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Como João Gilberto salvou o amigo Jards Macalé

Jards Macalé se apresenta no dia 13 de julho, na sala Juvenal Dias - Divulgação - Dulce Helfer
Jards Macalé se apresenta no dia 13 de julho, na sala Juvenal Dias Imagem: Divulgação - Dulce Helfer
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

01/09/2020 11h14

Um dos maiores experimentalistas de nossa música está completando meio século de carreira fonográfica. Foi em 1970 que Jards Macalé, então com 27 anos e já um músico tarimbado, que havia trabalhado com Maria Bethânia e Gal Costa, lançou seu primeiro disco, o compacto duplo "Só Morto".

Em homenagem a esse grande vanguardista, reproduzo o prólogo de meu livro "Pavões Misteriosos" (2014), que tem uma história sobre a amizade de Macalé e seu ídolo, João Gilberto.

Como Seu Joãozinho salvou Macalé

Jards Macalé estava cansado de viver.

Os últimos anos não tinham sido nem um pouco felizes para ele. Sua carreira havia estagnado, os convites para shows eram raros e, em meados dos anos 1980, Macalé se sentia cada vez mais isolado e solitário em um mercado musical que ele não entendia e que não o entendia de volta. O pop dominava o Brasil. Era o tempo de louras geladas, meninas veneno, xuxas, ilariês e "dias de domingo". Diabos: até sua amiga Gal Costa se rendera às maquinações do "sistema", estourando nas paradas com um empurrãozinho de Sullivan & Massadas, os reis Midas da nova música popular.

Poucos pareciam se interessar pelo currículo excepcional de Macalé: autor de canções experimentais e poéticas como "Gotham City", "Movimento dos barcos", "Aprender a nadar" e "Vapor barato", ele representava o elo entre a mpb e a vanguarda das artes brasi¬leiras. Era parceiro de Lygia Clark e Hélio Oiticica, colaborador de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, produtor de Gal Costa e Caetano Veloso.

Macalé era um provocador. Em dezembro de 1973, gravou o disco O banquete dos mendigos, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro cercado pelos militares mas lotado de fãs e com a presença dos amigos Chico Buarque, Paulinho da Viola, Jorge Mautner, Edu Lobo, Dominguinhos, Gonzaguinha, Johnny Alf, Raul Seixas, Milton Nascimento e mpb-4. O lp foi proibido pela censura.

O banquete dos mendigos foi finalmente liberado em 1979. O compositor decidiu, então, ir a Brasília mostrar o disco ao general Golbery do Couto e Silva, ministro-chefe da Casa Civil e um dos articuladores da abertura política. Acreditava que seu gesto de aproximação traria uma espécie de "trégua" entre ele e o governo militar, que tanto o perseguira. Quando voltou de Brasília, no entanto, foi acusado de ter aderido à ditadura. "Porra, não estávamos na abertura? Não era pra tentar abrir as coisas? Comecei a ser visto com péssimos olhos, até pelos coleguinhas. Eu não era mais chamado pra mais nada. A esquerda no Brasil é de direita!", reclamou, à época. Para piorar, sua mulher, Maria Eugenia, era filha do então governador de Minas Gerais, Francelino Pereira, da Arena, o partido aliado da ditadura. "Virou uma opressão louca, um patrulhamento total e absoluto. Implicaram até com a mulher que eu amava. Me botaram na geladeira por mais de dez anos."

Depois de ter provado a censura da direita e da esquerda, seria vítima de outra forma de ditadura: a do mercado. Nos anos 1980, foi tachado de "maldito" e viu seu trabalho, vanguardista, ser rejeitado pela indústria musical: "A arte sempre vive do conflito, não é? Se o artista não tomar cuidado, acaba diluído junto com essas coisas todas. Foi nesse espaço da solidão que eu passei os anos oitenta".

Macalé decidiu, então, que ia "desistir de viver".

Começou a ligar para os amigos. Um por um. Queria, pela última vez, ouvir a voz deles. Seria sua despedida, embora os amigos não soubessem. Depois de conversar com vários, discou, por fim, para um companheiro com quem não falava havia bastante tempo: João Gilberto.

João gostava muito de Macalé, a quem chamava, carinhosamente, de "Macala". De vez em quando, João aparecia de surpresa na casa de Macalé para ouvir a mãe dele, Lígia, cantar músicas antigas. "Macala, sua mãezinha está aí?", indagava o cantor baiano.; "Daí, João vinha, pedia meu violão emprestado e perguntava:

-- Mãezinha, você não canta pra gente?
-- Claro que canto, seu João.
-- Me chama de Joãozinho.
-- Tá bom, seu Joãozinho."

Macalé chegava a ficar enciumado: "Mãezinha é o caralho! É minha mãe, porra!".
João Gilberto adorava ouvir dona Lígia cantar. Ela não tinha estudado música, mas possuía, nas palavras do filho, "um senso de harmonia fora do normal". Certa vez, acompanhada por João, dona Lígia começou a entoar "Nanci", um dos clássicos do repertório de Francisco Alves: "Ouve esta canção,/ que eu mesmo fiz,/ pensando em ti,/ é uma veneração, Nanci...". De repente, ela parou de cantar e reclamou:

— O acorde está errado, não é esse, não, seu Joãozinho.

Ao telefone, quando se despedia para todo o sempre de João Gilberto, o compositor ouviu: "Macala, vem pra cá, quero te mostrar uma coisa". Foi uma surpresa. Não era comum o misantropo e recluso João Gilberto convidar alguém para ir a seu apartamento. Macalé chegou ao local e se surpreendeu outra vez: a porta de entrada estava aberta. Uma voz soou lá dentro: "Entra, Macala, vem aqui pro quarto".

O quarto estava escuro. Na penumbra, ele conseguiu identificar João, sentado num canto. "Macala, deita aqui, com as pernas pra lá", disse o baiano, apontando para um sofá grande e confortável. Macalé deitou, como se estivesse no divã de um psicanalista. João Gilberto pegou um violão e começou a tocar "No Rancho Fundo", de Ary Barroso e Lamartine Babo: "No rancho fundo/ de olhar triste e profundo/ um moreno conta as mágoas/ tendo os olhos rasos d'água...".

"Ele tocou por horas, foi uma coisa hipnotizante", lembra Macalé. "Eu comecei a ouvir aquela música e fui relaxando, relaxando, me deixando levar, até que apaguei." Macalé dormiu profundamente. Quando acordou, no dia seguinte, João Gilberto estava à sua frente, lhe oferecendo um café. "O sol entrava pela janela do apartamento, e toda a tristeza tinha desaparecido de mim. Foi uma coisa profundamente humana o que o João fez. Ele percebeu que eu estava numa pior e usou o que tinha à mão, a música, pra me ajudar."

Macalé não era o único que se sentia desorientado e, de certa forma, alijado da cena musical da década de 1980. Uma nova onda varria o país, e nem ele nem seus colegas da mpb conseguiam entender direito o que estava acontecendo. Parodiando o "Rei" Roberto Carlos, dali pra frente, tudo seria diferente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.