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Aline Ramos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Negacionismo de Alexandre Garcia compromete credibilidade da CNN

Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

13/06/2021 12h06Atualizada em 13/06/2021 22h09

O canal do jornalista Alexandre Garcia no Youtube lidera a lista feita pelo Google com os vídeos que mais lucraram com notícias falsas durante a pandemia da covid-19. De acordo com O Globo, o comentarista da CNN Brasil faturou quase R$70 mil por audiência e publicidade com o conteúdo divulgado na plataforma.

Os dados sigilosos foram enviados pelo Google à CPI da Covid a pedido do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). A lista tem 34 canais e 385 vídeos que monetizaram conteúdos identificados como disseminadores de fake news sobre a pandemia no Brasil. Alexandre Garcia teve 126 vídeos retirados do ar, por ele próprio ou pelo Youtube.

As informações reveladas se somam à série de situações que mostram como a presença de Alexandre Garcia como comentarista na CNN é um desserviço para a credibilidade do jornalismo do canal. Não é apenas no Youtube que ele dissemina notícias falsas e inconsequentes sobre a pandemia.

Negacionismo na tela da CNN

Na CNN, Alexandre Garcia participa do quadro diário "Liberdade de Opinião", que é parte do programa "Novo Dia". Apenas no que diz respeito à pandemia, foram várias as ocasiões em que o jornalista utilizou seu espaço na emissora para propagar informações irresponsáveis sobre o combate ao vírus. Exemplo disso são as constantes defesas do tratamento precoce e do uso de hidroxicloroquina contra a Covid-19, que são métodos que não têm comprovação científica.

Em determinada ocasião, quando questionado pelo âncora Rafael Colombo sobre a ausência do reconhecimento da eficácia desse tipo de tratamento por parte da Organização Mundial de Saúde, Garcia disse que o presidente Jair Bolsonaro "é a comprovação científica de que o uso da hidroxicloroquina dá certo".

O presidente, inclusive, compartilhou um vídeo em que o jornalista cita um estudo antigo e desacreditado para defender o uso da cloroquina. O Twitter incluiu no post um aviso de que o conteúdo divulgado inclui "informações enganosas e potencialmente prejudiciais relacionadas à Covid-19" .

Irresponsabilidade não é contraponto

Em entrevista ao Notícias da TV, Renata Afonso, CEO da CNN Brasil, justificou a presença no canal dos comentaristas Alexandre Garcia e Caio Coppolla. "Eu acho que o debate plural e de alto nível tem que acontecer sempre. Tem um contraponto. Essas pessoas representam uma fatia importante da população brasileira. Por sua vez, o outro lado também tem seu espaço dentro da CNN. Acho que isso a gente vai intensificar cada vez mais. Com o compromisso com a notícia, com a verdade, em que a gente vai de fato sempre trazer debates de altíssimo nível", disse.

O erro na análise da CEO está na confusão entre contraponto e negacionismo. Ter opiniões diversas e contrárias pode ser muito saudável para um bom debate. Já as análises que partem de informações não referendadas pela ciência, sobretudo quando a pauta é pandemia, são perigosas, já que envolvem a saúde das pessoas.

Ao defender a cloroquina e o tratamento precoce contra a Covid-19, Alexandre Garcia não serve como um contraponto de viés conservador, mas como disseminador de um discurso irresponsável. Levar ao ar opiniões e análises que partem de informações infundadas, inverídicas e não comprovadas cientificamente não representa compromisso com a notícia e a verdade, como afirmou Renata.

Exemplo da matriz

Cabe lembrar que, na CNN dos Estados Unidos, Brianna Keilar, âncora do programa "CNN Right Now", interrompeu ao vivo uma entrevista com um assessor do ex-presidente Donald Trump que estava defendendo o uso da cloroquina. "Você está prestando um desserviço real aos americanos", disse a jornalista na ocasião. A filial brasileira poderia ir pelo mesmo caminho.

Ao manter Alexandre Garcia no ar, a CNN ajuda a espalhar discursos que são um desserviço para um assunto tão sério como o combate à covid-19. Mais que isso, a emissora passa ela mesma a ser fonte de fake news, uma vez que o comentarista é funcionário da emissora e não um mero convidado. As informações reveladas pela lista enviada pelo Google à CPI da Covid evidenciam ainda mais esse problema.

No fim, tudo isso atrapalha a credibilidade do jornalismo feito pelo canal e prejudica os muitos profissionais competentes e comprometidos em fazer um trabalho sério e de qualidade na emissora. Uma pena. Todos perdem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL