PUBLICIDADE
Topo

João Gordo: quando os punks anarquizaram a novela da Globo

João Gordo no Ratos de Porão - Rui Mendes
João Gordo no Ratos de Porão Imagem: Rui Mendes
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

06/10/2020 08h13

Não sou grande fã de novelas, mas tem uma - em especial, um capítulo - que eu gostaria muito de ver: foi ao ar no fim de 1983 na novela "Eu Prometo", escrita por Janete Clair, e mostra João Gordo tomando champanhe no sapato de Fernanda Torres.

João contou a história na autobiografia "Viva La Vida Tosca" (Editora Darkside, 2016), que o ajudei a escrever:

Um dia eu tava na loja de discos do Fabião, do Olho Seco, na Augusta, quando entrou um cara dizendo que trabalhava na Globo. Ele disse que era da produção da novela Eu Prometo e precisava de um grupo de punks pra fazer figuração. A gente quase bateu no cara, mas ele disse que tinha cachê, o equivalente a uns 300 reais hoje em dia, e a coisa mudou de figura.

Juntamos uns 40 punks e fomos pro Rio num busão chique, alugado pela Globo. Foi todo mundo: eu, Clemente, o pessoal do Cólera, do Olho Seco, o Bitão, foi uma renca. Fomos de São Paulo ao Rio tomando pinga e cheirando cola, e chegamos no Rio tortos. Tava um calor da porra, 40 graus, e a gente nem quis sair do ônibus por causa do ar condicionado.

Chegamos nos estúdios da Globo e já entramos no set zoando. Exigimos que eles trocassem a bebida cenográfica, uns xaropes doces, por cerveja de verdade, começamos a brigar com os técnicos, e o Bitão, num ataque de insanidade, passou a mão na bunda do Ney Latorraca, que ficou transtornado: "Meu filho, o que é isso?". O diretor era o Dênis Carvalho. Ele foi o maior gente fina, apesar de eu passar horas chamando ele de Pênis Caralho.

Na novela, o Francisco Cuoco fazia um deputado, e a filha dele era a Fernanda Torres. A personagem da Fernanda Torres resolve fazer uma festinha e chama uns punks pro apartamento dela. Lembro que eu apareci bebendo champanhe no sapato da Fernanda Torres. Aquela novela me marcou porque foi a última da Janete Clair, que morreu no meio das filmagens.

Na volta pra São Paulo, decidimos parar no Circo Voador pra ver se tinha algum show rolando. E sabe quem estava tocando lá? O Capital Inicial, com o Dinho louro, imitando o Gang of Four. A gente achava aquilo uma merda, mas conhecíamos os caras do Napalm e ficamos pra ver o show.

Os caras do Capital tiveram uma ideia brilhante: pediram carona pra nós de volta a São Paulo. Eles deixaram os instrumentos no busão - guitarras importadas, os pratos, um baixo lindo - e foram jantar. "Vamos jantar rapidinho e já voltamos". Claro que, assim que eles saíram do ônibus, nós mandamos o motorista ir embora e roubamos o equipamento todo.

A gente tava na Dutra, já combinando como seria a divisão do equipamento - "A guitarra é nossa, vocês ficam os pratos e vocês com o amp de baixo" - quando o busão foi interceptado por um táxi, que buzinava e pedia pro motorista parar no acostamento. Era o pessoal do Capital Inicial. "Porra, vocês são foda!".

Atenção colecionadores de novelas antigas: alguém pode me ajudar?

Uma ótima semana a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.