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Aline Ramos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

10 erros que explicam o fracasso de Um Lugar ao Sol

Victor Pollak/TV Globo/Divulgação
Imagem: Victor Pollak/TV Globo/Divulgação
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Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

26/03/2022 04h00

Um Lugar ao Sol chegou ao fim nesta sexta-feira (25) com a marca de pior audiência da história das novelas da nove da Globo. A história de Licia Manzo tinha tudo para dar certo, mas em algum momento falhou e não caiu nas graças do público.

Para chegarmos a possíveis explicações dos motivos que levaram a isso, levantei alguns pontos com os erros mais impactantes da novela.

1. Tapa-buraco

Quando Um Lugar ao Sol começou, mal se falou sobre a novela na Globo. Com pouca divulgação, a trama de Lícia Manzo só virou reportagem no Fantástico um dia antes da estreia.

Já Pantanal, que virá logo depois, é assunto na emissora desde 2020, já que inicialmente estrearia ainda em 2021. Três meses antes de Um Lugar ao Sol ir ao ar, Alanis Guillen, que fará Juma Marruá no remake de Pantanal, deu uma entrevista de oito minutos ao Fantástico.

A sensação é que Um Lugar ao Sol veio para tapar um buraco. Se nem a emissora acreditava no potencial da novela, o público é que não acreditaria.

2. Horários flutuantes

Além de sofrer com a divulgação, Um Lugar ao Sol penou com a grade de horários da emissora. Na primeira semana, que é crucial para conquistar o público, a novela começou em horários muito diferentes. A sensação era de que a trama poderia ir ao ar em qualquer momento do dia, dificultando qualquer tipo de programação para acompanhar a história.

3. Personagens sem ou quase nenhum carisma

O elenco de Um Lugar ao Sol é incrível e deu um show de atuação em vários momentos. Já os personagens deixaram a desejar. Com a proposta de fugir do maniqueísmo do bem contra o mal, todos eles se tornaram detestáveis em algum nível. Se tornou impossível torcer para qualquer um, principalmente para o protagonista. E numa história que se desenrola por meses, a gente precisa torcer por alguém para continuar acompanhando.

4. Cenas a la Frankstein

Uma das qualidades da Licia Manzo é criar ganchos nos finais dos capítulos para fazer com que o telespectador volte no dia seguinte. Foi assim a maior parte do tempo, mas, em plena reta final, a novela foi picotada para que durasse mais que o previsto, uma vez que Pantanal sofreu alguns atrasos por conta da pandemia. A partir daí, a história ficou um pouco confusa e sem o mesmo apelo de antes.

5. Fotografia de cinema

A fotografia com tons azulados e mais escuros gerou estranhamento desde o primeiro minuto. Um Lugar ao Sol não tinha cara de novela e não se parecia com uma novela. Apesar de bonita, não agradou boa parte do público. Com o tempo, foi mudando um pouco e ficou mais clara, mas talvez tenha sido tarde demais.

6. História andando em círculos

A premissa de Um Lugar ao Sol é muito interessante, mas começou a se tornar chata ao passo que a história parou de andar para frente e ficou presa em círculos viciosos. No texto, isso até pode ser bonito e poético, mas na prática se tornou exaustivo. A sensação é que estávamos presos num dia da marmota.

7. Uma gorda reduzida a ser gorda

Nicole, interpretada por Ana Baird, é uma das personagens que andou em círculo a novela inteira. Seu papel era ser gorda, respirar como gorda, pensar como gorda e fazer sexo como gorda. Até dava para reparar uma tentativa de abordar a gordofobia, mas Nicole e o público ouviram por meses ofensas gordofóbicas pesadas, sem qualquer tipo de contraponto. Precisamos retratar a história de mulheres como a Nicole, mas não resumindo mulheres gordas apenas ao seu corpo.

8. Falta de continuidade

Alguns temas foram jogados para o público e não receberam a devida atenção depois. No início da novela, Ravi, interpretado por Juan Paiva, tinha uma certa dificuldade de aprendizagem devido aos traumas da infância. Porém, em nenhum momento houve explicação sobre o diagnóstico. E pior, essa dificuldade sumia e aparecia num passe de mágica.

Outra história que apareceu e sumiu do nada foi o estupro que Cecília (Fernanda Marques) sofreu numa balada. Ela chegou a engravidar, ser internada num hospital, mas parece que deixaram de lado a forma que tudo aconteceu. O silêncio sobre o estupro passa uma mensagem errada: que a cena que vimos foi de uma relação consentida. O que não é o caso, uma vez que ela estava muito alcoolizada e sem condições de dizer sim ou não.

9. Esvaziamento da trama sobre violência doméstica

Stephany, interpretada por Renata Gaspar, era vítima de violência desde o primeiro momento que apareceu em Um Lugar ao Sol. Como personagem secundária era essa a sua história. Porém, na reta final, se tornou uma espécie de vilã ao descobrir o segredo de Christian (Cauã Reymond). Ela passou a chantageá-lo de todas as formas possíveis. A mudança brusca na personagem pouco antes dela ser assassinada pelo ex inverteu os valores da trama que estava sendo construída.

10. Demora para apresentar desfechos

Muita coisa ficou para ser resolvida no último capítulo da novela e não deu tempo suficiente para o público apreciar a história. Dava para ter feito com que Christian revelasse que não era o Renato muito antes, assim poderíamos acompanhar com calma as consequências dos seus atos e o seu sofrimento. Deixaram o melhor pros 45 do segundo tempo. Não precisava disso.