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Andreza Delgado

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'Bom Dia, Vêronica' é boa, mas erra a mão na duração das cenas de violência

Camila Morgado interpreta Janete em "Bom Dia, Verônica"
Camila Morgado interpreta Janete em "Bom Dia, Verônica"
Suzanna Tierie / Netflix
Andreza Delgado

Andreza Delgado, baiana da terra do cacau, é uma das criadoras da Perifacon, a Comic Con da favela. Tem um canal no YouTube para resenhar séries, HQ's, filmes e livros e o game perifa, mas quando dá tempo tuíta pelos cotovelos.

Colunista do UOL

23/11/2020 15h50

"Bom Dia, Verônica", série original Netflix que adaptou o livro da dupla Raphael Montes e Ilana Casoy, desembarcou em outubro na plataforma e desde então só foi sucesso. A série estrelada por Tainá Müller ficou por semanas no top 10 da plataforma.

Recentemente, a Netflix anunciou a segunda temporada da série, o que me deixa bastante feliz, já que sou uma grande entusiasta das produções nacionais. Mas também tenho minhas críticas.

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O enredo, num primeiro momento, parece fácil de acompanhar. Nós seguimos a jornada da escrivã Verônica Torres (Tainá Müller) numa caçada a um homem que ataca mulheres através de um site de relacionamento.

Mas a coisa começa a ficar complexa quando Janete (Camila Morgado) e Brandão (Eduardo Moscovis) são inseridos na história. Daí a trama começa a degringolar para um enorme —e desnecessário— tempo de tela com violência de gênero, o que, para mim, poderia ter sido apresentado em poucos cortes.

brandão bom dia veronica - SUZANNA TIERIE/NETFLIX - SUZANNA TIERIE/NETFLIX
Eduardo Moscovis como o policial Brandão em "Bom Dia, Verônica"
Imagem: SUZANNA TIERIE/NETFLIX

Eu sei que, de primeira, você, leitor, talvez ache um exagero da minha parte, mas realmente precisamos falar sobre as escolhas da série em não explicar o que raios é a espécie de culto em que Brandão está metido? Easter eggs para religiões de matriz afro?

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Como se o racismo religioso não estivesse acontecendo no Brasil, com especulações absurdas sobre cultos e sacrifícios, a escolha da série de dar o nome "Cosme e Damião" para a organização corrupta, que não existe no livro, aponta para uma mesmice criativa baseada em estereótipos preconceituosos.

Eu me pergunto o quanto as sufocantes torturas a que Brandão submete as suas vítimas poderiam ser substituídas por explicações e motivações melhores para termos a personagem Verônica Torres abandonando sua vida por completo por ideais feministas. Desculpa, isso não me convenceu.

Camila Morgado em cena da série "Bom Dia, Verônica" - Suzanna Tierie/Netflix   - Suzanna Tierie/Netflix
Imagem: Suzanna Tierie/Netflix

Veja bem, acho de extrema importância que produções abordem a violência contra a mulher, e em vários momentos a série acerta em expor as diferenças entre abuso psicológico, físico e até o comportamento de profissionais da segurança quando o assunto é violência de gênero.

Mas é preciso repensar as escolhas criativas de superexposição do sofrimento feminino, o chamado "torture porn". Será que o telespectador precisava de sufocantes e longos minutos de torturas a mulheres? Ainda mais enquanto o roteiro abandona explicações básicas para conectar o espectador à trama?

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O anúncio da renovação me deixa bastante esperançosa de a série entregar mais respostas, e não somente uma banalização de conteúdo de violência