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Todo Mundo Odeia o Chris: entenda a síndrome da Senhorita Morello

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Imagem: Reprodução
Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

24/09/2020 04h00

A série Todo Mundo Odeia o Chris continua atual mesmo após 15 anos de seu lançamento. Isso acontece não só pela capacidade que a trama tem de fazer qualquer um rir, mas também pelas críticas sociais que apresenta de maneira didática e sutil.

Síndrome da Senhorita Morello

A Senhorita Morello, por exemplo, nos dá uma aula sobre racismo. A professora tem tantas atitudes racistas ao longo da série que teve seu comportamento batizado como "Síndrome da Senhorita Morello".

Muitos fãs observaram ao longo dos anos que o jeito da professora tratar Chris representa um tipo específico de pessoas brancas racistas. A Senhorita Morello não chama Chris de macaco e nem usa termos racistas para xingar o aluno. Porém, ela deduz muitas coisas sobre ele e sua família apenas pelo fato de eles serem negros. E o pior, ela faz tudo com aquele jeitinho paternalista.

Sendo mais clara: a Senhorita Morello diz coisas racistas para o Chris com uma cara de dó.

Aqui estão alguns exemplos:

Chris, vocês negros têm uma capacidade incrível de dissimular. Vai ser ótimo ter um negro representante na peça.

Morello acredita que Chris seja dissimulado porque para ela TODOS os negros são dissimulados. Ela diz algo racista buscando um lado positivo. Dessa forma, não parece que ofendeu o aluno.

Chris, eu estou muito decepcionada com você. Eu sei que nicotina, torresmo e bebidas fortes são vícios dos negros. Mas por que infectar o Greg?

A forma diferente que Morello trata Chris e Greg, que é um garoto branco, também deixa evidente como a professora é racista. Ela busca proteger Greg a todo custo e para isso diz as coisas mais absurdas. Novamente, ela age a partir de um estereótipo criado por pessoas brancas sobre pessoas negras.

O povo do Chris tem o costume de acordar com o canto do galo para ir trabalhar no campo.

Quando todos os negros acordavam com o canto do galo para ir trabalhar no campo, eles eram escravizados. Supor que TODOS ainda trabalham no campo mesmo morando numa zona urbana só nos diz uma coisa: Senhorita Morello foi racista mais uma vez.

Infelizmente, acho que o Chris é um filho da droga, a mãe dele tem alucinações. O cérebro foi afetado por anos de uso de drogas e excesso de vinho barato. Ela está mesmo convencida de que tem um marido que trabalha em dois empregos, e de que eles têm uma casa no gueto. Não acredite em nada do que ela disser.

Acho que todo mundo que é fã de Todo Mundo Odeia o Chris sabe bem quem é a Rochelle e que o marido dela tem dois empregos. Supor que toda família negra seja desestruturada porque é negra, nem preciso dizer, é racismo. Chris não dá indícios e muito menos motivos para que a sua professora acredite que ele seja um "filho da droga".

Estereótipos racistas

Morello, com frequência, usa a expressão "seu povo" ou "povo do Chris" quando quer se referir a todos os negros. Para ela, há um claro distanciamento entre ela e os negros. Por isso, a professora sente a necessidade de salvar Chris dos vícios e maus hábitos que ela acredita que cercam o aluno.

A professora trata Chris como o representante de todos os negros quando ele é só uma criança tentando crescer e curtir sua vida como qualquer outra. Parece bobo o que vou dizer, mas acho importante lembrar: pessoas negras são apenas pessoas.

Sempre que uma ideia que você tem sobre todos os negros surgir, pergunte a si mesmo por que pensa naquilo. Isso pode te salvar de ser uma Senhorita Morello.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.