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Arte Fora do Museu

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A última (e mais feia) estátua a ser retirada em 2021

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Andre Deak / Felipe Lavignatti

O projeto Arte Fora do Museu nasceu em 2011 com os pesquisadores e jornalistas Andre Deak e Felipe Lavignatti, como um levantamento de obras de arte nas ruas da cidade de São Paulo. Hoje em mais de 500 cidades do mundo, milhares de obras e centenas de artistas, é um guia de arte urbana que inclui arquitetura, escultura, graffiti e mural. Andre Deak e Felipe Lavignatti são também sócios na produtora Liquid Media Lab, com projetos de comunicação digital, arte e diversos trabalhos no campo da inovação.

Colunista do UOL

30/12/2021 16h27Atualizada em 30/12/2021 17h11

Resumo da notícia

  • Estátua retratava líder de organização racista
  • Escultor era um defensor da separação do sul dos EUA
  • Obra foi danificada na remoção e deve ter seus pedaços leiloados

O ano de 2021 viu algumas estátuas caírem e outras serem incendiadas. Os argumentos pró manutenção de monumentos normalmente citam o valor histórico ou artístico como elemento a ser considerado antes de sua remoção. Esses são fatores que com certeza faltam a uma das últimas estátuas a caírem este ano, em Nashville, EUA.

Ao analisarmos o fator histórico, não há dúvida que essa estátua sequer deveria ter sido feita. O retratado é Nathan Bedford Forrest, um general que lutou com os confederados pelos EUA em defesa da manutenção da escravidão. Não bastasse isso, ele é o primeiro líder histórico da organização racista Ku Klux Klan. Fica impossível defender Nathan e o que ele representa.

Estátua de Nathan Bedford Forrest - Brent Moore/CC BY 2.0 - Brent Moore/CC BY 2.0
Estátua de Nathan Bedford Forrest
Imagem: Brent Moore/CC BY 2.0

Quando analisamos a qualidade da obra, também é difícil a defesa, como podemos ver na imagem que ilustra essa coluna. Trata-se de uma escultura que representa um soldado que mais lembra uma caricatura do que um general. Não se engane, não há qualquer traço de ironia neste trabalho do escultor Jack Kershaw.

Importante falar sobre o artista em questão. Este é sua obra mais famosa, mas sua notoriedade se deu como advogado, conspiracionista e segregacionista. Os ideais que o general defendia no século 19 não estavam muito distantes dos defendidos pelo escultor de última hora Jack Kershaw.

Sem valor artístico ou histórico que valesse sua defesa, a estátua de poliuretano de mais de 8 metros deu adeus no início do mês à colina onde ficou nos últimos 23 anos. Sua retirada não foi de maneira fácil, pois o terreno era uma propriedade privada pertencente ao milionário Bill Dorris.

Se dependesse dele, a estátua permaneceria ali para sempre, já que Dorris era um grande entusiasta dos confederados. Sim, era. Dorris morreu no final de 2020, aos 84 anos, sem esposa ou filhos, e deixou o pedaço de terra para uma organização que preserva o legado das batalhas dos confederados em Nashville. Nem eles queriam aquela peça no local e assim chegou ao fim mais um monumento "feio" e "sem significado histórico", nas palavras dos próprios herdeiros. Segundo eles, a estátua foi danificada na remoção e seus pedaços devem ser leiloados em breve. Como curiosidade, Dorris também deixou US$ 5 milhões para seu border collie, Lulu.