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Arte Fora do Museu

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O herói olímpico de 2 mil anos disputado por Itália e EUA

Andre Deak / Felipe Lavignatti Felipe Lavignatti

O projeto Arte Fora do Museu nasceu em 2011 com os pesquisadores e jornalistas Andre Deak e Felipe Lavignatti, como um levantamento de obras de arte nas ruas da cidade de São Paulo. Hoje em mais de 500 cidades do mundo, milhares de obras e centenas de artistas, é um guia de arte urbana que inclui arquitetura, escultura, graffiti e mural. Andre Deak e Felipe Lavignatti são também sócios na produtora Liquid Media Lab, com projetos de comunicação digital, arte e diversos trabalhos no campo da inovação.

Felipe Lavignatti

Colunista do UOL

20/07/2021 11h27

Resumo da notícia

  • Museu americano possui uma das esculturas mais raras do mundo
  • Itália está em disputa há decadas para que a obra volte ao país
  • Estátua representa um competidor olímpico
  • Obra foi encontrada por acaso por pescadores

Estamos há poucos dias do início de mais uma edição dos jogos olímpicos, desta vez em Tóquio, Japão. A história da competição é milenar, tendo sua origem na Grécia. A tradição era tão forte que nos santuários gregos havia estátuas representando os feitos e glórias dos competidores. É o caso do Atleta de Fano, também conhecido como Jovem Vitorioso, uma rara escultura de 1,5 m feita em bronze. Durante muito tempo, essa homenagem aos atletas olímpicos e muitas outras estavam ao alcance de qualquer cidadão grego, até o momento em que foram saqueadas e, em sua maioria, derretidas e vendidas. Mas a saga desse atleta é mais longa.

O que restou da estátua hoje pode ser encontrada no Museu J. Paul Getty, em Los Angeles, EUA. Seus pés se perderam, seus olhos um dia já foram incrustados. Mesmo faltando partes, a peça ainda impressiona pela imponência e pela técnica empregada, o que fez muitos especialistas atribuírem a obra ao escultor grego Lysippos. Porém, não há registro do seu autor, nem mesmo de onde exatamente era sua localização original.

A peça foi encontrada por acaso na rede de pescadores no mar de Fano (daí seu nome), na costa adriática da Itália, em 1964. Provavelmente, estava em um navio que transportava objetos saqueados a caminho da Itália quando naufragou na região. Negociantes de arte bem oportunistas compraram dos pescadores por U$ 5.600 dólares. Pouco tempo depois, a obra foi vendida ao Museu Getty por U$ 4 milhões. Seu valor estimado hoje é de US $ 16 milhões.

Atleta di Fano em exposição no museu Getty - Dave & Margie Hill / Kleerup - Dave & Margie Hill / Kleerup
Atleta di Fano em exposição no museu Getty
Imagem: Dave & Margie Hill / Kleerup

O Museu Getty está envolvido em controvérsias a respeito da posse de algumas das obras de arte de sua coleção, incluindo esta. O Ministro do Patrimônio Cultural da Itália declarou que a Itália colocaria o museu sob embargo cultural se todas as 52 peças em disputa não retornassem ao exterior. Ao todo, 40 retornaram até 2010, mas não o Atleta de Fano.

O primeiro pedido de devolução foi feito ainda em 1989. A justiça vinha dando ganho para o museu, até que em 2018 magistrados italianos concluíram que a Itália tinha o direito legal à estátua. O museu, claro, contesta essa leitura, dizendo que a obra foi encontrada em águas internacionais e que "a descoberta acidental por cidadãos italianos não torna a estátua um objeto italiano".

Mudanças recentes no Senado italiano prometem aquecer essa disputa. Foi aprovada uma resolução que favorece o governo italiano em casos complexos de restituição. O prefeito de Fano já usa isso como plataforma para reforçar o pedido de devolução da obra. Com a possibilidade real de embargo, o museu segue pressionado, mas firme em sua convicção em manter a escultura nos EUA. Seria um grande trunfo recuperar a estátua a tempo do começo das Olimpíadas que começam essa semana, mas isso é quase impossível. Quem sabe em 2024, com a edição voltando ao continente europeu, em Paris, na França. Mas se nada mudar, em 2028, os jogos Olímpicos acontecerão em Los Angeles, EUA, na mesma cidade onde se encontra o Atleta de Fano, podendo assim a estátua novamente estar no mesmo local de uma disputa olímpica depois de mais de 2 mil anos.