PUBLICIDADE
Topo

Andreza Delgado

Turma da Mônica: 'Jeremias Alma' retoma contribuição dos negros na história

Andreza Delgado

Andreza Delgado, baiana da terra do cacau, é uma das criadoras da Perifacon, a Comic Con da favela. Tem um canal no YouTube para resenhar séries, HQ's, filmes e livros e o game perifa, mas quando dá tempo tuíta pelos cotovelos.

Colunista do UOL

16/12/2020 16h52

Terminei a leitura da nova Graphic MSP, que traz novas aventuras do personagem da "Turma da Monica", Jeremias.

A primeira Graphic do personagem que também foi assinado pelos autores Rafael Calça e Jefferson Costa e organizada pelo editor Sidney Gusman, chegou a ganhar um prêmio Jabuti.

jeremias - Divulgação - Divulgação
Jeremias Alma
Imagem: Divulgação

Com lágrimas nos olhos queria repartir com vocês minha experiência de leitura.

A nova história de Jeremias que leva o nome de "alma", gira em torno da mudança do personagem para o bairro do Limoeiro, e sua própria jornada descobrindo seus laços com o passado de sua família. Enquanto sua mãe e pai vivem seus próprios dilemas sobre não pertencimento e não merecimento, quase que aquela velha "história" sobre você NÃO merecer tudo que está acontecendo na sua vida porque, como diz o grupo paulista de rap Racionais MCs:

Me ver pobre, preso ou morto já é cultural.

Carregada de diálogos profundos, a obra sutilmente toca em assuntos como, masculinidade tóxica e os efeitos do racismo na infância, através de memórias da família.

Falando em memória, me senti transportada para minha própria infância, a dificuldade que sempre tive de identificar a minha história familiar, enquanto para alguns colegas o nome e sobrenome significava, inúmeras conexões, para mim "conexão" me remetia aos risos que ficavam para os livros de história nas aulas, e a clássica foto de um negro no tronco e a risada "A lá Andreza, seu parente".

Meu palpite é que essa nova obra vai causar sensações diferentes para cada leitor, para mim, foi um efeito de resgate da minha infância e de dias melhores, de ressignificar, o orgulho não só pessoal, mas dessa história coletiva e importante que significa ser negro nesse país.

Os diálogos são extremamente carregados de questões íntimas, mas que, em simultâneo, lembram histórias que escutamos por aí ou vivenciamos, nos questiona sobre nosso passado, as nossas raízes, quem nunca se perguntou de onde veio? Aqueles exercícios de árvore genealógica que tanto me cansava e causava questionamentos infinitos.

Diria que a nova graphic te dá um gentil soco no estômago, para lembrar a gente que não está tudo bem.

Por que realmente não está, Jeremias é uma criança negra que está descobrindo o mundo. O que me chama atenção é que em nenhum momento os autores decidiram omitir o que significa ser uma criança negra, e as violências que elas estão sujeitas, principalmente se tratando do país onde crianças como Rebecca e Emilly, morrem com tiro de fuzil enquanto brincam em frente de casa.

Mas fique calmo, leitor, não é sobre a materialização da violência, que retira vida de crianças negras que se trata a obra, mas sim sobre descobertas em meio a tanta violência simbólica. Com texto de quarta capa de Elisa Lucinda, viajamos em infinitos "easter eggs" que retomam as obras e feitos dos negros para história brasileira.

Vida longa a Jeremias e os autores dessa obra tão necessária Rafael Calça e Jefferson Costa.