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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Netflix e Prime lançam novidades para diminuir ansiedade de usuários

Netflix implementa ferramentas para diminuir a pessão ao escolher o que assistir - Reprodução / Internet
Netflix implementa ferramentas para diminuir a pessão ao escolher o que assistir Imagem: Reprodução / Internet
Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

16/03/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Opções de conteúdo em plataformas de streaming não param de crescer e geram ansiedade em usuários que não conseguem acompanhar todas as novidades
  • Um grande número de escolhas pode muitas vezes levar a sentimentos de ansiedade, solidão e depressão
  • Netflix e Prime Video planejam reduzir o problema com o "shuffle play"; ao clicar um botão, o algoritmo escolhe o que você irá assistir
  • Novas plataformas como Paramount+, recém-lançada no Brasil, multiplicam o número de novas opções para os fãs de streaming
  • Desafio de plataformas estreantes é provar para os usuários que elas são necessárias diante do crescente número de produções de Netflix e Disney+
  • Elevado número de opções de conteúdo força plataformas de streaming a aumentar investimentos em conteúdo e marketing para reter usuários

Essa semana, o anúncio dos indicados ao Oscar marcou também um recorde de filmes produzidos por plataformas de streaming indicados à premiação. O streaming vive uma fase de ouro e nunca houve tanto conteúdo à disposição dos usuários. Mas esse gigantesco volume de produções está se tornando um problema.

Os usuários de streaming sofrem cada vez mais com o paradoxo de escolha. O termo popularizado pelo psicólogo BarrySchwartz mostra como, em vez de aumentar nossa capacidade de tomar uma decisão, uma abundância de escolhas pode muitas vezes levar a sentimentos de ansiedade, solidão e depressão. "Mesmo que acreditemos que seríamos mais felizes se tivéssemos uma gama maior de escolhas na vida cotidiana, na verdade tomamos decisões melhores e acabamos mais felizes e mais satisfeitos quando menos opções nos são apresentadas", afirma Schwartz.

Em uma reunião com investidores no início do ano, a Netflix revelou testes para diminuir o problema. Na França, lançaram uma funcionalidade que permite assistir a um canal no Netflix como se fosse um canal TV aberta. A empresa também lançará no primeiro semestre o "shuffle play" para clientes em todo o mundo. O assinante clica um botão e o algoritmo do Netflix decide o que você irá assistir. A solução é semelhante ao botão "aleatório" em alguns players de música.

Segundo Greg Peters, COO e diretor de produto da Netflix, às vezes os usuários entram no Netflix "e não têm certeza do que desejam assistir", o "shuffle play" resolveria esse problema. "Está realmente funcionando para nós, pois nossos assinantes podem basicamente indicar que desejam pular a navegação completamente, clicar em um botão e escolhemos um título para eles assistirem instantaneamente", disse Peters na conversa com investidores. "Esse é um ótimo mecanismo que funcionou muito bem para os usuários nessa situação."

Essa semana o Android Police revelou que a Amazon Prime Video também está implementando um botão "shuffle". Ele permitirá aos usuários iniciar uma série em um ponto aleatório, em algum episódio de um programa. A partir daí, você pode assistir a episódios sequenciais em ordem ou mudar para outro programa se não gostar do programa anterior.

No entanto, a Amazon não escolherá o programa - os usuários precisam selecionar o programa e a temporada que gostariam de ver, o que seria ótimo para sitcoms ou programação não sequencial, como desenhos para crianças, mas pode ser confuso ao lidar com um programa de TV com episódios em série.

O botão shuffle do Netflix permitiria que os usuários escolhessem programas com base em seu histórico de exibição, uma aparente vantagem sobre o novo recurso da Amazon.

Outro recurso usado pelos espectadores é o aumento de velocidade ao assistir à programação. Tornou-se padrão acelerar podcasts e vídeos, inclusive no YouTube. Agora, a tendência ganha usuários também no Netflix, que permite acelerar até 1,5x a velocidade. Não surpreende, há quem estime que seriam necessários quatro anos, assistindo ininterruptamente o Netflix, para ver os 2,2 milhões de minutos disponíveis na plataforma. Isso em março de 2020, de lá para cá a produção de originais aumentou consideravelmente.

Em 2021 a Netflix prevê lançar 70 filmes, boa parte com grandes nomes de Hollywood. A Disney revelou uma série de novidades e a WarnerMedia afirmou que todos os seus 17 filmes este ano estariam disponíveis na HBO Max no mesmo dia em que estrearam nos cinemas. O problema não tem perspectivas de diminuir. Além dos líderes Netflix, Prime Vídeo e Globoplay, nesse mês estreou o Paramount+ no Brasil, e ainda no primeiro semestre o HBO Max deve desembarcar no país. Todos com catálogos gigantescos e grandes obras da TV e do cinema.

Desafio de novos streamings é provar serem necessários

Mas não são somente os usuários de streaming que se sentem pressionados. À medida que novas plataformas de streaming surgem e mais conteúdo é lançado, maior a pressão nos executivos dessas empresas para criar mais novidades que atraiam a audiência. E maior se torna a disputa pelo conteúdo e estrelas de maior sucesso.

Além disso, a fidelidade dos usuários se torna cada vez menor. As pessoas assistem por um ou dois meses seus programas preferidos em uma plataforma, cancelaram a assinatura, migram para outro streaming e repetem o ciclo. Essa dinâmica torna menos previsíveis as receitas e aumenta a necessidade de investimentos em marketing para atrair e reter os assinantes.

Se o streaming está se tornando um símbolo dos tempos atuais e nos ajuda a passar pela pandemia e esquecer das mazelas que acontecem lá fora, nada mais natural que de algum modo também reflita a ansiedade que se tornou marca dos dias que vivemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL