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Renasce em Miami hotel que testemunhou época de segregação racial nos EUA

O local quer se transformar em um museu e salão social - Reprodução/historichamptonhouse.com
O local quer se transformar em um museu e salão social Imagem: Reprodução/historichamptonhouse.com

Estephani Cano

De Miami

04/09/2015 13h02

Até a segunda metade do século passado, durante os anos de segregação racial nos Estados Unidos, os negros não podiam se hospedar nos hotéis da luxuosa cidade de Miami Beach, e o Hampton House Hotel se transformou em ponto de encontro desta comunidade no sul da Flórida durante a época.

Em suas instalações, o famoso boxeador Cassius Clay celebrou sua vitória sobre Sonny Liston no torneio dos pesos pesados de 1964. Também foi neste hotel que o líder Martin Luther King pronunciou pela primeira vez o discurso "Eu tenho um sonho", três anos antes da célebre fala na escadaria do monumento Lincoln, em Washington.

"O prestígio do Hampton ultrapassava a tensão racial da época. No lugar era possível encontrar pessoas de todas as raças que iam ver seus maravilhosos espetáculos", contou Enid Pinkney, diretora do Historic Hampton House Community Trust, a entidade encarregada de sua preservação.

Atualmente com 84 anos, ela lembrou que não era raro o emblemático hotel, situado no bairro de Brownsville, na parte oeste de Miami, receber artistas do porte de Sammy Davis Jr., Jackie Robinson, Sam Cooke e Nat King Cole, além de atletas de destaque, como a tenista Althea Gibson.

Todos estavam sujeitos à legislação da época, que proibia as pessoas negras de se hospedarem em hotéis de Miami Beach. No entanto, os mesmos estabelecimentos costumavam contratar muitos artistas afro-americanos para entreter seus hóspedes brancos.

"Depois que terminavam seus shows, os músicos precisavam buscar quartos na área dos negros, que era todo o bairro de Overtown, colado ao centro de Miami e designado e limitado a residentes afro-americanos", lembrou Pinkney.

Quase como uma ponte entre raças e elo entre Miami Beach e Overtown, a edificação de dois andares do Hampton House, com 30 mil metros quadrados e 50 quartos, surgia também como uma plataforma para noites intermináveis de festa e música, graças ao seu clube de jazz. Muitos destes espetáculos contavam com estrelas da época, como Frank Sinatra e alguns membros do grupo dos cantores e atores que integravam o famoso "Rat Pack".

"No Hampton, a raça nunca foi um problema, porque tudo se tratava de boa música, vestidos elegantes e banquetes de comida gourmet", afirmou Pinkney, que na juventude aguentou "todo tipo de discriminações" e, por isso, só frequentava "lugares autorizados para os negros", como o elegante Hampton House Hotel.

Orgulho
Um dos artistas que se apresentavam no local, o hoje reverendo Walter Richardson, lembrou que o hotel costumava estar decorado "de maneira muito elegante", sempre rodeado de automóveis luxuosos, e que "era um lugar com muito boa reputação, um orgulho para a comunidade negra em Miami".

Nesse momento, o jovem pianista "só desfrutava da tremendo honra de tocar para grandes estrelas e distintos visitantes", mas não sabia "que presenciava um momento histórico para a humanidade", em alusão à luta pelo direitos civis que era gestada na década de 1960.

Em 1972, este emblemático hotel foi obrigado a fechar quando sua clientela se espalhou pela cidade "para desfrutar dos lugares que anteriormente eram proibidos para eles, especialmente na área de brancos", como recordou Richardson.

Após 43 anos de abandono, o histórico edifício foi reinaugurado este ano, após um processo de remodelação, embora ainda permaneça fechado ao público até que consiga arrecadar doações que o permitirão se sustentar economicamente.

O local quer se transformar em um museu e salão social, e ao mesmo tempo em um tipo de emblema "da memória histórica afro-americana em Miami, que transmita às novas gerações os grandes sacrifícios que a comunidade negra teve que passar para chegar onde estamos hoje", manifestou Pinkney. "Porque quando sabemos sobre nosso passado, temos mais respeito por nós mesmos e não cometemos os mesmos erros", concluiu.