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Sidney Lumet: afinal, o que é o “cinema político”?

O cineasta Sidney Lumet em foto de 2007 - Getty Images
O cineasta Sidney Lumet em foto de 2007 Imagem: Getty Images
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

14/10/2020 10h31

Na história do cinema, alguns diretores se notabilizaram por filmes "políticos", obras que defendem certos pontos de vista. São nomes como Costa-Gavras, Gillo Pontecorvo, Rosa Von Prauheim e, mais recentemente, Michael Moore.

Mas nenhum filme —aliás, nenhuma obra artística— se sustenta apenas por suas convicções. Não adianta fazer o filme mais bem-intencionado do mundo, se ele não tiver méritos artísticos que comovam o espectador.

Nos últimos meses, tenho revisto filmes de um diretor que nunca foi considerado um cineasta "político", embora seus filmes toquem em questões importantes sobre temas como injustiça social, corrupção, desigualdade econômica e racismo: Sidney Lumet.

Considero Lumet um dos cineastas mais injustiçados do cinema. Para mim, ele está no panteão e deveria ser reverenciado como Welles, Fellini e Kurosawa. Sua lista de obras-primas é impressionante: "Doze Homens e Uma Sentença" (1957), "Longa Jornada Noite Adentro" (1962), "Serpico" (1973), "Um Dia de Cão" (1975) e "Rede de Intrigas" (1976).

Além desses, Lumet, que morreu em 2011, aos 86 anos, fez uma quantidade impressionante de ótimos filmes que hoje são praticamente esquecidos, como "O Homem do Prego" (1964), "Até os Deuses Erram" (1973), "O Príncipe da Cidade" (1981), "O Peso de um Passado" (1988), "Q&A" (1990) e seu último trabalho, o fabuloso "Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto" (2011). Ao todo, dirigiu mais de 50 longas.

Esses dias, revi um de meus filmes prediletos de Lumet: "O Veredito" (1982), um drama de tribunal em que Paul Newman faz um advogado bêbado e deprimido que enfrenta o poderoso time jurídico de um conceituado hospital católico de Boston, cujos médicos, por negligência, deixaram uma pobre mulher em estado vegetativo.

É uma típica história de Davi e Golias --o fraco contra o forte, o pequeno contra o grande, o homem frágil que busca sua redenção-- mas que Lumet, ajudado por um roteiro maravilhoso escrito por David Mamet, transforma num drama humano dilacerante.
E Lumet faz mais: aproveita a história para tocar em temas muito importantes, como o racismo.

Revendo o filme pela enésima vez —praticamente decorei alguns diálogos— concluí que a cena que mais me comove em "O Veredito" não está no tribunal, mas é uma pequena sequência, perdida no meio do filme e que poderia perfeitamente ter sido excluída na montagem, já que não tem influência na narrativa.

Vou tentar resumir a história sem dar grandes spoilers: o personagem de Paul Newman, Frank Galvin, descobre um médico, Dr. Gruber, que aceita testemunhar contra o hospital. Gruber tem convicção de que os médicos do hospital deram à paciente o anestésico errado, o que teria causado um derrame e deixado a mulher em estado vegetativo.

Gruber é um profissional conceituado, e Galvin está confiante que o depoimento dele vai convencer o júri da negligência do hospital. O que ele não poderia prever é que Gruber seria corrompido pela poderosa equipe de advogados do hospital - liderada pelo sombrio Ed Concannon, interpretado magistralmente por James Mason - e simplesmente sumido, às vésperas de seu depoimento. Sem Gruber, o caso de Galvin não para em pé.

Desesperado, Galvin procura outros médicos que aceitariam depor contra o hospital. Depois de várias tentativas sem êxito, finalmente consegue um certo Dr. Thompson, com quem fala ao telefone. Thompson trabalha em um pequeno e desconhecido hospital no interior do país e não tem as credenciais "respeitáveis" de Gruber, mas a hora do julgamento se aproxima, e Thompson é a única esperança de Galvin. Thompson diz que embarcará no próximo trem para Boston. Galvin diz que vai buscá-lo na estação no dia seguinte.

E aí vem a cena "pequena", porém antológica: na estação de trem, Galvin espera o Dr. Thompson. Vemos um senhor de aparência circunspecta, de maleta na mão, descendo do trem. Galvin acha que é Thompson e se aproxima dele, mas o homem passa direto. Galvin fica parado na estação, fitando os passageiros que saem do trem, procurando por Thompson. Nisso, um homem passa ao lado dele. É um senhor de aparência humilde, vestindo um surrado sobretudo e carregando uma mala em mau estado de conservação.

O senhor vê Galvin e o aborda. "Bom dia. Sou o Dr. Thompson!". Galvin olha para ele e se surpreende: Thompson é negro. A expressão de Galvin - e aí vem a genialidade de Paul Newman - diz tudo: ele olha para Thompson (interpretado pelo grande ator Joe Seneca) e imediatamente sabe que um júri branco, em Boston, nunca condenaria um hospital católico baseado no depoimento de um médico negro. Especialmente um médico com um currículo tão humilde quanto o de Thompson.

A cena é arrasadora porque faz o espectador, enfrentar seus próprios preconceitos. Lumet nos força a pensar: por que diabos eu, quando vi a cena, não achei que aquele senhor negro pudesse ser o médico? E por que tive a mesma reação de Frank Galvin?
A cena do encontro de Galvin e Thompson na estação é tão "desimportante" para a trama que não achei nenhum trecho dela no YouTube. Mas achei uma sequência - sem legendas - que mostra o depoimento de Thompson no tribunal, sendo atacado pelo advogado interpretado por James Mason.

Esta cena no tribunal é linda e triste. O espectador SABE que Thompson está falando a verdade quando acusa os poderosos médicos do hospital de negligência, mas pressente que o depoimento do médico não conseguirá reverter a opinião do júri.

A questão do racismo sempre foi importante para Sidney Lumet. Filho de imigrantes judeus, frequentemente abordou o racismo em seus filmes, mas nunca de forma professoral ou panfletária. Em "12 Homens e Uma Sentença", um júri de homens brancos decide a sorte de um adolescente latino, acusado de assassinato. Em "O Homem do Prego", Rod Steiger faz um judeu, sobrevivente de campo de concentração, que não consegue se livrar do ódio que sente por um empregado de origem latina.

Mesmo assim, ninguém dirá que "12 Homens e uma Sentença", "O Homem do Prego" e "O Veredito" são filmes "políticos". Mas são. O segredo é que Sidney Lumet tem o talento de camuflar seu ativismo em histórias humanas comoventes.
Uma ótima semana a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.