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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Em breve você talvez veja filmes da Netflix na TV aberta

O filme Bird Box poderia ser exibido na TV aberta - Reprodução / Internet
O filme Bird Box poderia ser exibido na TV aberta Imagem: Reprodução / Internet
Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

17/03/2021 04h00

Resumo da notícia

  • A Netflix estaria negociando com emissoras de TVs o licenciamento de suas produções originais
  • O movimento mostra uma tendência na qual a fronteira entre TV e streaming se torna cada vez menos clara
  • Lançamentos do Netflix não estariam na negociação, apenas produções mais antigas e que já não trazem novos assinantes entrariam nos acordos
  • Estratégia da Netflix é, a exemplo da Disney, tornar seus produtos mais rentáveis também fora das telas, alcançando um maior número de espectadores
  • As empresas de streaming encontram desafios cada vez maiores com o aumento da concorrência e crescentes custos de produção
  • Parceria entre Globopolay e Disney pode se tornar um modelo para o setor

A migração de personagens conhecidos da TV aberta para a Netflix e outros canais de streaming acontece cada vez mais rápido. Mas agora, o que surpreende é a Netflix estar negociando com redes de TV para levar alguns de seus conteúdos originais para a TV aberta.

Segundo reportagem do site The Information, a Netflix está em negociação com as emissoras de TV ViacomCBS e a NBCUniversal, duas das maiores redes de TV dos Estados Unidos. Curiosamente, nos últimos meses as duas emissoras aumentaram drasticamente seus investimentos em suas próprias plataformas de streaming.

A reportagem diz que os programas seriam licenciados em "base limitada" e adaptados para lançamento linear, o que significa que eles não lançariam a série inteira de uma vez, optando por lançamentos semanais.

A possibilidade de a Netflix passar a licenciar seu conteúdo original não é um movimento sem precedentes —a empresa começou a licenciar reprises da animação Bojak Horseman para a rede Comedy Central da ViacomCBS em 2018.

Em um primeiro momento, o foco seria licenciar produções mais antigas, preservando os lançamentos para o streaming da Netflix. Enquanto a NBCUniversal está interessada em "The Christmas Chronicles", um filme de férias para a família, a CBS está interessada em "Bird Box". A lógica da Netflix é que essas produções já não atraem novos assinantes para a plataforma. Por outro lado, ao serem exibidos na TV aberta, além de gerar receita de licenciamentos, poderia atrair potenciais novos assinantes.

A Netflix gastou mais de US$ 17 bilhões em conteúdo em 2020, um recorde. Embora a estratégia da Netflix de tornar todos os programas de todas as temporadas disponíveis sob demanda tenha ajudado a empresa a conquistar mais de 200 milhões de assinantes e ter fluxo de caixa positivo, a estratégia não é tão boa em construir valor para suas marcas originais. A Disney ainda é a referência na monetização de marcas fora das telas. Um filme da Disney, hoje, ajuda a trazer assinantes para o Disney+, mas também gera milhares de dólares com licenciamentos de produtos, transmissões em TV e até parques. Garantir a maior exposição possível para as marcas e seus personagens é parte da estratégia e as TVs ainda ajudam bastante nessa tarefa.

Todos juntos

À medida que aumentam os custos para reter usuários e dispara a competição para produzir novos blockbusters que atraiam a atenção do público, não surpreende que os serviços de streaming busquem novas fontes de receita. Recentemente, a Netflix começou testes para combater o compartilhamento de senhas e anunciou aumento no valor de suas assinaturas em diversos países. Já a HBO Max, streaming da WarnerBros, estuda oferecer acesso à sua plataforma com publicidade, reduzindo o valor da assinatura, a exemplo do que a Hulu já faz.

A brasileira Globoplay também conversa com parceiros internacionais para licenciar sua produção original para TVs e plataformas de streaming fora do Brasil. Além disso, a Disney e a Globo são parceiras próximas, além do desconto na assinatura conjunta do Globoplay e Disney+, a Disney negocia usar os estúdios da emissora carioca para realizar algumas de suas produções. Existe ainda a possibilidade da Disney entregar à Globo a responsabilidade de produzir séries brasileiras para o seu serviço de streaming. O conteúdo local é uma das grandes apostas da Disney para crescer globalmente.

Questionada sobre uma potencial negociação para exibir conteúdo original da Netflix na TV, ou se a Globoplay planeja licenciar seu conteúdo original para outros canais de streaming, a Globo respondeu por meio de sua comunicação que "os conteúdos Globo são licenciados no mercado internacional, para diversas plataformas, há mais de 40 anos. O mesmo acontece com os originais Globoplay, que normalmente entram no catálogo de vendas depois de estrearem em primeira janela no Brasil".

A fronteira entre TV e streaming fica cada vez menos visível e a competição é tão acirrada que potenciais inimigos podem rapidamente virar parceiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL