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Aline Ramos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

MC Kevin: Bacci espreme morte até última gota e excede função de jornalista

Divulgação/Record TV
Imagem: Divulgação/Record TV
Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

24/05/2021 12h25

Neste domingo (24), um laudo da perícia do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) concluiu que a morte de MC Kevin em um hotel no Rio de Janeiro foi acidental. Desde que o ocorrido com o cantor veio à tona, o Cidade Alerta, da Record, tem sido praticamente todo dedicado ao caso. Apresentador do programa, Luiz Bacci é a figura central da cobertura, tanto na TV quanto em seu perfil no Instagram.

Exigir que um jornalista nunca se envolva com a notícia seria pedir demais. Afinal, não há técnica jornalística que nos tire a humanidade. Entretanto, há um limite entre se envolver e virar parte da notícia. E Bacci ultrapassou essa fronteira. Ao se colocar frequentemente como elemento ativo no caso, o apresentador extrapolou as suas funções como âncora de um programa policial jornalístico.

Protagonismo indevido e insensível

Em diversos depoimentos e versões apresentados na última semana, Bacci especulou sobre teses e possíveis explicações sobre a morte do cantor, quase sempre de maneira descontextualizada. Um dos piores momentos foi a entrevista com familiares da vítima no dia seguinte ao acidente. De forma indelicada, o apresentador perguntou à irmã de Kevin se o cantor não poderia ter cometido suicídio.

Em outra ocasião, Bacci interrompeu a exibição da entrevista de Roberto Cabrini com Bianca Domingues, que estava com Kevin durante o ocorrido. O apresentador tinha trocado mensagens com a modelo e perguntado por que o cantor se jogou e se ela não teria feito nada para impedi-lo.

Bacci se irritou ao vivo com indiretas postadas por Bianca que falavam de um jornalista fofoqueiro e que estaria se aproveitando da dor alheia. Vestindo a carapuça, o apresentador ameaçou bloqueá-la no Instagram e encerrou o discurso com uma fala pejorativa. "Eu sou jornalista há 26 anos e você é uma garota de programa testemunha de um crime", afirmou.

Também na semana passada, Bacci trocou farpas publicamente com MC Hariel, cantor e amigo de Kevin. Em março deste ano, o Cidade Alerta noticiou que Hariel era um dos envolvidos em operação policial contra MC's acusados de serem patrocinados com dinheiro do tráfico de drogas. O tom preconceituoso da matéria certamente irritou o artista. Na ocasião, a mãe do cantor jogou água na equipe de reportagem da Record.

Agora, enquanto cobria a morte de MC Kevin, Bacci falou sobre Hariel. De início, disse que não o conhecia e que seu nome lembrava marca de sabão. Depois, relembrou um desentendimento que teve com o artista e voltou a alfinetá-lo. "O que você tem de seguidores, eu tenho em views nos stories", ironizou o apresentador. Hariel rebateu as declarações, afirmou que a acusação de envolvimento com dinheiro do tráfico foi arquivada e retrucou Bacci com veemência.

Papel de justiceiro

O tipo de jornalismo feito pelo Cidade Alerta já é polêmico e questionável por si só. Mas, além disso, Bacci excede a figura de um apresentador e surge na tela como justiceiro que instiga a solução de crimes, algo que não lhe cabe.

Essa postura é jornalisticamente ruim e também pode ser irresponsável. Não à toa, em outubro de 2020, Bacci e a Record foram condenados a pagar R$ 50 mil a um homem falsamente acusado pelo programa de abusar sexualmente da enteada e assassiná-la. Chamado pelo apresentador de "monstro" e "padrasto cruel", o homem foi inocentado pelo laudo necroscópico, que apontou morte por infecção pulmonar grave.

Em março deste ano, Bacci também extrapolou sua função e virou investigador ao entrevistar Jhacy França, que acusava MC Lan de estupro. No ano passado, a filha de um homem assassinado protestou ao vivo contra a qualificação de seu pai como "agiota", o que, segundo ela, estava errado e era uma irresponsabilidade jornalística, além de desrespeito com a família. Também em 2020, uma mãe descobriu durante conversa com Bacci que a filha foi assassinada e desmaiou no ar, o caso gerou o afastamento da editora-chefe do programa. Esses são apenas alguns ocorridos recentes, a lista de situações do tipo é lamentavelmente longa.

Limites ultrapassados

Com a morte do MC Kevin sendo uma das notícias de maior repercussão na última semana, Bacci mergulhou de cabeça na história. Para muita gente, o Cidade Alerta e o Instagram do apresentador eram as principais fontes de informações.

A audiência pode ter feito Bacci acreditar que era parte da história que narrava para o público. O Cidade Alerta teve ótimos números durante a semana, chegando a ser vice-líder isolado em seu horário. Na segunda-feira (17), o programa bateu seu recorde do ano. Já no Instagram, o apresentador celebrou o engajamento de mais de 1 bilhão de visualizações em seu perfil.

Fato é que o comportamento de Bacci o colocou como protagonista no caso, sendo inclusive uma figura de destaque nos perfis de fofoca do Instagram, que também cobriram intensamente o caso.

E no último sábado, Bacci foi além e esteve em frente ao hotel que ocorreu a morte de MC Kevin. Ele fez considerações sobre a estrutura do hotel e afirmou ser muito triste passar em frente ao local. É a coisa mais normal do mundo um jornalista ir atrás da notícia, certo? Ainda não sabemos como e se esse material será apresentado no Cidade Alerta, mas pelo Instagram já podemos concluir que há mais do mesmo: uma pessoa que não é parte da notícia, mas que age como se fosse.

Tudo tem limite.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL