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'Xilogeek' une técnica tradicional nordestina à referências da cultura pop

Andreza Delgado

Andreza Delgado, baiana da terra do cacau, é uma das criadoras da Perifacon, a Comic Con da favela. Tem um canal no YouTube para resenhar séries, HQ's, filmes e livros e o game perifa, mas quando dá tempo tuíta pelos cotovelos.

Colunista do UOL

08/09/2020 11h14

Diretamente de Pernambuco, da zona metropolitana do Recife, bati um papo com Lourenço Gouveia, que me chamou muito a atenção com suas xilogravuras —técnica tradicionalíssima de gravura em madeira com temas geek.

A xilografia funciona como uma espécie de carimbo. Mesmo que você não esteja ligando o nome à "pessoa", você deve se lembrar delas, que estampam as capas de cordéis.

Criador do Xilogeek, Lourenço faz a produção desde a concepção até a hora da impressão. O resultado são artes originais, que misturam o universo geek e a cultura brasileira da xilogravura.

Lourenço, que pratica artes desde a infância e está para se formar em Design e Artes Visuais, conta que fornece peças para o centro de artesanato da cidade. No seu processo criativo, estudou também outros métodos de gravar em relevo.

As referências de um lado...

Cordel, xilografia, poesias, lendas nordestinas, personagens que brotam no cotidiano do Recife e também no seu Carnaval me encantam. Folclore, danças, músicas, o teatro de Ariano Suassuna, enfim...

... e de outro

Trago comigo o mangá, o 'tokusatsu', os animes, e tudo aquilo que eu poderia assistir naquelas tardes de TV aberta. Games antigos, Marvel, pipoca e guaraná.

O artista me explicou o conceito por trás do Xilogeek e a ideia de representar a si próprio e a cultura pop que ele consome.

Faço isso por uma questão de representar a mim mesmo mas também as origens do pedaço de mundo que vivo e com isso todas as pessoas que também se identificam. É bom a gente se reconhecer nas coisas que a gente gosta e eu fico feliz em poder unir o que eu faço, sendo eu mesmo, à cultura pop

É claro que também o questionei sobre os preconceitos no universo nerd: como nordestina (eu nasci na Bahia, lembra?), cansei de ver a cultura do nordeste sendo reduzida e apagada. Inclusive, ao pesquisar sobre xilogravura, me deparei com a definição "arte ultrapassada". Lourenço, com seu trabalho, prova que ultrapassadas estão as referências de quem escreveu isso.

O que eu observo é que as pessoas, às vezes inconscientemente, associam a imagem do nordeste brasileiro sempre a uma caricatura ou a algo engraçado. Isso se deve ao estereótipo que é criado através dos nossos queridos comediantes, mas é evidente que a realidade não é assim.

Aproveitei para repercutir as reações ao anúncio da "visita" da Mulher Maravilha à João Pessoa, na Paraíba, em sua última HQ. Publicado nos Estados Unidos, o gibi foi ilustrado por Steve Orlando, que é da Paraíba, que aproveitou para homenagear sua terra natal. Mas não sem gritaria, como você pode ver abaixo:

materia mulher maravilha  - reprodução internet  - reprodução internet
Imagem: reprodução internet

Lourenço rebateu a ideia de que nordestinos são pessoas desinformadas, com menos estudo e cultura, o que apaga toda a enorme contribuição do nordeste para a cena cultural do país. Aliás, contribuições não faltam, inclusive no mercado consolidado dos quadrinhos.

Outros artistas também já desenharam capas e fizeram artes de grandes heróis para a Marvel e para a DC Comics, como por exemplo o Tony Silas, Pernambucano como eu, Mike Deodato da Paraíba e tantos outros.

O trabalho de Xilo Geek mostra sua potência ao misturar dois universos ricos em identidade própria, as possibilidades são infinitas, resultando num trabalho muito original.


Lourenço acredita que tem um potencial de enfraquecer reações xenófobas trazendo um pouco da identidade de um pedaço do Brasil:

A união sempre fez a força e que a força esteja sempre conosco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.