PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Fefito

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pioneira e didática, série 'Casa da Vó' é marco para comunidade negra

Cena da série "A Casa da Vó", estrelada por Margareth Menezes, disponível na WoloTV - Divulgação
Cena da série "A Casa da Vó", estrelada por Margareth Menezes, disponível na WoloTV Imagem: Divulgação
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fefito

Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

09/03/2021 04h00

Com campo cada vez mais fértil e explorando gêneros até então pouco comuns no Brasil, o mundo das séries tem sido ampliado para abarcar também posicionamentos ideológicos importantes. Um dos exemplos disso é a simpática "Casa da Vó", que marca território de maneira importante: é uma série feita por realizadores negros para falar diretamente sobre questões da comunidade. A julgar pelos episódios da primeira temporada, o seriado cumpre ainda outra função necessária: educar uma audiência acostumada a um olhar pouco diverso na produção audiovisual do país.

Estrelada pela sempre carismática e talentosa Margareth Menezes, "Casa da Vó" acompanha, como o próprio título sugere, uma avó que mora com boa parte de seus netos e, numa sociedade tão cheia de obstáculos como a nossa, tenta empoderá-los para enfrentar o mundo. Cada um dos cinco episódios se concentra em um deles: há o rapaz extremamente talentoso, mas que não consegue uma vaga; há o jovem que pretende ser influenciador, mas não tem as mesmas oportunidades que outros; há o ator que vive fazendo testes mas só ganha - e recusa - papéis de bandido; e há a mulher bem sucedida que resolve se reaproximar de sua família.

Em comum, a maioria das tramas têm o fato de que pessoas negras acabam barradas por pessoas brancas. A priori, essa frase parece reducionista, mas, por mais simplória que pareça, acaba por refletir uma realidade muito dura para boa parte da população do país. Por vezes, a série explora seus diálogos com um didatismo acima da média. Mas como condenar algo tão bem desenhado de maneira a todos entenderem num país que está tão pouco acostumado a pensar no racismo de maneira profunda, como deveria?

Nesse sentido, a produção dirigida por Licínio Januário acaba por propor reflexões importantes e treinar novos olhares. Por mais maniqueístas que pareçam, algumas situações ocorrem, de fato, com constância no mundo real. No elenco de maioria negra, o ator branco, Cadu Libonati é coadjuvante e também alívio cômico, mas um desses que em nada alivia, mas, sim, provoca risos nervosos pelo modo como se porta. O time de atores conta com nomes como o cantor Rincon Sapiência e a DJ Kiara Felippe e tem em Jacy Lima e Jéssica Cores grandes revelações.

Não é exagero, portanto, que, ainda que tenha alguns ponteiros a acertar no que diz respeito a questões técnicas - especialmente no que diz respeito ao som - e aos diálogos, "Casa da Vó" é um marco de resistência e reparação história, sem medo de tocar em feridas. Está disponível na WoloTV, plataforma de streaming voltada para produções de realizadores negros. Não à toa - merecidamente - já tem segunda temporada garantida. Há uma boa sitcom sendo desenvolvida e com futuro promissor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL