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Flavia Guerra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Triangle of Sadness': quando o humor vale uma Palma de Ouro

O diretor Ruben Östlund e o produtor Tarik Saleh celebram premiação em Cannes - John Phillips/Getty Images
O diretor Ruben Östlund e o produtor Tarik Saleh celebram premiação em Cannes Imagem: John Phillips/Getty Images
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Flavia Guerra

O cinema é minha casa. Da faculdade de jornalismo na ECA-USP ao mestrado em Direção de Documentários na Goldsmisths-University of London, passando pelo trabalho nos coletivos Elviras - Mulheres Críticas de Cinema e no Mais Mulheres no Audiovisual, vivo o cinema 24/7. Jornalista, documentarista, curadora, crítica de cinema e outras coisas mais, mora também no podcast Plano Geral (@planogeral_podcast), que criou em parceria com Thiago Stivaletti. É colunista de cinema da Band News FM, cobre os principais festivais de cinema internacionais para o Canal Brasil e é curadora do Feed Dog - Festival Internacional de Documentários de Moda.

Colunista do UOL, em Cannes

29/05/2022 07h04

Festivais de cinema competitivos têm a premissa de premiar filmes. E colocam estes filmes lado a lado filmes completamente diferentes, vistos e julgados por público, crítica e júri compostos por pessoas também completamente diferentes. Nem sempre, claro, a competição é justa ou até mesmo coerente. Nem sempre crítica e júri concordam. E este 2022 parece ter sido o ano mais marcante em que não houve unanimidade.

A Palma de Ouro foi para o sueco "Triangle of Sadness", de Ruben Östlund. Mas há muitas controvérsias. A imprensa nitidamente aprovou o filme, mas grande parte da crítica torcia e previa a Palma para o belga "Close". Ou até mesmo para o coreano "Decision to Leave" ou para o iraniano "Leila's Brother" (que levou, aliás, o prêmio da Fripesci, a Federação Internacional de Críticos de Cinema).

Esta é a segunda vez que o diretor sueco vence o festival. Em 2017, o também não unânime "The Square" levou a Palma, uma das que mais foram criticadas e questionadas da recente história de Cannes. E agora, Östlund consegue o feito de, em cinco anos e no filme seguinte, levar outra Palma para casa. Qual o segredo do sucesso do cineasta?

A chave de tudo é o humor. Antes mesmo do sarcasmo que ele destila como poucos, da ironia, da mão pesada em cenas que ele poderia cortar antes, mas que estica até o limite, o que Östlund traz em seu cinema é a combinação rara entre humor, crítica da sociedade e seus costumes e hipocrisias, além da discussão de temas realmente sérios, como machismo, luta de classes, sistemas econômicos, racismo, xenofobia? Há uma lista de temas em "Triangle of Sadness", mas o que fez com que a plateia aplaudisse o filme de pé por longos oito minutos ao final da sessão de gala certamente foram as boas risadas que deu de si mesma (sim, porque, convenhamos, quem tem acesso às sessões de gala de Cannes é, em sua grande maioria, uma classe abastada e uma classe média).

Em tempos pós pandêmicos (ainda que a Pandemia não tenha sido de fato superada), depois de dois anos sem o festival ocorrer em seu formato tradicional (em 2020, foi cancelado e em 2021, houve uma edição esvaziada), estamos (em Cannes e na sala de cinema comum) ávidos por filmes que nos façam rir, nos aqueçam o coração, nos provoquem mas também confortem. Prova disso é que "Close", que é dirigido pelo jovem talentoso Lukas Dhont, de 31 anos, é um filme para aquecer o coração ao final de sua jornada, mas que jornada duríssima! Arrancou lágrimas até mesmo da sempre ultra-crítica imprensa que cobre o festival. E ter levado o Grande Prêmio da Crítica em vez da Palma deixa a certeza que o drama sempre vai ter seu lugar, mas a comédia tem dialogado até mesmo com júri de Cannes.

Entre o drama e o humor, o júri presidido pelo ator francês Vincent Lindon (de "Titane", que levou a Palma em 2021) ficou com o humor e o olhar contundente de Östulund. Há que se dar o crédito a ele. Ao rir dos personagens ultra ricos do navio de "Triangle of Sadness", o público de Cannes, numa experiência à Molière, ri de si mesma e de suas pequenas-grandes misérias humanas. Somos ridículos, em vários sentidos. E o melhor que temos a fazer, além de agir para de fato mudar algo, é rir.

Refrescando a memória, "Triangle of Sadness", que pode ser traduzido como "Triângulo da Tristeza", se refere às rugas da testa que fazemos quando franzimos o semblante.

Ma também é o "triângulo das bermudas e do desespero" que toma conta de um cruzeiro de luxo em que o jovem modelo Carl faz com a namorada, que é influencer e modelo Yaya (Charlbi Dean). O jovem casal é influencer e ganha a viagem. Ou seja, são os únicos classe-média entre os hóspedes desta nau que serve de microcosmo da sociedade. Quem deveria estar sob o comando é o capitão (vivido com maestria por Woody Harrelson), mas ele prefere beber e, americano comunista que é, discutir marxismo e capitalismo com o hóspede capitalista russo.

Em uma noite de tormenta, os hóspedes passam mal, o esgoto da embarcação estoura, o barco é atacado por piratas e afunda.

Os sobreviventes, mais que pessoas com subjetividade, são arquétipos das figuras de poder da sociedade. Só que numa ilha deserta um rolex não vale nada. E a única que sabe fazer fogueira e pescar para sobreviver é a faxineira filipina. É hilária a inversão de poder, de papéis de gênero, além da dinâmica nova que se instala. Östlund já havia levado a Palma de Ouro em 2017 com um filme também crítico e sarcástico: "The Square". Desta vez, surge mais corrosivo, mas também mais escrachado. The Square tinha pretensão de ser mais cerebral, mais "arte contemporânea". "Triangle of Sadness" é um shit show. Não deixa de ter um olhar sofisticado, mas é exagerado, escrachado e um tanto mais longo do que deveria.

O cineasta, que sempre recorre aos microcosmos para servirem de tabuleiro que resume o mundo, contou na coletiva de imprensa após a premiação que trabalha já em um novo roteiro. Dessa vez, o universo vai ser um avião em que, no início de um longo voo, o sistema de entretenimento (ou seja, as TVs pifam). " Tripulação sabe que um voo longo sem uma distração digital para os passageiros não vai dar certo e pede para fazerem um pouso forçado para resolver a situação", contou o diretor. Só de ouvir isso, já queremos ver este caos na tela. E aí é que está um dos grandes talentos do cineasta. Ele pode até não ser o mais cinematográfico, o mais ousado no formato, o mais autoral, mas sabe pescar os temas que estão no ar e transformá-los em pretextos ótimos para fazer rir e pensar, não necessariamente nesta ordem.