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Aline Ramos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Indicado ao Oscar, 'Dois Estranhos' apresenta nova visão sobre racismo

Filme Dois Estranhos, indicado ao Oscar, debate violência policial  - Divulgação / Netflix
Filme Dois Estranhos, indicado ao Oscar, debate violência policial Imagem: Divulgação / Netflix
Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

14/04/2021 17h23

O filme 'Dois Estranhos', que entrou recentemente no catálogo da Netflix, ganhou notoriedade após ser indicado à categoria de "Melhor curta-metragem" do Oscar. Com 32 minutos de duração, a obra dirigida por Travon Free e Martin Desmond Roe é uma ótima oportunidade para debater violência policial e métodos para combater o racismo.

A história

'Dois Estranhos' repete o formato de ciclo temporal, mas apresenta uma história diferente do que estamos acostumados a ver em obras do tipo. No filme, o cartunista Carter, interpretado pelo rapper Joey Bada$, é morto por um policial assim que coloca os pés na rua. Ele só quer voltar para casa e passear com seu cachorro, mas acorda sempre no mesmo dia e é impedido pelo mesmo policial de cumprir a tarefa.

Para tentar escapar desse ciclo, Carter muda a sua forma de agir, as roupas que veste, o jeito de andar e até conversa com o policial. Porém, o plano dá errado em todas as ocasiões e ele é assassinado, sempre de uma forma diferente. A sequência frustrada do protagonista deixa claro que o problema não está nas pessoas negras que são alvo da violência policial, mas no sistema e nas pessoas racistas.

Conexão humana resolve tudo?


A repetição do ciclo temporal em Dois Estranhos também funciona para nos mostrar que o assassinato em massa de pessoas negras não é mero engano ou caso isolado. A prática é sistemática e escancara um problema grave e profundo nas corporações policiais. Negros ainda são vistos como uma ameaça.

Um fato que chama atenção no filme é a tentativa de Carter de sensibilizar o policial para não matá-lo. Ele apela para diversas coisas e o policial chega a ouvi-lo, mas de nada adianta. Estabelecer conexões humanas é uma estratégia que muitos defendem no combate ao racismo, mas será que é de fato eficaz? Será que uma pessoa racista é capaz de se sensibilizar com histórias e imagens de violência contra negros?

Histórias reais

'Dois Estranhos' conta uma história difícil de assimilar e assistir. É impossível não lembrar de casos reais como o de George Floyd. Inclusive, em todo o filme há referências sobre ele e outras vítimas de violência policial nos Estados Unidos.

Em dado momento, a crítica fica escancarada. Carter chega a dizer:

Vocês investigam nossos bairros demais e nos punem demais, nos prendem para sempre por bobagens que são brincadeira para os brancos.

O diálogo do filme com a realidade é uma qualidade, mas também pode ser um gatilho para pessoas negras. As cenas de violência são muito fortes e reais demais. Por isso, não recomendo para quem já é sensível a esses tipos de imagem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL