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André Barcinski

Filme sobre Garoto mostra como o Brasil despreza seus gênios

O músico Baden Powell, na década de 1970 - Getty Images
O músico Baden Powell, na década de 1970 Imagem: Getty Images
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

15/09/2020 04h00

O festival de documentários musicais In-Edit, que acontece de forma virtual até 20 de setembro, exibe "Garoto - Vivo Sonhando", de Rafael Veríssimo, um excelente filme sobre o músico brasileiro Annibal Augusto Sardinha (1915-1955), mais conhecido por Garoto.


Garoto não foi só um grande instrumentista, mas um vanguardista do violão brasileiro que criou uma maneira nova de tocar instrumentos de cordas, influenciou gerações e é considerado inspirador da bossa nova.

E quem diz isso no filme, em entrevistas recentes ou cenas de arquivo, são monstros do quilate de Tom Jobin, Baden Powell, Raphael Rabello, Yamandu Costa, Zé Menezes, Paulinho da Viola, Jacob do Bandolim, Vinícius de Moraes, Carlinhos Lyra, Roberto Menescal, João Gilberto e outros.

Assistir ao filme dá tristeza, mas isso não tem nada a ver com a qualidade de trabalho, que é excelente. Triste é perceber como um gênio desses morreu aos 39 anos, de um enfarte fulminante, sem receber as honrarias que merecia e sem ter seu trabalho devidamente documentado e arquivado.

No filme todo, há uma única cena em movimento de Garoto tocando violão, e esta foi tirada de um filme americano de Carmen Miranda. Há também um único registro da voz de Garoto, uma entrevista curta de rádio por ocasião do lançamento de "São Paulo Quatrocentão", música que ele fez em 1954 em parceria com Chiquinho do Acordeon.

Quem assiste ao filme e ouve grandes instrumentistas falarem da técnica inovadora de Garoto, só pode imaginá-lo tocando, porque não há registros visuais.

Como sempre acontece no Brasil, os arquivos de artistas e criadores só existem porque alguns abnegados —geralmente fãs ou membros da família— se esforçaram para mantê-los.

E isso vem de longe: há no filme um depoimento de Jacob do Bandolim, realizado dez anos após a morte de Garoto, em que ele reclama que nenhum jornal se dignou a registrar o décimo aniversário da partida do músico.
Só para comparar, dê uma olhada nesse episódio da série "Jazz", de Ken Burns, que tem fotos e cenas com mais de cem anos de idade:

Garoto morreu em 1955. Por muitos anos, tocou na Rádio Nacional e gravou discos importantes da música brasileira. Como é possível não termos filmes dele tocando, ou entrevistas dele falando de sua carreira e sua técnica?

A tristeza é ainda maior ao ouvir o depoimento do músico e pesquisador Henrique Cazes:

Se Garoto tivesse vivido mais dez anos, tenho certeza que ele seria o maior compositor de violão do século 20

Uma ótima semana a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.