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Faltou transparência da Globo no caso das acusações de assédio de Melhem

O humorista Marcius Melhem  - Reprodução/Internet
O humorista Marcius Melhem Imagem: Reprodução/Internet
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Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

25/10/2020 12h42

Resumo da notícia

  • Emissora já tinha enfrentado denúncias de assédio em 2017, com caso de José Mayer
  • Assim como o ator, Marcius Melhem passou um período afastado e depois teve o contrato rescindido
  • Dessa vez, no entanto, a emissora evitou citar diretamente o humorista ao falar sobre acusações de assédio

Em abril de 2017, pouco depois de Su Tonani, figurinista da Globo, publicar um texto no blog "Agora É Que São Elas", da "Folha de S. Paulo", acusando José Mayer de assédio, a emissora tratou de tomar uma decisão. Até então um dos maiores galãs das novela da casa, o ator foi suspenso e ganhou reprimenda pública.

Em comunicado divulgado no dia 4 de abril daquele ano, a Globo afirmou que "em relação à denúncia de assédio envolvendo o ator José Mayer e a figurinista Susllen Tonani, a Globo reafirma o teor da nota divulgada na última sexta-feira, quando afirmou que o caso foi apurado e que as devidas providências estavam sendo tomadas" e "apurado o caso, tomou a decisão de suspender o ator José Mayer de produções futuras dos estúdios Globo por tempo indeterminado. Sobre a iniciativa de funcionários, colaboradores e executivos de usar hoje camisetas com os dizeres 'Mexeu com uma, mexeu com todas', a Globo se solidariza com a manifestação, que expressa os valores da empresa".

Na época, por meio da nota, a direção da emissora ainda pediu desculpas: "A Globo lamenta que Susllen Tonani tenha vivido essa situação inaceitável num ambiente que a emissora se esforça cotidianamente para que seja de absoluto respeito e profissionalismo. E, por essa razão, pede a ela sinceras desculpas". O caso José Mayer se tornou um divisor de águas na mídia brasileira, gerou um movimento de atrizes semelhante ao #MeToo e foi discutido à exaustão. Meses após a suspensão, o ator teve seu contratado encerrado.

Passados três anos, a Globo se viu envolta em acusações semelhantes envolvendo Marcius Melhem, até então chefe do núcleo de humor do canal. Responsável pela reformulação do "Zorra" e por projetos como "Tá No Ar" e "Fora de Hora", o ator teria assediado moralmente e sexualmente atrizes e produtoras. Em janeiro deste ano, foi alvo de uma investigação pelo comitê de compliance da Globo, mas acabou inocentado. Em março, a emissora divulgou que ele "pediu afastamento" para tratar de problemas familiares. "Por motivos pessoais, Marcius Melhem deixou a liderança dos projetos de Humor. (...) Marcius solicitou ainda licença das funções de roteirista e ator por um período de quatro meses", dizia a nota.

Em 14 de agosto, cinco meses depois, as partes decidiram encerrar o contrato vigente e Melhem deixou de vez seu trabalho. "A Globo e Marcius Melhem, em comum acordo, encerraram a parceria de 17 anos de sucessos. O artista, que deu importante contribuição para a renovação do humor nas diversas plataformas da empresa, estava de licença desde março para acompanhar o tratamento de saúde de sua filha no exterior. Como todos sabem, a Globo tem tomado uma série de iniciativas para se preparar para os desafios do futuro e, com isso, adotado novas dinâmicas de parceria com atores e criadores em suas múltiplas plataformas", explicava o comunicado.

Ao contrário do que ocorreu com Mayer, Melhem não foi normalmente citado sobre os casos dos quais foi acusado. Neste sábado (24), a colunista Mônica Bergamo, da "Folha de S. Paulo", publicou uma entrevista com a advogada de seis atrizes afirmando que o ator e diretor "atuou de forma violenta com várias atrizes" e "abusou de seu poder". Procurado, ele negou tudo e garantiu que vai tentar provar sua inocência.

O que diferencia os dois casos é que a Globo desta vez não só evitou citar o humorista diretamente, como ainda tratou de forma genérica as acusações. Diz comunicado de sua assessoria:

"Como você sabe, a Globo não comenta assuntos da área de compliance, mas reafirma que todo relato de assédio, moral ou sexual, é apurado criteriosamente assim que a empresa toma conhecimento. A Globo não tolera comportamentos abusivos em suas equipes e, neste sentido, mantém um canal aberto para denúncias de violação às regras do Código de Ética do Grupo Globo. Por esse Código, assumimos o compromisso de sigilo do processo, assim como o de investigar, não fazer comentários sobre as apurações e tomar as medidas cabíveis, que podem ir de uma advertência até o desligamento do colaborador. Mesmo nas hipóteses de desligamento, as razões de compliance não são tornadas públicas.

Somos muito criteriosos para que os estilos de gestão estejam adequados aos comportamentos e posturas que a Globo quer incentivar e para que as medidas adotadas estejam de acordo com o que foi apurado. Não foi diferente nesse caso.

Isso não quer dizer que os processos de compliance sejam estáticos. Ao contrário. Eles evoluem constantemente para acompanhar as discussões da sociedade. As práticas e as avaliações são revistas o tempo inteiro, assim como são propostas e acolhidas sugestões de melhoria nos mecanismos de comunicação interna. A própria sociedade está se transformando e a empresa acompanha esse processo".

Não se pode negar, no entanto, que o processo, ainda que menos público se deu de maneira parecida. Assim como José Mayer, Marcius Melhem afastou-se de suas funções para meses depois perder seu cargo. Faltou, no entanto, fazer justiça pública às mulheres que o denunciaram. Faltou maior transparência para tratar do assunto junto aos espectadores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL