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Aline Ramos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Versão nacional de Casamento às Cegas desperta o pior do homem

Alisson Louback/NETFLIX
Imagem: Alisson Louback/NETFLIX
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Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

12/10/2021 04h00

A versão brasileira de Casamento às Cegas, reality show da Netflix, já começou nos dando motivos para rir, sentir vergonha alheia e também ficar com raiva. Tudo dentro do que esperamos em uma atração do tipo.

Até o momento, estão disponíveis quatro dos dez episódios da temporada. E o que já vimos é suficiente para perceber que o programa despertou algumas das piores coisas que os homens heterossexuais têm a oferecer.

Essa conclusão é preocupante. Afinal, eles estão ali tentando apresentar o que têm de melhor e conquistar as suas futuras esposas. Bem vestidos, com barbas ajeitadas e cortes de cabelo em dia, todos falam de si como se estivessem numa entrevista de emprego. E mesmo fazendo de tudo para se saírem bem, deixaram escapar comportamentos lamentáveis e desagradáveis.

Amedrontados

No primeiro jantar do casal Hudson Mendes e Carolina Novaes, há um conflito entre eles sobre a ordem em que o garçom seguia para servi-los. Carol questionou por que o homem sempre tinha prioridade na hora de degustar o vinho. Hudson não gostou da interferência da noiva.

Carol fez apenas uma pergunta, sem ofensas ou acusações. Mesmo assim, Hudson disse ter se sentido constrangido e incomodado com a postura dela. Por mais que ele tentasse dizer que apoiava a noiva, ficou claramente amedrontado pela postura feminista dela. Foi uma impressionante demonstração de imaturidade diante de uma simples questão.

Ego frágil

O assunto voltou à pauta no dia seguinte durante uma confraternização com outros casais do programa. Para Carol, já era um tema superado, e ela contou a história para ter a opinião das mulheres. Porém, a atitude não foi tão bem recebida e quem resolveu abrir a boca para dar opinião foram eles: os homens.

Hudson novamente não gostou da atitude da noiva, e disse que ficou parecendo que ele era machista. Afetado com a situação, decidiu abrir na rodinha dos homens todo o seu descontentamento com Carol.

O rapaz, que se dizia tão apaixonado e satisfeito, falou com muita preocupação sobre a sua pretendente. A rodinha alimentou o sentimento dele. A situação tomou proporções muito maiores do que deveria. Carol tinha dito apenas que a tradição era machista. Mas, para os homens, ela já era uma ameaça.

"Mimimi"

Ainda no debate sobre o tema, o participante Thiago Rocha sugeriu até que Hudson educasse a futura esposa de um jeito diferente. Além de deixar evidente que não gostou de Carol, a postura dele também mostrou como enxerga as mulheres: uma posse.

Em seu perfil no Instagram, Thiago se manifestou sobre as críticas que tem recebido por esse comportamento. O paraquedista classificou as reclamações como "mimimi" e disse que apenas deu a sua opinião sobre algo que ele, Hudson e todos os homens não gostaram. Para completar, afirmou que Carol foi intolerante ao levantar uma "bandeira".

Coach de machismo

Ao comentar o assunto, o participante Lissio foi um pouco mais discreto e falou como se fosse um coach. Ele repetiu diversas vezes que Hudson não deveria abandonar a própria essência e se diminuir para se relacionar com Carol. Tudo por causa de um questionamento sobre algo estrutural de nossa sociedade, como se ela tivesse acusando o noivo de algum crime.

Superdimensão

A importância que os rapazes de Casamento às Cegas Brasil deram a uma suposta acusação de machismo mostrou, mais uma vez, como há uma geração de homens mais preocupados em não parecer machistas do que em não ser.

Ainda temos mais seis episódios pela frente para descobrir como essa história se desenrolou e se o comportamento dos homens ficou menos afetado. Para ser sincera, o que vimos até aqui nos leva a crer que nada mudou. Eu só espero que não piore.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL