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Arte Fora do Museu

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A luta da Grécia para recuperar suas esculturas clássicas

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Andre Deak / Felipe Lavignatti

O projeto Arte Fora do Museu nasceu em 2011 com os pesquisadores e jornalistas Andre Deak e Felipe Lavignatti, como um levantamento de obras de arte nas ruas da cidade de São Paulo. Hoje em mais de 500 cidades do mundo, milhares de obras e centenas de artistas, é um guia de arte urbana que inclui arquitetura, escultura, graffiti e mural. Andre Deak e Felipe Lavignatti são também sócios na produtora Liquid Media Lab, com projetos de comunicação digital, arte e diversos trabalhos no campo da inovação.

Colunista do UOL

03/12/2021 19h12Atualizada em 03/12/2021 19h12

Resumo da notícia

  • Fídias foi o grande nome das esculturas da Grécia
  • Peças foram retiradas há 2 séculos do Partenon
  • Governo britânico já manifestou que não irá retornar as peças para seu local de origem

A Grécia Clássica foi um período histórico cuja arte acabou influenciando gerações, principalmente o Império Romano e boa parte da arte ocidental. Um artista se destacava entre todos da época. Fídias era um escultor, pintor e arquiteto que foi responsável por obras como a Estátua de Zeus em Olímpia. Considerada uma das 7 maravilhas do mundo, nada sobrou dessa obra, vítima de destruição causada justamente pelos romanos. A produção do artista tem mais de 2400 anos e pouca coisa sobreviveu. Ao ar livre, seu trabalho mais famoso é o que restou da fachada do Partenon, em Atenas. Poucos dos murais que tiveram sua supervisão ainda seguem firmes nas ruínas do templo. Já uma parte preciosa, os chamados Mármores de Elgin, foi retirada e está guardada no Museu Britânico, uma controvérsia que dura mais de 200 anos.

Mármore retirado do Partenon - Carole Raddato / CC - Carole Raddato / CC
Mármore retirado do Partenon
Imagem: Carole Raddato / CC

O primeiro ministro britânico Boris Johnson tratou de lavar as mãos quanto ao assunto em encontro recente com seu colega grego Kyriakos Mitsotakis. Para Johnson, o acervo do museu não é uma questão deles, mas dos administradores da instituição. Mistotakis havia reforçado a posição do país antes do encontro, reivindicando que as peças voltem para a Grécia, onde estariam expostas no museu da Acrópole, de onde se avista a obra arquitetônica que um dia serviu de suporte para as placas de mármore. Em março, Boris tinha uma outra opinião, quando afirmava que o Reino Unido tinha total clareza que as obras haviam sido conseguidas de forma legal pelo Lord Elgin na época e, portanto, não haveria motivo para a Grécia pedir de volta as peças. O que o britânico chama de legal não é tão claro assim.

Quem vê o Partenon hoje em ruínas acredita que o cenário é assim há séculos. Bem, é verdade, mas menos séculos do que imaginamos. Foi em 1687 que uma bala de canhão de um navio veneziano atingiu o local causando uma explosão que praticamente destruiu o edifício. Um pouco mais de um século depois, em 1806, entra em cena o homem que deu nome aos mármores que hoje estão no Museu Britânico.

Thomas Bruce, o sétimo conde de Elgin, resolveu copiar, com moldes de gesso, algumas esculturas, para decorar sua mansão. A Grécia estava sob domínio turco na época e Bruce tratou de subornar as autoridades corretas para fazer seu trabalho. Trabalho esse que ele resolveu expandir por conta própria, aproveitando do seu cargo na época de embaixador e a crescente influência britânica na região. Com isso, ele obteve autorização para levar para o Reino Unido "algumas" peças. Sim, entre aspas. Ninguém sabe ao certo o que estava no termo original turco. O que restou foi sua tradução italiana que usa a palavra "qualche", que tanto pode significar "umas poucas" como "quaisquer".

O fato é que Elgin recrutou 300 homens para retirar do edifício 56 peças e 19 estátuas. Os buracos que você vê ali Partenon hoje são frutos de sua equipe nem sempre muito cuidadosa na retirada. As peças ainda passariam por mutilações para o transporte além de naufrágios de navio com algumas delas. O ato da retirada de peças tão importantes não foi bem visto nem mesmo por alguns britânicos, que acharam que Elgin havia cruzado a linha.

Os maus tratos com as obras-primas de Fídias não parariam por aí. Os mármores foram mal armazenados, chegando a passar por restauros que acabaram por danificar o material. Foi nos anos 80 do século passado que a Grécia começou o processo para reaver o que um dia foi seu, mas até o momento sem sucesso. A justificativa é a mesma de hoje, a de que todo esse movimento de Thomas Bruce foi feito legalmente, portanto as peças pertencem ao museu. Foi o argumento dado por Boris Johnson em março. Em novembro esse argumento mudou, mas não resolveu muito. Se a responsabilidade é do museu, não há nenhum sinal deles para que a Grécia retome as obras-primas. Enquanto isso, o pouco do trabalho de Fídias que pode ser apreciado ao ar livre está no topo do Partenon, do lado dos buracos deixados pela equipe de Elgin.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL