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Filme conta história de dois repórteres que revolucionaram o jornalismo

Pete Hamill e a atriz Shirley MacLaine chegam à cerimônia do Oscar em 1974 - Bettmann/Bettmann Archive
Pete Hamill e a atriz Shirley MacLaine chegam à cerimônia do Oscar em 1974 Imagem: Bettmann/Bettmann Archive
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

11/08/2020 09h05

Resumo da notícia

  • A HBO exibe "Breslin e Hamill - As Vozes de Nova York", documentário sobre dois grandes jornalistas e cronistas de Nova York

Se você gosta de jornalismo e de histórias sobre o período de ouro dos grandes jornais, um filme imperdível é "Breslin e Hamill - As Vozes de Nova York", em exibição na HBO Go ou na HBO Signature (horários aqui).

O documentário ganhou em relevância esses dias, depois da morte de um de seus personagens, o jornalista e autor Pete Hamill, aos 85 anos. A partida de Hamill foi o encerramento de um capítulo importante na história da imprensa norte-americana.

Ele e o amigo Jimmy Breslin (1929-2017) foram dois grandes nomes do colunismo diário e da defesa dos excluídos. Escreveram sobre tudo que dizia respeito a Nova York, mas principalmente sobre a vida dos bairros pobres e imigrantes.

Pessoalmente, os dois não podiam ser mais diferentes. Breslin era corpulento, fumava charutos na redação, falava alto e soltava cinco palavrões por minuto; Hamill era um dândi: bonito, elegante, se vestia com esmero e namorou Jackie Onassis, Linda Ronstadt e Shirley MacLaine. Breslin era amigo de mafiosos e bandidos; Hamill vivia cercado de escritores e artistas.

Mas eles tinham algumas coisas em comum: ambos vinham de famílias irlandesas muito pobres e foram criados por pais beberrões e ausentes. Breslin e Hamill cresceram com a pobreza e, por isso, a entendiam.

Breslin era seis anos mais velho que Hamill. Começou nos anos 1940, quando rolos de negativos com fotografias de jogos de beisebol eram enviados à redação por meio de pombos-correios. Desenvolveu um estilo de texto seco e minimalista, que muitos comparavam a Hemingway. Suas colunas influenciaram toda a turma do que se chamou, nos anos 1960, de "Novo Jornalismo", e que incluía Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer, Joan Didion e Hunter Thompson, entre outros.

Comparado a Breslin, Pete Hamill era mais lúdico e poético. Seus textos demonstravam uma sensibilidade ímpar para descrever pessoas e situações.

Os dois adoravam a rua. Todo dia, saíam por Nova York em busca de histórias para suas colunas. E não tinham medo de desafiar o senso comum.

Em 1984, quando um sujeito chamado Bernard Goetz atirou em quatro adolescentes negros - e supostos assaltantes - no metrô de Nova York, Jimmy Breslin foi o único jornalista a sair em defesa do menino e criticar o ato do "justiceiro". Sete anos antes, quando cinco adolescentes negros foram presos pelo estupro de uma mulher branca no Central Park, num caso que chocou a cidade e fez Donald Trump comprar anúncios de páginas inteiras em jornais exigindo a pena de morte para eles, Pete Hamill questionou a eficiência da investigação policial e o clima de linchamento público. Hamill estava certo: 13 anos depois, um homem confessou o crime, e os cinco foram soltos, num dos mais famosos casos de erro policial da história da cidade.

Breslin e Hamill tinham uma incrível faro jornalístico e estavam presentes em momentos importantes da História: Breslin estava próximo a Malcolm X quando este foi assassinado, e os dois acompanhavam Robert Kennedy quando o então candidato a presidente foi morto.

Depois do atentado ao presidente John Kennedy, em novembro de 1963, Jimmy Breslin escreveu duas colunas antológicas: a primeira contava a história sob o ponto de vista do cirurgião que tentou salvar a vida do presidente. A segunda relatava o domingo em que o coveiro do cemitério de Arlington, um homem negro de família pobre, cavou o túmulo de John Kennedy.

"Breslin e Hamill - As Vozes de Nova York" deveria ser matéria obrigatória em cursos de jornalismo e comunicação. É um filme sobre o poder da imprensa e das palavras. Mostra que nenhuma sociedade pode ser justa sem uma imprensa livre e crítica. E como é bom ver um filme com tantos depoimentos interessantes de pessoas interessantes, de cineastas como Spike Lee a jornalistas/autores como Gloria Steinem, Nick Pileggi (roteirista de "Os Bons Companheiros", de Scorsese), Tom Wolfe e Norman Mailer.

Uma ótima semana a todos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.