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Andreza Delgado

Emicida conecta o passado para explicar o presente em novo documentário

Show Amarelo no Teatro Municipal  - Jef Delgado
Show Amarelo no Teatro Municipal Imagem: Jef Delgado
Andreza Delgado Andreza Delgado

Andreza Delgado, baiana da terra do cacau, é uma das criadoras da Perifacon, a Comic Con da favela. Tem um canal no YouTube para resenhar séries, HQ's, filmes e livros e o game perifa, mas quando dá tempo tuíta pelos cotovelos.

Andreza Delgado

Colunista do UOL

08/12/2020 12h49

O documentário "AmarElo - É Tudo Pra Ontem" estreou hoje (8) na Netflix.

O filme mostra como o premiado álbum "AmarElo", de Emicida, desaguou em dois shows no Teatro Municipal de São Paulo, em 2019. Gosto de lembrar que a noite emanou quase um culto religioso - sim, eu também tive a oportunidade de estar no Municipal.

show amarelo1 - Jef Delgado - Jef Delgado
Show do Álbum Amarelo no Teatro Municipal
Imagem: Jef Delgado

Não quero começar a resenha pelo fim, mas terminei de ver o doc lembrando muito do oitavo episódio da série "Watchmen", quando o Doutor Manhattan senta num bar e explica para Angela (Regina King), sobre como tudo se conecta a partir das escolhas do passado.

Eu sou completamente apaixonada por viagens no tempo e pelo conceito do pássaro africano Sankofa. Segundo a filosofia do povo Akan, Sankofa tem duas cabeças e traz a seguinte mensagem:

"Retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro"

É isso que acontece no doc: uma viagem pela história do movimento negro, do samba, do rap e da construção do álbum "AmarElo". É preciso estar atento, pois vamos mergulhar nas histórias pessoais de Leandro/Emicida, com sua música e sua família, mas também nas de colegas homenageados no álbum. Vamos descobrir, inclusive, como algumas músicas e parcerias surgiram, e também lidar com perdas, como as de Wilson das Neves, Ruth de Souza e Marielle Franco.

Emicida olha para passado para contar o presente e projetar o futuro.

"AmarElo - É Tudo Pra Ontem" também tem um olhar sobre a construção dos territórios da cidade de São Paulo. Essa abordagem me fez lembrar da quadrinista Marilia Marz em "Indivisível", seu trabalho de conclusão de curso em formato de HQ, que conta a história da cultura negra e leste-asiática presentes no bairro da Liberdade, recorda a contribuição negra para o bairro e denuncia o processo de apagamento da mesma.

Indivisível, de Marília Marz - Indivisível, de Marília Marz - Indivisível, de Marília Marz
Pagina do quadrinho "Indivisível"
Imagem: Indivisível, de Marília Marz


Assim como a quadrinista Marília, Emicida também fala dos marcos intelectuais negros em diversos territórios da cidade. As tentativas de apagamento, como as dos irmãos engenheiros Rebouças ou do arquiteto Tebas, e seu legado para arquitetura de São Paulo, ou a demora de considerar Luiz Gama e sua importância para o direito, são perfeitamente conectadas à musicalidade que percorre o filme. Aliás, não faltam conexões entre a música, o álbum e todas as informações históricas que recebemos enquanto assistimos ao doc.

A escolha do teatro municipal que naquele dia, brilhava negro.

Eu olhava para cima e via anjos brancos pintados; em simultâneo, as projeções nos vitrais marcavam punhos negros fechados. Ali eu sentia que reescrevíamos parte da História que sempre nos foi negada.

Emicida Show Amarelo2 - Jef Delgado - Jef Delgado
Show do Álbum Amarelo no Teatro Municipal
Imagem: Jef Delgado


"A primeira vez que minha vó vai lá, minha mãe, minhas tias, minhas filhas"

Por falar no Theatro, a narrativa se volta genialmente para história da fundação do movimento negro, unificado nas escadarias daquele mesmo Municipal, em meio a repressão e perseguição. Lélia Gonzalez, inserida como personagem, é lembrada pelo seu trabalho na disputa da intelectualidade negra, do feminismo e discussões de classe.

"Vencer é muito mais que ter dinheiro, queremos reescrever a história desse país"

O documentário ainda guarda espaço para exibir um pouco da intimidade de Leandro. Em sua horta, ele faz analogias com uma "faculdade" e nos proporciona momentos de aprendizados e processos pessoais, até chegar na execução das músicas. A colheita dessa horta é a entrega de uma grande aula, da retomada da memória da arte, da contribuição do negro para a cidade, para cultura (de nível mundial!), para a autoestima, para o amor-próprio.

O documentário é bom porque dialoga com tema atuais, como a própria pandemia, mas também porque passa por cima da estratégia secular de aniquilar e esconder a contribuição de milhares de negros em todos os campos, materiais e imateriais, sejam o samba, o rap ou o "neo-samba" sobre o qual o rapper diz estar se debruçando.

Toda nossa contribuição e legado para a Humanidade são retomados em "AmarElo - É Tudo Pra Ontem".