo assim, com o status de Tiago como apresentador, permanecer na Globo seria mais cômodo.

Esqueça as comparações

Mas comparar o alcance e o quanto Leifert pode ganhar com sua newsletter em relação à Globo é um exercício inútil. Do mesmo modo que comparar Jordan no basquete e no baseball não faz sentido. A verdadeira questão é: Leifert está feliz? Pessoas próximas a Jordan dizem que ele era muito feliz quando jogava baseball. Estava contente até quando ia de ônibus a jogos em outras cidades com seu time. Jordan, se quisesse, poderia usar seu próprio avião, mas preferia viajar com os colegas.

Espero que Leifert encontre a mesma alegria em sua newsletter. E se mudar de ideia, pode voltar para a TV como Jordan voltou para o basquete. Jordan voltou ainda melhor, por que com Leifert seria diferente? Se mais pessoas agissem como Jordan e Leifert, haveria menos profissionais frustrados no mundo.

Jordan se aposentou pela primeira vez sem um jogo de despedida. Leifert saiu sem um programa de adeus. Ao não fazer uma grande despedida "oficial", a porta fica aberta para um retorno triunfal, a exemplo de Jordan.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL