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Arte Fora do Museu

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que as pessoas estão atacando obras de arte?

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Andre Deak / Felipe Lavignatti Andre Deak

O projeto Arte Fora do Museu nasceu em 2011 com os pesquisadores e jornalistas Andre Deak e Felipe Lavignatti, como um levantamento de obras de arte nas ruas da cidade de São Paulo. Hoje em mais de 500 cidades do mundo, milhares de obras e centenas de artistas, é um guia de arte urbana que inclui arquitetura, escultura, graffiti e mural. Andre Deak e Felipe Lavignatti são também sócios na produtora Liquid Media Lab, com projetos de comunicação digital, arte e diversos trabalhos no campo da inovação.

Andre Deak

Colunista do UOL

30/07/2021 20h17

"Quem controla o passado controla o futuro". A frase do livro 1984, de George Orwell, foi lembrada esses dias pelo filósofo Vladimir Safatle no artigo Considerações sobre o direito inalienável de derrubar estátuas. Ele lembrava que uma estátua não é apenas um monumento histórico, mas um marco de celebração. O espaço público é um lugar de disputa de narrativas, e é exatamente isso o que vemos ocorrer neste momento.

Primeiro, as chamas no Borba Gato, escultura do bandeirante com um rifle na mão. A provocação que ativistas de muitos países já estavam promovendo chegava em São Paulo: por que manter nas ruas homenagens a figuras históricas hoje condenadas? Não se trata de revisionismo: enquanto a homenagem estiver lá, ela se faz presente na vida das pessoas, perpetuando aquele ponto de referência como algo que será lembrado. Deve-se destruir, queimar? Não, mas tirar do espaço público e levar a um museu, onde poderá ser visto com o devido contexto: "era assim que os paulistas homenageavam aqueles que hoje são considerados genocidas".

Na sequência do Borba Gato, a única homenagem que existe a Carlos Mariguella, que lutou contra a ditadura, apareceu também vandalizada. Trata-se de um bloco de pedra no local onde foi emboscado e assassinado pela polícia, na Alameda Casa Branca, que pouca gente percebe, pois a placa que explica do que se trata é arrancada e nunca reposta. Hoje derramaram tinta vermelha sobre a pedra. Haverá também investigação, com tantas câmeras de edifícios caros à disposição nos Jardins?

Também hoje um graffiti em homenagem a Marielle, em São Paulo, sofreu um vandalismo: tinta vermelha e sobre a imagem a frase: "viva Borba Gato". Haverá investigações e prisões aqui também? O passado é um lugar de disputa. As imagens fazem parte de um imaginário. Há homenagens que precisam ser resgatadas, recuperadas, mantidas, produzidas. Há outros monumentos que não podem mais fazer parte do espaço público, como se fôssemos cúmplices permanentes do que estas figuras realizaram em nome de uma suposta civilização. Que sejam levados para museus. E que não se deixem queimar os museus, aliás.

Mapa com a localização de algumas obras de Julio Guerra, autor do Borba Gato

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL