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Que sorte que o jovem LGBT de hoje tem uma série como 'Heartstopper'

"Heartstopper" tem sido aclamada por público e crítica - Divulgação/Netflix
"Heartstopper" tem sido aclamada por público e crítica Imagem: Divulgação/Netflix
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Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

28/04/2022 13h40

A experiência de ser um adolescente gay nos anos 90 - ou antes - poderia ser extremamente solitária. No colégio, não era incomum que houvesse um único indivíduo apontado como o LGBT de toda a instituição - e normalmente ele era alvo de bullying. Na família, a percepção da homossexualidade com constância era tratada como defeito, maldição ou mau hábito. Em círculos religiosos, idem, com a ideia de grave pecado e condenação eterna como punição. Na televisão, a representação era ínfima. Em "A Próxima Vítima", de 1995, os jovens Jeferson (Lui Mendes) e Sandrinho (André Gonçalves) mal se tocavam, mais pareciam amigos. Mesmo em 2005, dez anos depois, a Globo cortou um beijo entre dois homens do final da novela "América".

Hoje, nesse e em outros quesitos pelo menos, houve progresso. E séries como "Heartstopper", sensação da Netflix, aclamada por crítica e público, é a prova disso. Água com açúcar na medida certa, a produção acompanha o desabrochar de dois colegas de colégio e suas dúvidas enquanto tentam resolver a sexualidade e o amor que sentem um pelo outro. Não há como não se envolver com a história e, mais que isso, como não ver um conteúdo LGBT com uma abordagem tão delicada desagradar até mesmo a mais conservadora das famílias.

É de extrema importância para jovens homossexuais verem suas histórias refletidas nas telas sem abordagens trágicas ou problemáticas. Segundo o livro "The Celluloid Closet", de Vito Russo, dos anos 30 aos 90, por exemplo, toda e qualquer representação LGBT no cinema americano se dava com esses personagens sendo vilões, angustiados - muitas vezes suicidas - ou com destinação a finais tristes e mortes (especialmente com o advento da epidemia de Aids). Para se ter uma ideia, no começo dos anos 2000 no Brasil, histórias de amor entre jovens homossexuais eram tratadas como algo proibido. O livro "O Terceiro Travesseiro", de Nelson Luiz de Carvalho, por exemplo, virou um best seller pirata, sendo enviado por e-mail para que fosse lido em segredo.

Vinda no embalo de produções como "Love, Victor", "Heartstopper" coloca luz no potencial de produções que abarcam a diversidade e conscientizam famílias. Mais do que isso: tiram da marginalidade adolescentes alvo de preconceito, lhe dão a promessa de uma vida com direito a amor e final feliz. Que bom que os jovens de hoje tem essa série. Ela teria feito muita diferença para os adolescentes nos 80, 90 e 2000.