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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Mayweather não nocauteia youtuber e luta show aponta futuro do esporte

Floyd Mayweather e Logan Paul se encaram durante a pesagem às vésperas da luta de exibição - Cliff Hawkins/Getty Images
Floyd Mayweather e Logan Paul se encaram durante a pesagem às vésperas da luta de exibição Imagem: Cliff Hawkins/Getty Images
Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

06/06/2021 17h49

Resumo da notícia

  • Floyd Mayweather, um dos maiores nomes da história do boxe, enfrentou Logan Paul, YouTuber com mais de 42 milhões de seguidores nas redes sociais
  • O confronto não teve vencedores, mas foi totalmente dominado pelo experiente Mayweather, que deve ganhar mais de R$ 500 milhões pela luta
  • Esportes aderem à prática da TV e Hollywood, que usam a capacidade de influência dos profissionais nas redes sociais para decidir a escalação
  • Surrealismo da luta estimula apostadores que veem na eventual vitória do azarão Logan a chance de ter lucros desproporcionais
  • Jake Paul, irmão de Logan, também tem faturado ao subir nos ringues para enfrentar oponentes inusitados como um ex-jogador da NBA
  • Confrontos estranhos estão se tornando cada vez mais frequentes no boxe, que sofre com a fuga de espectadores assim como outros esportes tradicionais

Não chega a ser novidade que astros aposentados se sujeitem a situações ridículas para faturar um extra. Mas a luta de boxe que aconteceu domingo à noite, em Miami, entre Floyd Mayweather, o maior lutador de sua geração e um dos grandes de toda história, e o youtuber Logan Paul, pode ter consequências maiores que somente um espetáculo esportivo ruim.

Mayweather não nocauteou Logan, mas dominou todo o combate que durou oito rounds. Como a luta foi considerada uma exibição, não teve juízes e não houve anúncio de vencedor. Mayweather certamente seria declarado vitorioso. Nem a diferença de peso, altura e idade (Mayweather, tem 44 anos, e Paul, 26) que beneficiavam Paul fizeram diferença. Apesar de sua inexperiência, Paul é agora o único oponente de Mayweather a não perder e conseguiu se manter de pé por mais tempo do que Conor McGregor, que desafiou Mayweather em 2017.

Porém, à medida que o ambiente digital, e particularmente as redes sociais, se tornam o principal meio para atrair e reter a atenção da audiência, os espetáculos tradicionais estão se reinventando e mudando suas prioridades. Das TVs tradicionais correndo para migrar para o streaming a atores e apresentadores ralando para estarem mais presentes em redes sociais, a mídia tradicional vive cada vez mais sob a influência do YouTube, Instagram, Facebook e TikTok.

Vejo o caso de Hollywood e da TV. Hoje, cada vez mais os produtores olham o número de seguidores dos atores nas redes sociais antes de contratá-los. Sophie Turner, que interpretou Sansa Stark em "Game of Thrones", disse que ganhou um papel de uma atriz "bem melhor que ela" apenas por ter mais seguidores em suas redes sociais.

Com os esportes não é diferente. Os atletas estão se tornando influenciadores e produtores de conteúdo. Os clubes, ávidos por atrair a atenção do público e dos patrocinadores, seguem a tendência.

Equipes de futebol dos campeonatos Paulista, Carioca e Gaúcho já tem YouTubers como contratados no elenco. O Resende, do Rio de Janeiro, por exemplo, contratou o Cartolouco, apelido de Lucas Strabko. Ex-integrante de A Fazenda, o jornalista tem mais de 850 mil seguidores no Instragram e 114 mil no Twitter. Mas essa turma apesar de treinar com os times, pouco ou nunca entra em campo.

Mayweather contra Paul Logan é algo diferente e maior. É trocar o princípio da competição pelo espetáculo. É apagar ainda mais as linhas que separam o esporte do entretenimento puro. Mayweather não esconde isso de ninguém. "É entretenimento para pessoas que querem se divertir, que estão sofrendo nos últimos 18 meses por causa da pandemia. Nunca dissemos às pessoas no mundo do boxe que elas deveriam assistir. Esperamos que todos vocês assistam no domingo, mas não são forçados".

Fanfarrão das redes contra lenda do boxe

Mayweather atingiu seu recorde de 49-0 e então, em 2015, se aposentou com uma quantidade absurda de dinheiro no banco. Ele teria recebido mais de R$ 1 bilhão por uma única luta contra Manny Pacquiao. Mayweather já saiu da aposentadoria outras vezes para lutas "inovadoras". Lutou contra o astro das artes marciais Conor McGregor em 2017, que sobreviveu a 10 rounds contra Mayweather, e contra o kickboxer Tenshin Nasukawa, em 2018, que não ofereceu muita resistência.

Logan Paul lutou somente duas vezes e contra outros youtubers. Suas chances de vitória, segundo as bolsas de aposta, eram virtualmente inexistentes. Ou seja, diferentemente dos adversários anteriores de Mayweather, Logan Paul não é um lutador profissional. Aliás, ele não parece ser um profissional em nada além da arte de se promover nas redes sociais, onde reúne mais de 42 milhões de seguidores.

Paul abandonou a faculdade para se dedicar a criar vídeos de pegadinhas no YouTube. Boa parte delas infames, como quando visitou uma floresta no Japão, notória por ser uma área onde pessoas se suicidam. Vestido como o alienígena de "Toy Story", ele aparecia em um vídeo fazendo piada sobre um homem que encontrou enforcado em uma árvore.

A luta foi um fenômeno de audiência. Surpreendeu inclusive ao Showtime, que transmitiu o evento pelo pay-per-view. Foram tantos acessos que a plataforma teve instabilidades e diversos usuários reclamaram que não conseguiram assistir ao evento. O evento foi vendido por R$ 260 no pay-per-view americano. O valor elevado tem sido criticado por fãs. A estimativa é que Mayweather receba cerca de R$ 530 milhões pelo show.

A tendência de lutas inovadoras que Mayweather e Paul estão capitalizando ganhou força em novembro, quando os ex-campeões aposentados Mike Tyson e Roy Jones Jr. (que juntos tem 105 anos de idade) lutaram até um empate em oito rounds.

O evento também teve show de hip-hop e foi transmitido via Triller, uma start-up de mídia social. A eliminatória incluiu Jake Paul, irmão mais novo de Logan, uma estrela da mídia social cujo nocaute sobre o jogador aposentado da NBA, Nate Robinson, gerou inúmeros memes.

Em abril, Jake Paul enfrentou Ben Askren, um lutador aposentado de artes marciais mistas, em um evento do Triller. Jake Paul, desde então, assinou um contrato de múltiplas lutas com a Showtime. Ele vai enfrentar o lutador de artes marciais mistas Tyron Woodley em uma luta de boxe em breve.

Logan Paul fez fama na internet trabalhando com o irmão, Jake Logan (que pelo histórico parece lutar melhor que Logan, ao menos já enfrentou um lutador profissional). Uma das pegadinhas de Jake que recentemente viralizou na internet foi quando o YouTuber roubou o boné de Mayweather e saiu correndo, sendo perseguido pelo lutador e seus seguranças.

Segredo do sucesso

Um elemento menos óbvio para o sucesso de espetáculos ridículos no boxe é a dinâmica do mercado de apostas. Quando há confrontos tão desiguais, o prêmio pago para quem aposta nos azarões é desproporcionalmente alto. Isso agita a imaginação dos apostadores que ganham uma emoção extra, como aponta o jornalista Kelefa Sanne, na New Yorker.

A ironia é que se o inesperado acontecesse e Paul nocauteasse Mayweather, o espetáculo seria ainda maior e uma futura luta da dupla iria gerar ainda mais interesse e dinheiro. Paul e Mayweather ainda saem mais populares nas redes sociais independentemente do resultado. Ou seja, o único que corria risco de derrota era o próprio boxe.

No Brasil, o youtuber Whindersson Nunes e o boxeador Popó confirmaram que também irão lutar, mostrando que a tendência também chegou aqui.

Para o boxe e demais esportes que tinham grande destaque na TV e pay-per-view, manter a relevância frente à concorrência do digital tem sido uma tarefa cada vez mais difícil. As finais da NBA, NFL e MLB sofreram recordes de menores audiências em suas últimas edições. O número de assinantes a cabo também tem despencado. E a luta pela atenção do público é cada vez mais acirrada, com um crescente número de competidores que incluem das gigantes de tecnologia com streaming, redes sociais e games, até grupos tradicionais de mídia acelerando sua migração para o digital. O boxe e os esportes nunca mais serão como antes.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL