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Flavia Guerra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Triangle of Sadness' é o favorito de Cannes com sarcasmo, fezes e vômito

"Triangle of Sadness", do sueco Ruben Östlund, chama atenção em Cannes - Reprodução/Instagram @festivaldecannes
'Triangle of Sadness', do sueco Ruben Östlund, chama atenção em Cannes Imagem: Reprodução/Instagram @festivaldecannes
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Flavia Guerra

O cinema é minha casa. Da faculdade de jornalismo na ECA-USP ao mestrado em Direção de Documentários na Goldsmisths-University of London, passando pelo trabalho nos coletivos Elviras - Mulheres Críticas de Cinema e no Mais Mulheres no Audiovisual, vivo o cinema 24/7. Jornalista, documentarista, curadora, crítica de cinema e outras coisas mais, mora também no podcast Plano Geral (@planogeral_podcast), que criou em parceria com Thiago Stivaletti. É colunista de cinema da Band News FM, cobre os principais festivais de cinema internacionais para o Canal Brasil e é curadora do Feed Dog - Festival Internacional de Documentários de Moda.

Colunista do UOL, em Cannes

22/05/2022 11h17Atualizada em 22/05/2022 17h15

Toda edição do Festival de Cannes tem seu filme queridinho do público, da crítica, o que choca, o que surpreende. Raras vezes todas as qualidades se resumem em um único filme. Foi o caso de "Parasita" em 2019, mas não foi o caso de "Titane" em 2021, que até hoje divide quem ama e quem odeia.

"Triangle of Sadness" (em tradução livre, "Triângulo da Tristeza"), do sueco Ruben Östlund, consegue ser até o momento o raro filme que reúne todas as plateias de Cannes 2022. Foi tanto aplaudido (por longos oito minutos) ao final da sessão de gala, para convidados seletos do mundo do cinema, quanto na sessão para a imprensa e a crítica. Mas o grande termômetro se um filme agrada mesmo é se ele é aplaudido em cena aberta, ou seja, durante alguma cena. E "Triangle of Sadness" foi várias vezes aplaudido em diversas sequências que mexem com o âmago de uma plateia imersa em uma sociedade de consumo hipócrita, racista, classista e gananciosa.

Östlund, que já havia esticado a corda com o controver "The Square" (Palma de Ouro em 2017), esticou ainda mais com o novo filme. Ele espezinha nossas piores mesquinharias morais e sociais para, num tom de Molière, fazer a plateia rir de si mesma. Afinal, convenhamos, não é a equipe da manutenção do festival nem a da limpeza e muito menos a das cozinhas dos tantos restaurantes apinhados na cidade francesa que ganham os convites para as sessões do evento.

Mas falando da trama, "Triangle of Sadness" já em seu nome brinca com a ironia. O termo se refere às rugas da testa que fazemos quando franzimos o semblante. E surge logo no início do filme, quando um avaliador pede para o jovem modelo vivido pelo jovem Carl (Harris Dickinson) tomar mais cuidado com seu triângulo da tristeza.

Pouco tempo depois, o triângulo das bermudas, ou da tristeza, aparece num cruzeiro que Carl faz com a namorada, a influencer e modelo Yaya (Charlbi Dean). Frequentada pelos super-ricos (o jovem casal está na cota dos famosos, que conseguem regalias em troca de sua presença célebre), a embarcação deveria estar sob o comando de um capitão atento e cuidadoso com o PIB de sua população. Ao contrário. Vivido com maestria por Woody Harrelson, o capitão é um americano marxista que prefere gastar seu tempo bebendo e discutindo política com um magnata russo capitalista. Harrelson, aliás, questionado pela imprensa, disse que é anarquista.

Tudo vai bem, ou quase, até que em uma noite uma tormenta põe os ricos, arrogantes e gananciosos hóspedes à beira de naufrágio. O que seria o pomposo jantar com o Capitão se torna um "shit show" de vômitos. A tormenta piora e o esgoto da embarcação estoura, espalhando a "m" por todos os lados. O barco é atacado por piratas e afunda.

Os sobreviventes, numa alegoria da própria sociedade, são arquétipos ambulantes. A modelo influencer bonita, mas sem poder nenhum em um ambiente em que é preciso pescar a própria comida. O jovem modelo que, fora do ambiente urbano, não é nada alfa. O funcionário negro da casa de máquinas que é tido pelo russo magnata do adubo como um pirata disfarçado. A chefe da tripulação que, mesmo maltrapilha e sem comida, não desce do posto e acha que vai poder continuar mandando na asiática chefe da limpeza.

Pois a asiática é a única que pesca, sabe fazer uma fogueira e sobreviver no ambiente inóspito da ilha. A inversão de poder, de papéis de gênero e de influência se desenha com maestria sob a mão precisa de Östlund. Quem viu "The Square" sabe o que esperar. O diretor destila sarcasmo, ironia e estica as cenas mais desconfortáveis para que justamente o público viva com intensidade sua própria mediocridade projetada na tela.

"Triangle of Sadness" tem, a seu favor, além da visão crítica e ácida de uma sociedade que "volta porque deu errado", o humor. A longa sequência de 15 minutos do jantar fracassado é de chorar de rir, mas também de querer vomitar. Não seria esta a metáfora perfeita para nossa sociedade atual?

As dinâmicas estabelecidas na ilha revelam que ter poder e influência é questão de contexto e que não necessariamente os humilhados serão mais sábios e/ou humildes caso cheguem a postos de poder. O homem é o lobo do homem, não? Faltou citar Thomas Hobbes na batalha de citações entre o russo e o capitão.

Direção precisa, tempo certo (ainda que um tantinho esticado demais) e um elenco afiadíssimo fizeram de "Triangle of Sadness" o filme mais festejado da competição oficial de Cannes 2022 até o momento. A semana ainda é longa até a premiação no sábado (28), mas uma certeza já temos. Se não sair com outra Palma de Ouro, pelo menos um Grande Prêmio do Júri o sueco vai sair.