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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Famosos ganham milhões vendendo imagens que qualquer um pode copiar

Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

05/03/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Colecionadores estão pagando milhares de dólares por memes, videoclipes e imagens de celebridades
  • A banda Kings of Leon está lançando seu novo álbum ?When You See Yourself? como um NFT nesta sexta-feira.
  • Videoclipe criado pelo artista digital Beeple foi vendido por R$ 38 milhões; William Shatner é um dos precursores do movimento
  • Plataforma que vende momentos de jogadores da NBA vendeu um NFT de LeBron James por mais de R$ 1 milhão
  • As imagens podem ser copiadas e vistas por qualquer um, mas a tecnologia do blockchain as tornam únicas, dando status de item colecionável
  • Críticos apontam o alto consumo de eletricidade como um problema do NFT, além de seu alto risco especulativo, que pode 'quebrar' investidores

Pode parecer loucura, mas neste momento pessoas estão pagando milhões por imagens digitais, videoclipes e memes da internet. E, mais surpreendente, são imagens que qualquer um pode ver de graça ou até mesmo copiar na internet. Você pode copiar um arquivo digital quantas vezes quiser, incluindo a arte que acompanha um NFT.

Até o grupo King of Leons anunciou que oferecerá seu último álbum, "When You See Yourself", na forma de um NFT, tornando-se uma das primeiras bandas a fazê-lo. A banda disponibilizará seu pacote de álbuns com download em vinil e digital por US$ 50. O lançamento, que acontece nessa sexta, será no YellowHeart (uma plataforma de ingressos e música NFT) e ficará disponível por duas semanas. Após esse período, nada mais será vendido.

Não sabe o que é NFT? Você não está só, mais detalhes abaixo.

O Kings of Leon também está oferecendo itens exclusivos como parte da série chamada "NFT Yourself". As pessoas podem dar lances em uma das seis experiências de "bilhete dourado", que oferecem aos fãs quatro lugares na primeira fila para o show de sua escolha durante cada turnê pelo resto da vida.

Um videoclipe criado pelo artista digital Beeple foi lançado e foi vendido pelo preço recorde de R$ 38 milhões na semana passada. Grimes, Logan Paul, o criador do meme do Nyan Cat, e muitos outros artistas e celebridades estão vendendo a propriedade de imagens digitais. Chris Torres, o primeiro artista que criou o Nyan Cat, recentemente recriou o GIF do famoso meme da internet e o vendeu por mais de R$ 2,5 milhões.

Os NFTs (Non Fungible Token ou tokens não fungíveis) são um novo tipo de ativo digital. É como se fosse uma carta Pokémon ou uma figurinha de álbum da Copa, mas como um certificado digital que garante sua autenticidade. A propriedade desses ativos é registrada em um blockchain —um registro digital semelhante às redes que sustentam o Bitcoin e outras criptomoedas.

Mas, ao contrário da maioria das moedas virtuais, você não pode trocar um NFT por outro da mesma forma que faria com dólares ou barras de ouro. Cada NFT é único e atua como um item de colecionador que não pode ser duplicado, o que os torna raros.

O NFT não impede que a imagem seja copiada e duplicada digitalmente -você ainda pode tirar uma captura de tela de uma obra de arte digital ou compartilhar um GIF do Nyan Cat— mas o NFT mostra quem é o "dono" de uma imagem original —da mesma forma que a imagem do seu RG contém seu nome, idade e um número de identificação. O fato de alguém copiar seu RG não a torna dona do seu RG. O princípio se aplica aqui para NFTs.

Embora os NTFs existam em um blockchain, como as criptomoedas usadas para comprá-los, há várias outras diferenças: os NFTs são indestrutíveis no blockchain, não podem ser divididos e sempre podem ser rastreados até o criador original.

Os NFT nem são tão novos assim, cresceram à medida que o bitcoin e o conceito de blockchain se espalharam nos últimos anos. Mas assim como o bitcoin atingiu o maior valor de sua história esse ano, os NFTs também dispararam em valor.

No meio do ano passado, por exemplo, fãs compraram 125.000 cartões colecionáveis de tokens não fungíveis de William Shatner, o Capitão Kirk de "Star Trek", no WAX Blockchain. As imagens da vida pessoal e da carreira de Shatner, dos anos 1930 até hoje, esgotaram-se em nove minutos, de acordo com WAX.

Entre as peças mais valiosas da coleção há Shatner abraçando Leonard Nimoy, o intérprete do Spock da série, e um raio-x dos dentes de Shatner.

Uma das características do meio digital é derrubar o valor das imagens. Na web, tudo é reproduzível e copiável a um preço irrelevante e ao alcance de todos. Mas se um artista transforma essa imagem em um Token (NFT), ela passa a ter uma assinatura digital única atrelada a um blockchain. E isso, dizem os defensores da novidade, a torna exclusiva, como uma obra de arte.

A lógica tem funcionado, particularmente com colecionadores e especuladores que apostam que a tendência está apenas começando. Os mercados de tênis colecionáveis e figurinhas de beisebol há anos movimentam centenas de milhares de dólares e dão uma ideia do potencial, mas o NFT permite levar a prática a novos patamares.

O NBA Top Shot, um mercado para tokens não fungíveis, gerou mais de R$ 1 bilhão em vendas, de acordo com o Dapper Labs, a empresa que licencia os direitos de vendas da imagens da NBA e administra a plataforma. O NBA Top Shot é construído no blockchain Dapper's Flow, permitindo que os usuários comprem "pacotes" que apresentam momentos dos jogos. Com os pacotes quase sempre esgotados, um mercado secundário é a única maneira de os usuários acessarem momentos específicos.

Recentemente, um destaque com LeBron James foi vendido por mais de R$ 1 milhão.

E a iniciativa já ganha até empreendimentos mais arrojados. Uma linha repleta de celebridades e figuras influentes está lançando sua primeira coleção de NFTs como parte do coletivo de arte Ethernity. Esse novo projeto de NFT vende obras de arte digitais endossadas por figuras públicas das áreas de cinema, TV, música, esportes e criptomoedas.

Um token representa cada peça de arte digital que compõe a coleção Ethernity, criada por artistas renomados. Uma parte dos fundos arrecadados com cada venda será doada para causas beneficentes. Endossado por celebridades e criado por artistas, a Ethernity oferece uma maneira para as estrelas apoiarem causas filantrópicas enquanto participam de eventos que estão em seus corações. As causas podem ser filantrópicas, ou em benefício próprio se forem fora do projeto da Ethernity, vale lembrar.

Christian Vieri e Paolo Maldini, ex-jogadores de futebol; Michael Rubin, dono do Philadelphia 76ers; os DJ Alesso, Dimitri Vegas e Like Mike estão no projeto.

Um dilema para os artistas que querem explorar suas imagens em NFTs é o impacto ambiental. A exemplo do bitcoin, que consome quantidades consideráveis de energia e boa parte dela ainda baseada em combustíveis fósseis, os NFTs também aumentam o consumo de eletricidade. Existe um crescente número de ambientalistas apontando esse crescente consumo como um grande problema.

Existe ainda um crescente número de pessoas comuns usando o NFT como um meio de investimento especulativo, atraídas pelos crescentes preços. Mas a exemplo do Bitcoin no passado, nada garante que os preços vão seguir subindo ou que não vão cair bruscamente.

Mas quem entende de investimentos (e especulação financeira) garante que a onda está apenas começando. Enquanto isso, imagino como seria o meu álbum de figurinhas da Copa de NFTs.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL