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Flavia Guerra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Westword Temporada 4: de volta ao grande mistério do que nos torna humanos

Maeve (Thandiwe Newton) e Caleb (Aaron Paul)  voltam ao futuro distópico de "Westworld" - Divulgação
Maeve (Thandiwe Newton) e Caleb (Aaron Paul) voltam ao futuro distópico de "Westworld" Imagem: Divulgação
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Flavia Guerra

O cinema é minha casa. Da faculdade de jornalismo na ECA-USP ao mestrado em Direção de Documentários na Goldsmisths-University of London, passando pelo trabalho nos coletivos Elviras - Mulheres Críticas de Cinema e no Mais Mulheres no Audiovisual, vivo o cinema 24/7. Jornalista, documentarista, curadora, crítica de cinema e outras coisas mais, mora também no podcast Plano Geral (@planogeral_podcast), que criou em parceria com Thiago Stivaletti. É colunista de cinema da Band News FM, cobre os principais festivais de cinema internacionais para o Canal Brasil e é curadora do Feed Dog - Festival Internacional de Documentários de Moda.

Colunista do UOL

26/06/2022 04h00

Dois anos se passaram desde o fim da terceira temporada de Westworld, quando o público se deparou, em plena Pandemia, com um mundo em que os humanos e andróides "poderiam ser o que quisessem". No universo, e no tempo da série, sete anos se passaram desde que Maeve (Thandiwe Newton) disse esta frase a um estupefato Caleb (Aaron Paul) diante de um mundo liberto do domínio da inteligência artificial Rehoboam, que, assim como a Delos determinava o destino dos robôs/anfitriões, previa e determinava o destino dos humanos.

O mundo pegava fogo, uma grande guerra estava para acontecer e a terceira temporada terminou em clima de pré-apocalipse depois que, finalmente, Dolores (Evan Rachel Wood) partiu para o "mundo real" em busca de vingança para as atrocidades que a humanidade (os hóspedes/ guests) praticava com os robôs (anfitriões/hosts) no bizarro "parque de diversões". Pois quem esperava que a quarta temporada, que estreia neste domingo, na HBO, começasse com explosões massivas vai se surpreender.

Como nada é óbvio e previsível em Westworld (pelo menos não na melhor fase da série), há uma elipse e já neste primeiro episódio nos deparamos com um Caleb casado, pai dedicado à sua mulher (Nozipho Mclean) e sua filha, a pequena e inquieta Frankie. Ele não descansa, apesar de aparentemente ter vencido a tal guerra. Depois de encarar seus traumas, desativar Rehoboam, Caleb ganhou uma motivação a mais para seguir, mas não descansar. A todo momento, teme sofrer um ataque e sua mulher o vê como um paranoico incurável. Obviamente, seu temor tem fundamento.

"A gente terminou a terceira temporada com ele diante do que parecia uma grande guerra ao lado de Maeve. E aí, quando a gente o encontra na quarta temporada, entende rápido que muita coisa passou, sete anos se passaram, ele lutou muito, desligou as máquinas e voltou ao trabalho que tinha antes, mas não mais com os colegas robôs. Ele está sofrendo de um sério stress pós-traumático e suspeita que a guerra não acabou. Caleb se sente confortável em "guerrear a boa guerra" por um bem maior. Ele está ansioso para voltar ao campo de batalha", respondeu Aaron Paul quando questionado pelo UOL sobre a saga de seu personagem nesta nova etapa.

Caleb é um guerreiro e não vem a passeio nesta nova fase. "Sim, ele é um guerreiro. A gente entendeu isso na terceira temporada. Ele tem algo mais, sua família, pelo que guerrear desta vez", completou o ator, que encarou o desafio de entrar literalmente com o trem de Westworld andando na terceira temporada, depois de duas temporadas de imenso sucesso.

"Eu já era um grande fã do livro e da série em particular. Quando eles me chamaram para entrar a bordo, eu não via a hora. Amo como construíram um imenso e complicado monstro sci-fi que, na verdade, de alguma forma, é baseado em uma espécie de realidade futurista. Acho que todos nós já pensamos que é ficção, mas já vivemos com os perigos da Inteligência Artificial, com a tecnologia. Então, fiquei muito animado em ver como Caleb iria se ajustar a este mundo de Westworld. Estou feliz que continuaram a escrever este personagem para mim", completou o ator.

Enquanto isso, no mesmo tempo, mas em paralelo, Maeve vive uma vida reclusa em uma casa de montanha até que sua paz é interrompida pelo Man in Black (ou William, ou o que se tornou o personagem do magnífico Ed Harris) e seus capangas. Ela continua sonhando com o reencontro com a filha, mas, mesmo assim (ou talvez muito por isso), decide se arriscar mais uma vez pela humanidade.

Evan Rachel Wood  - Divulgação - Divulgação
Evan Rachel Wood volta a Westworld como Chistine, roteirista que divide apartamento com Maya (Adriana DeBose)
Imagem: Divulgação

Já Dolores se foi. Ou quase. Eva Rachel Wood agora é Christina, uma roteirista que vive uma vida comum, divide o apartamento com a amiga Maya (Ariana DeBose) e escreve histórias para a empresa Olympiad Entertainment. Tudo está estranhamente em paz, mas este é o silêncio que precede o estouro e, obviamente, os roteiristas e criadores da série estão guardando para mais tarde as reviravoltas que quem ama Westworld espera. O passado volta em imagens e pensamentos que Christina não entende (se Dolores, seja no corpo de Christina, seja em outros, como Halores - Tessa Thompson - vai voltar, ainda não sabemos).

Personagens femininas continuam subvertendo

Um fato é certo: as personagens femininas continuam a ser um grande motor desta trama que mais seduz por nos fazer pensar, mesmo que involuntariamente, no que nos torna humanos. Carne, osso, vísceras, alma? Ou atos de humanidade? Bernard (Jeffrey Wright), que a este ponto já sabemos há tempos ser um anfitrião (ou robô), continua sendo o mais humanista dos personagens . E está disposto, assim como Dolores e Maeve, a salvar a humanidade (ou pelo menos tentar).

Em conversa com a imprensa, em uma rodada de entrevistas via Zoom, Lisa Joy (que criou este universo ao lado de Jonathan Nolan) afirmou ao UOL Splash que sempre foi um privilégio escrever para as mulheres na série.

"Eu sempre fui apaixonada por Thandiwe e seu trabalho e a coragem que ela sempre trouxe para a tela. A mulher que lidou com sua perda em tantas dimensões, que se sacrificou pelos outros de novo e de novo. E o desafio que ela tem. Quão mais ela está disposta a lutar por este mundo que parece ter deixado muito pouco para ela em termos pessoais."

Dito isso, Maeve não só abre a quarta temporada com grande destaque como promete ser crucial para o desfecho da trama, que surge mais linear neste primeiro episódio e vai ganhando complexidade, linhas temporais e espaciais paralelas à medida que a trama avança nos segundo, terceiro e quarto episódios. Não se deixem enganar pela aparente simplicidade do primeiro episódio. Ainda estamos (ou nunca saímos), de Westworld.

"Acho que há uma marca no personagem de Maeve, uma personagem que escolhe seu destino com base em sua voz interior e não em promessas de recompensas ou retribuição. Seu personagem e seus heroísmo continuam a me inspirar, assim como o trabalho incrível de Thandiwe. E Angela Sarafyan (Clementine) eu apenas a adoro. Eu gosto de vê-la lutar porque tem tanta graça em seus movimentos. E ela mudou muito nesta temporada. Ela realmente nos surpreende. É sempre uma delícia vê-la na tela", continuou Lisa Joy, adiantando que a companheira de cabaré de Maeve surge também com nova programação em Westworld 4.

"Quem surge também na trama é a personagem de Aurora (Perrineau, de Prodigal Son). Ela é ótima. É a primeira temporada que estou trabalhando com ela. E é ótimo explorar todos os diferentes segredos da personagem dela", observou Lisa sobre a jovem misteriosa que surge nesta nova temporada e, ao lado de Bernard, terá uma missão essencial. "Para terminar, Evan / Chistine também ganha uma nova roommate nesta temporada vivida por Ariana DeBose."

Os personagens masculinos, obviamente, também são cruciais nesta temporada. Caleb, William, Arnold são decisivos. Arnold retorna do "Sublime" tempos depois (e depois dos sete anos passados, sem spoillers) disposto a salvar a apostar no pouco que sobrou da humanidade.

"Eu adoro esta série porque homens e mulheres jogam em pé de igualdade. Emocionalmente, fisicamente, intelectualmente todo mundo joga. Esta é uma das coisas que faz com que seja tão interessante de assistir. Ao menos para mim", declarou Evan Rachel Wood (Dolores / Christine) ao UOL.

"É engraçado porque até os anfitriões realmente têm gênero. A sociedade tem debatido muito as questões de gênero. Francamente, eu sempre fui muito consciente observadora destas questões. Mas para os anfitriões, em especial, é como se a afinidade ou a forma como eles lidam com seus corpos, sua sexualidade e gênero são ilusórias, são coisas que foram projetadas para empacotar, limitar, suas mentes, mas não o que realmente são", analisou Lisa Joy.

"E a personagem de Tessa Thompson (Charlotte Hale) nesta temporada está em busca de evolução de sua espécie e está questionando algumas questões de antropomorfismo que os anfitriões herdaram", completou a criadora, provando que esta temporada ainda promete muitas reviravoltas.

Charlotte (Tessa Thompson) Charlotte (Tessa Thompson) está em busca de evolução de sua espécie e questiona questões de antropomorfismo que os anfitriões herdaram - Divulgação/HBO - Divulgação/HBO
Charlotte (Tessa Thompson) Charlotte (Tessa Thompson) está em busca de evolução de sua espécie e questiona questões de antropomorfismo que os anfitriões herdaram
Imagem: Divulgação/HBO

Para os que ou desistiram de Westworld na segunda ou que acham que a série se perdeu em muitas linhas narrativas na terceira temporada ou os que nunca foram grandes apaixonados, Evan Rachel Wood deixa um recado contundente: "Westworld exige mais do espectador. Muitas pessoas dizem que não entendem o que está acontecendo, mas se você prestar atenção e ouvir com atenção, na verdade é bem fácil de seguir. Você tem que se render à história."

A eterna Dolores completou: "Às vezes as pessoas não gostam de ficar nas "zonas cinzentas", mas muita gente gosta. Muitas pessoas querem este mistério, querem embarcar nessa viagem, não querem tudo mastigado. Eles querem este quebra-cabeças para decifrar. Eu adoro séries como esta. Amo as surpresas. É o tipo de série que você tem que se render e não saber sempre a cada minuto exatamente o que está acontecendo, mas saber que algo vai ser entregue a você. Você tem que esperar. Exatamente como fazemos quando recebemos os roteiros!"

Dito isso, esperemos as novas peças deste quebra-cabeça. Se pensarmos que já vivemos em um mundo em que a Inteligência Artificial parece estar prestes a ganhar consciência, em que partes humanas estão sendo de fato criadas em laboratório e são capazes de se regenerar e em que a vigilância online de nossos passos já não é mais ficção científica, Westworld pode até ser este imenso "monstro sci-fi", mas não tão irreal assim.