PUBLICIDADE
Topo

Arte Fora do Museu

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Artistas de obra criminalizada em BH pintam agora em São Paulo

Obra de Robinho Santana em Belo Horizonte - Divulgação
Obra de Robinho Santana em Belo Horizonte Imagem: Divulgação
Andre Deak / Felipe Lavignatti Andre Deak

O projeto Arte Fora do Museu nasceu em 2011 com os pesquisadores e jornalistas Andre Deak e Felipe Lavignatti, como um levantamento de obras de arte nas ruas da cidade de São Paulo. Hoje em mais de 500 cidades do mundo, milhares de obras e centenas de artistas, é um guia de arte urbana que inclui arquitetura, escultura, graffiti e mural. Andre Deak e Felipe Lavignatti são também sócios na produtora Liquid Media Lab, com projetos de comunicação digital, arte e diversos trabalhos no campo da inovação.

Andre Deak

Colunista do UOL

14/06/2021 09h08

O debate é quente, longo e antigo: o que é arte hoje em dia? Quem determina que um desenho qualquer num muro é arte, mas aquele outro não? Indo mais longe: quando é que um rabisco, uma pixação, pode ser considerada uma forma de arte?

Nem precisa comentar, já sabemos a opinião de muita gente: "pixação não é arte, é vandalismo". Mas e quando a pixação está dentro de um festival de arte?

Esse é justamente o caso da obra Deus É Mãe, feita para do Festival Cura, em Belo Horizonte, que foi alvo de uma investigação policial justamente por causa dos pixos que estavam na moldura do graffiti - e eram parte da obra coletiva.

"O Cura nasceu em 2017, e desde o começo o princípio é dialogar com o que está na rua. Quando a gente escolhia uma empena, a gente colocava o artista convidado para falar com os pixadores que já tinham ocupado esse espaço antes.", explica a curadora Janaína Macruz, realizadora do Cura em Belo Horizonte.

O inquérito foi encerrado em fevereiro, não houve crime algum. Mas a própria existência da investigação levanta questões importantes. "Esse inquérito traz várias camadas. A partir do momento em que um festival convida eles para entrarem numa exposição de arte, quem é a polícia para questionar isso, para dizer o que é arte? Imagina a polícia questionando alguma obra dentro da Bienal. Outra coisa: a pixação na obra de uma artista branca, com personagens brancos, não tem problema [outra obra do Festival Cura foi feita assim]. No caso do Robinho, artista negro, com personagens negros, a polícia implica. A caligrafia urbana do pixo está ali enquanto arte. Racismo estrutural, criminalização da arte periférica", diz Janaína Macruz.

A polêmica em Belo Horizonte gerou o convite para que o grafiteiro Robinho Santana e os cinco outros artistas e pixadores da capital mineira, Poter, Lmb, Bani, Tek e Zoto, viessem fazer também uma obra similar em São Paulo, parte do Festival Verão Sem Censura, promovido pela prefeitura.

Vera Santana, da produtora DaTerra Cultural, foi quem viabilizou o projeto em São Paulo, através da startup Gentilização. "É uma honra estar com Robinho, um dos artistas mais potentes desse momento, que admiro demais e que vai ganhar o mundo. Muito feliz em realizar esse projeto que valoriza a escrita de rua, a fluidez da arte e a livre expressão dos artistas", conta.

O graffiti de Santana é reconhecido no mundo todo. Até a famosíssima apresentadora Oprah deu um repost no seu trabalho recentemente.

Em São Paulo, ele começou em junho a produzir o mural Algo Sobre Nós, com participação dos mesmos artistas-pixadores de Belo Horizonte. Novamente, pixo e graffiti juntos, compondo uma pintura gigante, trazendo arte para as ruas da cidade. Ou você não acha?

Para saber mais:
Veja as obras de Robinho Santana no mapa Arte Fora do Museu.