PUBLICIDADE
Topo

André Barcinski

Eddie Murphy, Steve Martin, Bill Murray: quando gênios improvisam

Bill Murray em cena do filme Ghostbusters - Divulgação
Bill Murray em cena do filme Ghostbusters Imagem: Divulgação
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

28/04/2020 09h49

Acabei de ler um livro formidável: "Wild and Crazy Guys", de Nick Semlyen, sobre a geração de cômicos que surgiu na América do Norte nos anos 80 e fez sucessos como "Clube dos Cafajestes", "Os Caça-Fantasmas", "Um Tira da Pesada", "Os Irmãos Cara de Pau", "O Panaca", "Antes Só do que Mal Acompanhado", "48 Horas" e tantos outros.

Aquela geração nasceu, basicamente, de dois programas de TV: o canadense "SCTV", que reunia Rick Moranis, John Candy, Martin Short e Catherine O'Hara., e o estadunidense "Saturday Night Live", que lançou Dan Aykroyd, John Belushi, Chevy Chase, Bill Murray, Gilda Radner e Eddie Murphy. Steve Martin não foi do elenco fixo do "Saturday Night Live", mas era amigo de todo mundo e participou mais de 20 vezes do programa.

O livro traz uma montanha de histórias sensacionais sobre o talento e os excessos da turma. De John Belushi empenado de pó com Robert De Niro e Robin Williams (e depois ficando com a mãe de Chevy Chase numa festa!), ao ego inflado de Chase, que cunhou a famosa frase "Eu sou Chevy Chase, e você não", passando pela comédia experimental de Steve Martin e pelo perfeccionismo e autoconfiança de Eddie Murphy, o livro é essencial para quem curte as comédias daquele período.

Capa do livro Wild and Crazy Guys, de Nick Semlyen - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Um dos aspectos mais interessantes do livro é descobrir como Hollywood, nos anos 80, ainda era um território livre para riscos e experimentações. Os grandes estúdios não tinham medo de deixar filmes caros nas mãos de diretores novatos como John Landis, Ivan Reitman, John Hughes e Harold Ramis, e esses diretores permitiam que o elenco do filme improvisasse diálogos e situações, confiando nos talentos cômicos de seus astros.

Há uma série de cenas clássicas desses filmes que foram parcial ou completamente improvisadas na hora da filmagem. Aqui vão cinco delas:

Ruprecht (Steve Martin) "vai ao banheiro" em "Os Safados"
Não sei se estou sozinho nessa, mas considero "Os Safados" (1988) uma das melhores comédias do cinema. Dirigida por Frank Oz, marionetista de "Os Muppets" e "Vila Sésamo", o filme tem Steve Martin e Michael Caine interpretando dois vigaristas rivais na Riviera Francesa que tentam roubar a fortuna de uma herdeira de um império de pasta de dentes, interpretada pela engraçadíssima Glenne Headley. No livro, Michael Caine conta que eles chegaram a fazer 30 tomadas de uma mesma cena porque ele não aguentava ficar sério e estragava tudo ao rir no meio do "take".

Numa das cenas antológicas do filme, Martin se passa por Ruprecht, irmão "problemático" de um nobre de araque, vivido por Caine. O que eu nunca soube é que essa cena foi inteiramente improvisada por Steve Martin:



Eddie Murphy apavora os caipiras em "48 Horas"
Em 1980, o programa "Saturday Night Live" sofreu uma mudança na direção e todo o elenco saiu, incluindo Dan Aykroyd e Bill Murray. Muita gente achou que era o fim, mas o programa foi salvo por um moleque de 18 anos, que em menos de dois anos se transformaria num dos maiores astros da comédia norte-americana: Eddie Murphy.

O filme de estreia de Murphy foi "48 Horas" (1982), uma comédia policial dirigida por Walter Hill ("Warriors"). Um dos grandes momentos do filme é a apavorada que Eddie dá num bar cheio de caipiras brancos. Originalmente, a cena teria o parceiro de Eddie, interpretado por Nick Nolte, fazendo o mesmo num bar frequentado por negros, mas Eddie Murphy estava tão por cima naquele momento, que a cena foi trocada. Na hora de filmar, Walter Hill deu carta branca a Murphy: "Faça o que você quiser". No meio da cena, vendo o improviso do ator, Hill virou para um assistente e disse: "Estamos ricos".


Bluto (John Belushi) se transforma numa espinha em "Clube dos Cafajestes"
John Belushi foi o primeiro astro da geração "Saturday Night Live", e "Clube dos Cafajestes" o filme que chamou a atenção para essa nova leva de comediantes. Foi a terceira maior bilheteria de 1978, atrás apenas de "Grease" e "Super-Homem".

O diretor John Landis, que faria depois o famoso clipe de "Thriller", de Michael Jackson, além de muitas comédias de sucesso, deu a Belushi espaço para improvisar, e ele inventou na hora essa cena clássica, em que seu personagem, o ogro Bluto, "interpreta" uma espinha explodindo...


Steve Martin "opera" Bill Murray em "A Pequena Loja dos Horrores"
Outro filme dirigido por Frank Oz, tem um elenco estelar, com Rick Moranis e Ellen Greene nos papeis principais e uma penca e participações especiais de gente do naipe de Steve Martin, John Candy, James Belushi (irmão de John) e Bill Murray.

E que sujeito interessante é Bill Murray: depois do sucesso mundial de "Os Caça-Fantasmas" (1984), Murray tirou quatro anos de férias, foi estudar filosofia na Sorbonne e depois cuidou da mãe, que estava morrendo de leucemia. Só interrompeu as férias para fazer uma participação especial em "A Pequena Loja dos Horrores", de seu amigo Frank Oz. Segundo Oz, a única exigência de Murray foi não precisar seguir o roteiro. "Não me importo se você decorar os diálogos ou não", disse Oz. "Você só tem de ser o masoquista e Steve, o sádico".

O resultado foi isso:


Chevy Chase e o beijo na "varanda"
Outro filme que já vi incontáveis vezes e verei quantas mais puder é "Three Amigos" (1986), de John Landis. Steve Martin, Martin Short e Chevy Chase fazem três atores que são confundidos com homens da lei e acabam numa pequena vila do interior do México, ameaçada por um bandoleiro sanguinário.
Numa das cenas mais ridículas - e, segundo o livro, incluída na hora por sugestão de Chevy Chase - seu personagem, Dusty Bottoms, recebe uma cantada de uma linda mexicana, dizendo que ele pode beijá-la "in the veranda". Dusty é um energúmeno, não sabe o que é "veranda", e responde: "Nos lábios está bom!"


Uma ótima semana a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.